Gol recupera confiança do mercado com melhora financeira e elevação de rating pela Fitch

Agência elevou nota da companhia de ‘CCC+’ para ‘B-’, citando recuperação operacional, liquidez de US$ 945 milhões e redução da alavancagem após reestruturação

Aline Feltrin

A Gol Linhas Aéreas começa a consolidar uma nova fase após o período de reestruturação financeira, com a melhora dos indicadores operacionais e a recuperação da confiança do mercado de crédito. A Fitch Ratings elevou a classificação de risco da companhia de ‘CCC+’ para ‘B-’, com perspectiva estável, em um movimento que reflete a evolução da posição financeira da empresa.

A nova avaliação ocorre após a companhia apresentar avanços em liquidez, geração operacional e redução do endividamento relativo. Segundo a Fitch, a melhora do rating está associada ao desempenho operacional consistente, à trajetória de desalavancagem e à capacidade da Gol de manter uma posição financeira mais equilibrada.

No primeiro trimestre de 2026, a companhia encerrou o período com liquidez total de US$ 945 milhões. Desse montante, US$ 431 milhões correspondiam a caixa e equivalentes de caixa irrestritos, enquanto outros US$ 514 milhões estavam relacionados a recebíveis de cartões de crédito.

A geração operacional também apresentou melhora. O EBITDAR ajustado da Gol alcançou US$ 452 milhões no primeiro trimestre, com margem operacional de 38,9%. O indicador mede a capacidade de geração de resultado antes de despesas financeiras, impostos, depreciação, amortização e custos relacionados à frota.

Outro sinal de avanço foi a redução da alavancagem. A relação entre dívida líquida e EBITDAR (lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização e custos de reestruturação) dos últimos 12 meses caiu para 2,8 vezes ao final do primeiro trimestre de 2026, ante 3,1 vezes registrados no encerramento de 2025.

A elevação do rating representa uma mudança relevante em relação ao cenário enfrentado pela companhia nos últimos anos, quando a Gol precisou reorganizar sua estrutura financeira diante da pressão provocada pelo aumento dos custos operacionais, dólar elevado, juros e combustível de aviação — um dos principais componentes da despesa das empresas aéreas.

Com a melhora dos indicadores, a companhia busca ampliar a previsibilidade financeira e recuperar gradualmente o acesso ao mercado de capitais. A manutenção dessa trajetória, no entanto, dependerá da capacidade de preservar margens operacionais em um ambiente ainda marcado pela volatilidade do preço do combustível e pela pressão de custos da indústria aérea.

A nova classificação da Fitch coloca a Gol em uma posição mais confortável no mercado de crédito e reforça a estratégia da companhia de combinar disciplina financeira, geração de caixa e eficiência operacional como pilares para a próxima etapa de crescimento.

Da crise financeira à reestruturação

A melhora da classificação de risco da Gol pela Fitch ocorre pouco mais de um ano depois de a companhia iniciar um dos movimentos mais importantes de reorganização financeira de sua história. Pressionada pelo aumento do endividamento, custos elevados e pela deterioração das condições de mercado para o setor aéreo, a empresa precisou recorrer a um processo de reestruturação para reorganizar suas obrigações financeiras e preservar a operação.

Em janeiro de 2024, a Gol entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, por meio do Chapter 11, mecanismo utilizado por empresas para renegociar dívidas sob supervisão judicial. O processo envolveu a negociação com credores, fornecedores e arrendadores de aeronaves, com o objetivo de reduzir pressões de curto prazo sobre o caixa e criar uma estrutura financeira mais sustentável.

A decisão ocorreu após anos de desafios para as companhias aéreas brasileiras. A pandemia provocou uma forte queda na demanda, seguida por um período de recuperação marcado pelo aumento do preço do combustível de aviação, valorização do dólar e juros elevados. Para a Gol, esses fatores pressionaram a geração de caixa e elevaram o peso das obrigações financeiras.

Durante o processo de reestruturação, a companhia buscou alongar compromissos, renegociar contratos e fortalecer a liquidez para manter a operação. A estratégia permitiu que a empresa atravessasse o período de reorganização sem interrupção dos voos e retomasse gradualmente indicadores operacionais.

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