O futuro da logística será definido pela capacidade de transformar tecnologia em execução

Se a tecnologia está cada vez mais acessível, por que os antigos problemas da logística continuam tão presentes?

Otávio Fonseca,, Diretor de Digitalização Logística na JSL Digital

Nos últimos anos, a transformação da logística foi tratada como uma corrida por tecnologia, colocando os players que apostavam em digitalização, automatização ou na incorporação de ferramentas mais sofisticadas à frente. Esse movimento impulsionou o surgimento de uma geração inteira de logtechs e colocou à disposição do mercado soluções que antes pareciam restritas às grandes operações, como sistemas de gestão de transporte, telemetria, rastreamento, inteligência artificial, análise de dados, automação e plataformas digitais.

A disseminação dessas ferramentas representou um avanço importante para o setor, mas ainda não eliminou alguns dos problemas históricos da logística. Caminhões continuam percorrendo quilômetros sem carga. Embarcadores ainda convivem com incertezas relacionadas a prazo e custo, enquanto transportadores enfrentam desafios para garantir rentabilidade e previsibilidade de demanda. Ao mesmo tempo, os custos logísticos seguem consumindo uma parcela relevante da economia brasileira, alcançando 15,5% do PIB em 2025, segundo dados do ILOS.

O cenário levanta uma questão: se a tecnologia está cada vez mais acessível, por que os antigos problemas da logística continuam tão presentes?

Parte da resposta está na forma como a transformação digital aconteceu. Ao longo dos últimos anos, diferentes agentes da cadeia buscaram resolver suas próprias dores. Embarcadores passaram a utilizar tecnologia para ganhar visibilidade, reduzir custos e aumentar a previsibilidade das entregas. Transportadores, por sua vez, incorporaram ferramentas para acessar demandas, acompanhar viagens e simplificar processos ligados à jornada e ao pagamento.

Os dois movimentos são importantes, mas nem sempre estiveram conectados, e é nesse espaço que permanece uma parcela da ineficiência do setor. A disponibilidade que falta para um pode ser o retorno vazio do outro, assim como o caminhão parado, que representa perda de produtividade para quem transporta, pode ser consequência de uma falha de planejamento ou sincronização em outra etapa da cadeia. São situações frequentemente tratadas como problemas distintos, embora façam parte da mesma operação.

Os dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) ajudam a dimensionar esse descompasso. Entre setembro de 2024 e agosto de 2025, o transporte rodoviário de cargas registrou, em média, 6,7 milhões de viagens mensais e movimentou cerca de 117 milhões de toneladas por mês. Ainda assim, a agência estima que entre 24% e 35% dos quilômetros percorridos ocorram sem carga.

Esse é um dos principais paradoxos da transformação digital na logística. A tecnologia ampliou a capacidade de enxergar a operação, mas tornar um problema visível não significa, necessariamente, resolvê-lo. Saber onde está um veículo, por exemplo, é diferente de conseguir conectá-lo à próxima demanda no momento certo. Ou seja, a digitalização sozinha não reduz automaticamente os quilômetros vazios nem garante que os ganhos de eficiência sejam compartilhados entre os diferentes agentes envolvidos, esses resultados dependem de execução.

É nesse ponto que a inovação precisa avançar. À medida que ferramentas como IA, sistemas de gestão e análise de dados se tornam mais acessíveis, a vantagem competitiva tende a estar mais associada à capacidade de integrá-las à operação e fazer com que funcionem de forma coordenada, do que apenas à detenção dessas tecnologias. Essa é a lógica da orquestração do ecossistema. 

O futuro da logística será construído a partir da capacidade de conectar dados à operação e inteligência à tomada de decisão, aproximando agentes que, embora desempenhem papéis diferentes, participam da mesma cadeia. Isso exige uma mudança de perspectiva: a tecnologia seguirá sendo cada vez mais importante para o segmento, mas deixa de ser apenas um recurso incorporado ao negócio e passa a fazer parte de uma estrutura capaz de integrar informação, planejamento e frutos no mundo real.

No fim, os resultados continuarão sendo medidos de forma bastante concreta: A carga precisa chegar de maneira ágil, segura e eficiente. O veículo precisa ser bem aproveitado. O pagamento precisa acontecer com previsibilidade. A operação precisa fechar a conta para quem embarca e para quem transporta. O futuro da logística, portanto, não será decidido apenas por quem tiver acesso à melhor tecnologia, mas por quem conseguir transformá-la em execução — e execução em eficiência para toda a cadeia.

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