Como a Boeing reduziu prejuízo ao apostar na retomada da produção das aeronaves 737

A linha de aviões de corredor único é o principal produto comercial da fabricante americana e disputa o mercado global com a família A320neo, da europeia Airbus

Aline Feltrin

Depois de enfrentar uma das maiores crises de sua história, a Boeing começa a mostrar sinais de recuperação operacional. A fabricante americana reduziu o prejuízo no segundo trimestre de 2026, aumentou as entregas de aviões comerciais, voltou a gerar caixa e alcançou uma carteira de pedidos recorde — movimento que reforça a estratégia da companhia de recuperar a produção e reconquistar a confiança do mercado.

Entre abril e junho, a Boeing registrou receita de US$ 24,6 bilhões, alta de 8% na comparação com o mesmo período do ano passado. O desempenho foi impulsionado principalmente pela entrega de 171 aeronaves comerciais, crescimento de 14% sobre as 150 unidades entregues no segundo trimestre de 2025.

Mesmo com a melhora operacional, a empresa ainda permaneceu no vermelho. O prejuízo líquido foi de US$ 428 milhões no trimestre, ante uma perda de US$ 612 milhões um ano antes. No critério ajustado, a perda ficou em US$ 0,76 por ação.

O principal avanço veio do caixa. A Boeing gerou US$ 1,4 bilhão em fluxo de caixa operacional no segundo trimestre, contra US$ 227 milhões no mesmo período de 2025. O fluxo de caixa livre ficou positivo em US$ 631 milhões, revertendo o resultado negativo de US$ 200 milhões registrado um ano antes.

“Estamos construindo uma operação mais estável. Nosso foco tem sido restaurar a confiança por meio da segurança, qualidade e desempenho dentro dos prazos”, afirmou Kelly Ortberg, presidente e CEO da Boeing.

Retomada da produção das aeronaves 737

A retomada da produção das aeronaves 737 está no centro da estratégia da Boeing para recuperar escala e rentabilidade. A linha de aviões de corredor único é o principal produto comercial da fabricante americana e disputa o mercado global com a família A320neo, da europeia Airbus.

No segundo trimestre, a Boeing iniciou a transição da linha de produção das aeronaves 737 para um ritmo de 47 unidades por mês. A empresa também concluiu os testes de voo para certificação das versões 737-7 e 737-10 e mantém a previsão de certificação em 2026, com primeiras entregas em 2027.

A divisão Commercial Airplanes, responsável pelos aviões comerciais, registrou receita de US$ 11,8 bilhões no trimestre, crescimento de 8%. Apesar do avanço, a unidade ainda teve prejuízo operacional de US$ 322 milhões, reflexo dos custos elevados associados à retomada da produção e aos ajustes industriais.

A recuperação dessa operação é considerada fundamental para a Boeing transformar sua carteira de pedidos em receita. A companhia encerrou junho com mais de 6.200 aviões comerciais encomendados, avaliados em US$ 596,7 bilhões.

Carteira de pedidos bate recorde

A demanda por novos aviões continua sendo um dos principais fatores positivos para a fabricante americana. A Boeing terminou o segundo trimestre com uma carteira global de pedidos de US$ 715 bilhões, o maior volume já registrado pela companhia.

No período, a empresa recebeu 246 pedidos líquidos de aeronaves comerciais, incluindo encomendas de companhias como Delta Air Lines, Korean Air e da empresa de leasing SMBC Aviation Capital.

O cenário de demanda permanece favorável. Companhias aéreas em diversas regiões do mundo enfrentam restrições de capacidade e buscam ampliar ou renovar suas frotas, especialmente diante do crescimento do transporte aéreo global.

Enquanto a aviação comercial começa a reagir, a área de Defesa, Espaço e Segurança continua pressionando os resultados da Boeing. O segmento registrou receita de US$ 7,5 bilhões no segundo trimestre, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025, mas teve prejuízo operacional de US$ 15 milhões.

Um dos principais impactos veio do programa VC-25B, o novo avião presidencial americano conhecido como Air Force One. A Boeing reconheceu perdas adicionais de US$ 280 milhões no projeto, relacionadas a investimentos extras em produção e certificação.

A carteira de pedidos da divisão de defesa chegou a US$ 85,3 bilhões no fim do trimestre. A área de Serviços Globais continua sendo uma das operações mais rentáveis da Boeing. O segmento, que reúne manutenção, treinamento e suporte às companhias aéreas, registrou receita de US$ 5,3 bilhões no segundo trimestre e lucro operacional de US$ 968 milhões. A margem operacional ficou em 18,1%, embora abaixo dos 19,9% registrados no mesmo período do ano anterior.

Próximo desafio é transformar pedidos em lucro

Apesar da melhora operacional, a Boeing ainda tem desafios pela frente. A companhia encerrou junho com dívida consolidada de US$ 45,9 bilhões e continua pressionada por custos industriais elevados.

O resultado do segundo trimestre, porém, indica uma mudança de trajetória. Ao aumentar as entregas, estabilizar a produção das aeronaves 737 e recuperar a geração de caixa, a Boeing começa a transformar uma carteira bilionária de pedidos em uma oportunidade concreta de retomada. O desafio agora é manter o ritmo de produção e reduzir custos.

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