A inadimplência entre empresas do transporte rodoviário de cargas atingiu o maior nível dos últimos 15 anos e hoje gira em torno de 4,5% no mercado de crédito para pessoas jurídicas, mais de quatro vezes acima dos cerca de 1% registrados em períodos de menor risco. A avaliação é de Luis Felipe Szmidtke, diretor executivo da Rands, braço de soluções financeiras da Randoncorp, que atribui o cenário à combinação de juros elevados, custos operacionais em alta, margens pressionadas e deficiências na gestão financeira de parte das transportadoras.
“O ambiente é multifatorial. Temos juros elevados de forma consistente, aumento dos custos dos insumos, pressão sobre as margens e concorrência intensa. Mas também existem fatores que estão da porta para dentro da empresa e sobre os quais o transportador tem controle”, afirmou o executivo à Transporte Moderno.
Segundo ele, muitas transportadoras ainda concentram esforços em ampliar faturamento, enquanto deixam em segundo plano indicadores fundamentais, como geração de caixa, controle de custos e eficiência operacional. “Na análise de crédito, estamos muito mais preocupados com a capacidade de a empresa gerar caixa do que propriamente com o tamanho do faturamento”, afirma.
Para Szmidtke, um dos principais desafios é a profissionalização da gestão. Ele observa que muitas empresas cresceram mantendo processos administrativos semelhantes aos adotados quando possuíam apenas um ou dois caminhões.”O ativo precisa ser modernizado, mas a gestão também. O mercado mudou e continuará mudando. Quem continuar administrando uma empresa da mesma forma que fazia há 30 ou 40 anos terá cada vez mais dificuldade para acessar crédito.”
Crédito mais seletivo
A deterioração dos indicadores financeiros tem tornado as análises de crédito mais rigorosas. O executivo explica que a avaliação começa pela qualidade das demonstrações financeiras e da documentação da empresa, passando pela análise dos contratos, geração de receita e fluxo de caixa. Em operações de maior valor, a instituição realiza inclusive visitas técnicas às transportadoras.
A maior seletividade ficou evidente durante o programa Move Brasil, criado pelo governo para estimular a renovação de frota com juros subsidiados. Apesar das condições financeiras mais favoráveis, muitas solicitações foram recusadas.
“Não é porque o crédito ficou mais barato que ele deixou de exigir capacidade de pagamento. Os clientes que teriam o financiamento negado fora do programa, em grande parte, também tiveram durante o Move Brasil”, afirma. O elevado número de negativas decorreu também do represamento da demanda. Muitas empresas aguardaram o lançamento do programa para apresentar pedidos de financiamento.
Na avaliação da Rands, parte dos empresários buscou crédito atraída pelas taxas reduzidas, sem uma estratégia clara para utilização dos recursos. “Não é porque existe uma linha mais barata que ela precisa ser utilizada. O financiamento precisa fazer sentido dentro da estrutura de capital da empresa”, afirma Szmidtke.
Ele compara a decisão à utilização de um medicamento. “Ter crédito disponível é importante, mas não significa que ele deva ser usado. É como ter um antibiótico em casa: você só utiliza quando há necessidade e recomendação.”
Para o executivo, o planejamento financeiro continua sendo um dos principais diferenciais entre empresas que conseguem atravessar períodos de juros elevados e aquelas que acabam ampliando seu nível de endividamento.
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