A dificuldade para contratar motoristas profissionais no transporte rodoviário de cargas avançou para um problema mais estrutural: a retenção. Com alta rotatividade e envelhecimento da força de trabalho, transportadoras têm ampliado investimentos em qualificação, relacionamento e condições de trabalho para manter profissionais nas operações.
Dados da NTC&Logística indicam que 88% das empresas enfrentam dificuldades para contratar motoristas. Ao mesmo tempo, a baixa entrada de novos profissionais pressiona a renovação da categoria e eleva o risco de descontinuidade operacional em um setor fortemente dependente da mão de obra.
O desafio da retenção
Para Danilo Guedes, CEO da ABC Cargas, o foco do setor precisa ir além da formação. “O setor tem discutido muito a escassez, mas o grande desafio hoje é a retenção. Não basta formar ou contratar motoristas, é preciso criar condições para que eles permaneçam, se desenvolvam e se sintam parte da operação”, afirma.
A empresa, especializada no transporte de caminhões zero quilômetro, estruturou iniciativas voltadas à valorização e engajamento. Entre elas está a criação de programas de formação em parceria com o SEST SENAT, que combinam capacitação técnica com ações de integração e desenvolvimento profissional.
Segundo Guedes, a estratégia tem impacto direto na operação. “Quando o profissional percebe que existe investimento no seu desenvolvimento e reconhecimento do seu papel, isso impacta diretamente na sua permanência e no seu nível de engajamento”, diz.
Impacto operacional e mudança cultural
A retenção de motoristas tem efeitos diretos sobre produtividade, segurança e custos logísticos. Profissionais mais engajados tendem a reduzir falhas operacionais, acidentes e perdas, além de aumentar a confiabilidade das entregas.
O movimento também reflete uma mudança de abordagem no setor, que passa a tratar o motorista como parte estratégica da cadeia logística. “Estamos falando de um profissional que representa a empresa na ponta. Quando esse motorista está preparado e motivado, todo o processo ganha em qualidade e confiabilidade”, afirma o executivo.
Além da capacitação, fatores como infraestrutura nas estradas, pontos de apoio e condições de trabalho passam a influenciar a permanência na atividade. “É uma mudança cultural. Precisamos deixar de enxergar o motorista apenas como executor e passar a vê-lo como parte estratégica do negócio”, diz.
Na avaliação de empresas do setor, a disputa por profissionais qualificados tende a se intensificar nos próximos anos, exigindo maior estrutura em gestão de pessoas. A retenção, antes tratada como efeito colateral da operação, passa a ser um dos principais vetores de eficiência e competitividade no transporte rodoviário de cargas.
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