Em meio ao barulho dos trens e à rotina intensa das ferrovias, um grupo de animais silenciosos enfrenta um risco constante. Jabutis, cágados e tartarugas terrestres, conhecidos tecnicamente como quelônios, circulam lentamente entre os trilhos e acabam presos em um ambiente hostil, onde a chance de sobrevivência é mínima. Para enfrentar esse problema pouco visível, mas recorrente, uma solução simples de engenharia vem fazendo a diferença.
A ideia nasceu a partir de anos de observação em campo. Ao monitorar extensos trechos ferroviários, técnicos identificaram que esses animais, ao entrarem no gabarito da via, dificilmente conseguem sair sozinhos. O casco rígido impede movimentos ágeis, e o espaço entre os trilhos funciona como uma armadilha. Além do risco de atropelamento, os quelônios ficam expostos ao superaquecimento e à desidratação, fatores que frequentemente levam à morte.
Foi nesse contexto que surgiram as chamadas canaletas de escape. Instaladas entre os trilhos, essas estruturas funcionam como rotas de saída, permitindo que os animais deixem a ferrovia com segurança. A solução é discreta, não interfere na operação ferroviária e se mostrou altamente eficaz na prática.
A experiência foi consolidada a partir de um monitoramento rigoroso realizado em mais de 1.500 quilômetros da Malha Central, que atravessa estados como Tocantins, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Nesse percurso, foram acompanhados os deslocamentos e comportamentos de diferentes espécies, entre elas o cágado-de-barbicha, o cágado-cabeça-de-sapo, o tracajá e o jabuti-piranga. Os dados coletados serviram de base para aprimorar o posicionamento e o desenho das canaletas, transformando uma observação ambiental em uma solução técnica replicável.
Antes disso, a iniciativa já havia sido testada na Malha Sul, onde 210 canaletas foram instaladas ao longo de cinco anos. Na Malha Central, o número já chega a 352 dispositivos, posicionados em pontos estratégicos de Tocantins e Goiás, onde a presença de quelônios é mais frequente.
Todo esse aprendizado foi reunido em um guia técnico que documenta desde a fase de monitoramento até a avaliação da eficácia das estruturas. Segundo Luana Gobbo Mamede, médica veterinária da Coordenação de Biodiversidade da Rumo, o material consolida um conhecimento construído ao longo do tempo. Para ela, a iniciativa mostra que soluções de engenharia podem e devem caminhar junto com a preservação ambiental, oferecendo respostas práticas para problemas reais.
Além de proteger a fauna, a experiência reforça o papel das ferrovias como um modal alinhado à agenda de sustentabilidade. O transporte ferroviário já se destaca pela maior eficiência energética e menor emissão de gases de efeito estufa quando comparado ao modal rodoviário. Ao incorporar soluções ambientais como as canaletas de escape, a infraestrutura amplia sua integração com a conservação da biodiversidade.
O guia foi desenvolvido para apoiar concessionárias, órgãos ambientais, projetistas e equipes operacionais interessadas em reduzir os impactos da infraestrutura ferroviária sobre a fauna silvestre. A expectativa é que a experiência possa servir de referência não apenas no Brasil, mas também em outros países que enfrentam desafios semelhantes.
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