Um novo modelo de operação logística da Brado pretende reduzir um dos desperdícios mais comuns no transporte rodoviário de cargas: as viagens de retorno com caminhões vazios. Batizado de Projeto Carrossel, o sistema conecta o Porto de Santos, o terminal de Sumaré, no interior de São Paulo, e a unidade de Rondonópolis (MT) para transformar o retorno dos veículos em uma nova oportunidade de frete.
A lógica é integrar os fluxos rodoviário e ferroviário. O caminhão que leva um contêiner de importação ou de cabotagem do litoral para o interior paulista deixa o equipamento no terminal de Sumaré depois de entregar a mercadoria ao cliente. Em vez de retornar a Santos para devolver o contêiner vazio, passa a receber no próprio terminal uma nova unidade carregada com produtos destinados à exportação.
A carga segue então para Santos, enquanto os contêineres vazios são transportados por ferrovia até Rondonópolis. Lá, são disponibilizados para os embarques de produtos do Mato Grosso destinados ao mercado externo.
O modelo cria um fluxo circular entre os três pontos e procura reduzir deslocamentos sem carga, que representam custo para transportadores e ocupam capacidade das rodovias sem gerar uma nova receita para o caminhoneiro.
Segundo a Brado, o projeto tem potencial para ampliar em 133% a capacidade de movimentação do terminal de Sumaré até 2032. A estimativa também é de crescimento de até 166% no número de caminhões atendidos diariamente na unidade.
Caminhão volta carregado
A principal mudança ocorre na operação do transporte rodoviário. No modelo tradicional, depois de entregar uma carga no interior paulista, o caminhão precisa retornar ao litoral para devolver o contêiner vazio ou buscar uma nova operação.
Com o Carrossel, essa etapa é eliminada. O motorista entrega o equipamento vazio em Sumaré e pode sair do mesmo terminal com outro contêiner, desta vez carregado com mercadorias do Centro-Oeste que seguirão para exportação pelo Porto de Santos.
“Na prática, o caminhoneiro é um dos principais beneficiados por esse modelo”, afirma Laion Suprano, gerente do terminal da Brado em Sumaré. Segundo ele, a operação permite substituir um trecho de menor retorno financeiro por uma viagem com nova carga. Além de aumentar a possibilidade de faturamento, a medida reduz o tempo de espera entre operações.
O modelo também pode diminuir a exposição dos transportadores a deslocamentos adicionais até os terminais portuários, principalmente em situações de filas ou restrições de recebimento.
Para os donos das cargas, a empresa aponta como principal ganho a previsibilidade. A devolução do contêiner vazio passa a ocorrer em Sumaré, reduzindo a dependência do deslocamento até Santos e o risco de custos adicionais relacionados à permanência do equipamento além do prazo contratado.
Ferrovia abastece exportações de MT
A operação não se limita ao trecho paulista. Depois de passar por inspeção e preparação em Sumaré, os contêineres vazios são levados por ferrovia até Rondonópolis. A ideia é aumentar a disponibilidade de equipamentos para os embarques de exportação do Mato Grosso, um dos principais polos agrícolas do país.
“Na logística, previsibilidade é um fator tão importante quanto capacidade”, afirma Renata Paschoali, gerente comercial da Brado. Com mais contêineres disponíveis no momento do embarque, a empresa espera dar maior regularidade ao fluxo de cargas destinadas ao mercado externo.
A Brado estima que o projeto possa elevar de duas a três vezes o volume mensal de trens nessa rota, acompanhando o crescimento da movimentação de contêineres.
Terminal ganha automação
Para viabilizar o aumento da circulação, a Brado também investiu na infraestrutura dos terminais de Sumaré e Rondonópolis. As unidades receberam expansão das áreas de armazenagem e novos sistemas de automação. Em Sumaré, foram instalados gates autônomos equipados com quatro balanças integradas.
A tecnologia automatiza a pesagem dos veículos e busca reduzir o tempo de atendimento dos caminhões dentro do terminal. A estratégia combina, portanto, três movimentos: retirar dos caminhões parte dos deslocamentos sem carga, usar a ferrovia para reposicionar os contêineres vazios e aumentar a velocidade de entrada e saída dos veículos nos terminais.
O resultado esperado é uma operação mais próxima de um circuito contínuo, em que o equipamento utilizado em uma etapa já é direcionado para a próxima carga, reduzindo o tempo em que caminhões e contêineres permanecem parados.
Para a Brado, o desafio passa a ser fazer esse fluxo crescer sem criar novos gargalos nos terminais. A projeção de aumento da capacidade de Sumaré até 2032 está diretamente relacionada à expansão desse modelo de circulação entre São Paulo, Mato Grosso e o Porto de Santos.
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