A companhia marítima Ocean Network Express (ONE) encerrou o ano fiscal de 2025 com lucro, mas em um patamar significativamente inferior ao registrado no ciclo anterior, refletindo a rápida deterioração das condições no transporte marítimo de contêineres.
A companhia reportou receita de US$ 16,62 bilhões, queda de 14% na comparação anual. O lucro líquido somou US$ 338 milhões, um recuo superior a 90% frente aos cerca de US$ 4,2 bilhões apurados no exercício anterior. No quarto trimestre, a receita foi de US$ 4,04 bilhões, já sob impacto mais intenso da retração das tarifas de frete.
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Queda das tarifas redefine o equilíbrio do setor
O recuo das tarifas no transporte marítimo de contêineres em 2025 não decorre de um fator conjuntural isolado, mas de um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda. O principal vetor é o excesso de capacidade, resultado das encomendas de navios realizadas durante o pico da pandemia, que começaram a ser entregues em massa a partir de 2024.
A demanda global, por sua vez, não colapsou, mas se normalizou após um período atípico de crescimento, reduzindo a pressão sobre o sistema logístico. Com menos disrupções operacionais, como congestionamentos portuários, a eficiência aumentou e contribuiu para a queda das tarifas.
Indicadores de mercado reforçam essa tendência. O índice World Container Index, da Drewry, acumulou quedas relevantes ao longo do ano, afastando-se dos níveis recordes observados entre 2021 e 2022. Ao mesmo tempo, dados da Xeneta apontam recuo consistente nos contratos de longo prazo, comprimindo as receitas das armadoras.
Mesmo eventos disruptivos recentes, como as tensões no Oriente Médio, tiveram impacto limitado sobre as tarifas. Em geral, esses fatores tendem a pressionar os fretes para cima, mas não têm sido suficientes para reverter a tendência de queda, dominada pelo excesso de oferta.
Diante desse cenário, armadores como Ocean Network Express, Maersk e Hapag-Lloyd intensificaram estratégias de gestão de capacidade, como os blank sailings (cancelamento de viagens), para tentar sustentar as tarifas. Essas medidas reduzem a oferta no curto prazo, mas não eliminam o excedente estrutural de capacidade.
O resultado é um mercado em transição para um novo ciclo, marcado por fretes mais baixos, maior volatilidade e crescente pressão por eficiência operacional.
Pressão é generalizada
A deterioração dos resultados não se restringe à ONE e reflete um movimento global. A Maersk reportou queda relevante nos lucros e adotou um guidance mais conservador, enquanto a Hapag-Lloyd registrou recuo no EBITDA em meio à compressão das tarifas. Já a MSC também opera em um ambiente de margens mais pressionadas, ainda que com menor transparência de resultados.
Nesse contexto, o setor tem intensificado ajustes de capacidade, com redução de viagens, revisão de rotas e reavaliação de cronogramas de entrega de novos navios, como forma de reequilibrar o mercado.
Fretes mais baixos aliviam custos no Brasil, mas aumentam volatilidade
Para embarcadores brasileiros, a mudança de ciclo traz efeitos ambíguos. A queda das tarifas internacionais reduz o custo do frete marítimo, componente relevante da estrutura logística, sobretudo para exportadores de commodities e importadores de bens industrializados. Esse movimento tende a melhorar a competitividade das exportações e reduzir pressões sobre preços internos.
Por outro lado, a necessidade de ajuste de capacidade por parte das armadoras pode gerar maior volatilidade operacional. Alterações de rotas, cancelamentos de escalas e menor previsibilidade logística passam a ser fatores de risco, especialmente para cadeias mais sensíveis a prazo e regularidade.
Disciplina operacional sustenta resultado positivo
Mesmo diante do cenário adverso, a ONE conseguiu preservar lucro, apoiada em medidas de controle de custos e gestão mais rigorosa da capacidade.
Segundo Jeremy Nixon, CEO da companhia, a estratégia de disciplina operacional foi determinante para sustentar a rentabilidade. A empresa intensificou a otimização de rotas, ajustou a oferta de espaço e reforçou o controle de despesas, em linha com o movimento observado entre as principais armadoras globais.
2026 deve manter pressão e baixa previsibilidade
Para o próximo exercício, a companhia projeta lucro em torno de US$ 300 milhões, sinalizando continuidade do ambiente de margens comprimidas. A visibilidade segue limitada, condicionada à evolução da demanda global, à entrada de novos navios no mercado e a fatores geopolíticos, especialmente no Oriente Médio.
Os resultados da ONE consolidam a transição para um novo ciclo no transporte marítimo de contêineres. Após um período excepcional de rentabilidade, o setor retorna a um ambiente de maior competição, menor previsibilidade e pressão por eficiência. Agora, a capacidade de ajustar rapidamente a oferta, controlar custos e redesenhar redes logísticas passa a ser determinante para sustentar margens. Para embarcadores, o momento é de fretes mais baixos, mas com maior complexidade operacional — uma combinação que exige planejamento logístico mais sofisticado e gestão de risco mais ativa.
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