Por que a BYD decidiu fabricar o próprio cérebro dos veículos

Novo chip reforça estratégia de verticalização da montadora e pode influenciar a próxima geração de carros, ônibus e caminhões.

Redação

A BYD apresentou oficialmente seu primeiro chip próprio para direção autônoma e entrou de vez na disputa global por semicondutores avançados, tecnologia que se tornou uma das principais frentes de competição da indústria automotiva.

Batizado de Xuanji A3, o componente foi revelado durante o Intelligent Strategy Event, realizado em Shenzhen, na China. Segundo a fabricante, trata-se do primeiro chip automotivo de quatro nanômetros desenvolvido internamente por uma montadora chinesa para aplicações de condução inteligente.

O anúncio marca um novo capítulo na transformação do setor. Durante a última década, baterias, autonomia e infraestrutura de recarga concentraram os investimentos das fabricantes de veículos elétricos. Agora, inteligência artificial, software embarcado, sensores, conectividade e capacidade de processamento passaram a ocupar posição central na estratégia das montadoras.

De acordo com a BYD, o Xuanji A3 foi projetado para aplicações de direção autônoma de níveis 3 e 4 e já entrou em produção em larga escala. A fabricante afirma que três unidades do chip operando em conjunto podem superar 2.100 TOPS (trilhões de operações por segundo), desempenho comparável ao de algumas das plataformas mais avançadas de computação automotiva disponíveis atualmente.

Chip é a nova bateria

O desenvolvimento do Xuanji A3 faz parte de uma estratégia de verticalização que se tornou uma das principais marcas da BYD. A companhia já produz internamente baterias, motores elétricos, sistemas eletrônicos e diversos componentes críticos dos seus veículos. Com o novo semicondutor, amplia o controle sobre outra tecnologia considerada estratégica para a próxima geração da mobilidade.

Segundo Wang Chuanfu, presidente da BYD, a empresa conta atualmente com mais de 7 mil profissionais dedicados ao desenvolvimento de chips e investiu mais de 100 bilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento. A fabricante afirma operar cinco unidades de produção de semicondutores e possuir mais de 2 mil produtos relacionados a essa área tecnológica.

A busca por autonomia tecnológica ganhou força após a crise global de semicondutores que afetou a indústria automotiva entre 2020 e 2023. Naquele período, montadoras em todo o mundo enfrentaram interrupções na produção por falta de componentes eletrônicos.

Impactos podem chegar aos veículos comerciais

Embora o Xuanji A3 tenha sido apresentado inicialmente para aplicações em automóveis de passeio, a tecnologia por trás desses processadores tem potencial para alcançar também os segmentos de comerciais leves, caminhões e ônibus.

Recursos como frenagem autônoma de emergência, assistentes de permanência em faixa, monitoramento de fadiga, controle de cruzeiro adaptativo, gestão inteligente de energia, conectividade avançada e sistemas de condução autônoma dependem cada vez mais de elevada capacidade computacional embarcada. A própria BYD mantém operações globais nos mercados de ônibus e caminhões elétricos e vem ampliando investimentos em digitalização e conectividade de veículos comerciais.

Para transportadoras, operadores logísticos e empresas de transporte de passageiros, a evolução desses sistemas tende a impactar diretamente segurança, disponibilidade da frota, consumo de energia e produtividade operacional.

Disputa tecnológica redefine a indústria

O anúncio aproxima a BYD de empresas como Tesla e Huawei, além de fornecedores especializados em computação automotiva. A diferença é que a fabricante chinesa busca desenvolver internamente uma parcela crescente das tecnologias consideradas críticas para o futuro dos veículos.

A produção própria de semicondutores pode reduzir custos, acelerar a integração entre hardware e software e diminuir a dependência de fornecedores externos em uma indústria cada vez mais baseada em inteligência artificial.

Para o Brasil, a notícia ganha relevância pela rápida expansão da BYD no mercado nacional. A companhia já confirmou planos de trazer ao país tecnologias ligadas ao sistema de condução inteligente God’s Eye, plataforma que deverá utilizar os novos processadores apresentados em Shenzhen.

Mais do que um lançamento tecnológico, o Xuanji A3 sinaliza uma mudança de rumo na indústria automotiva global. Se o motor foi o coração dos veículos do século XX e as baterias passaram a definir os elétricos na última década, os semicondutores avançados caminham para se tornar um dos principais fatores de diferenciação dos veículos da próxima geração.

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