Crise com Argentina preocupa indústria automotiva brasileira

Especialista vê maior exposição de veículos, autopeças e linha branca se tensão avançar para o campo comercial

Redação

O rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina acendeu um sinal de alerta para a indústria brasileira, especialmente para os setores que mantêm cadeias produtivas integradas entre os dois países. Embora a crise ainda não tenha produzido efeitos sobre o comércio bilateral, especialistas avaliam que uma eventual escalada para o campo comercial poderá afetar principalmente os segmentos automotivo, de autopeças e de eletrodomésticos da linha branca.

Segundo Frederico Favacho, sócio do Santos Neto Advogados e especialista em Direito Internacional, esses setores concentram parte significativa da integração industrial construída ao longo das últimas décadas no Mercosul.

“Se a crise escalar para o terreno comercial, é esse setor, junto a outros historicamente sensíveis na relação bilateral, como autopeças e linha branca de eletrodomésticos, que tende a se ressentir primeiro”, afirma.

Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Argentina alcançou cerca de US$ 31 bilhões. Apesar de o Mercosul representar atualmente uma parcela menor das exportações brasileiras do que China e Estados Unidos, o bloco voltou a ser o principal destino dos produtos manufaturados do Brasil, respondendo por 23% dos embarques desse segmento. As exportações brasileiras para a Argentina cresceram 31,4% no ano passado.

Na avaliação de Favacho, a forte integração das cadeias automotivas torna o setor particularmente vulnerável. Segundo ele, cerca de 67% dos veículos exportados pela Argentina têm o Brasil como destino, enquanto aproximadamente 60% dos automóveis vendidos no mercado argentino são produzidos no Brasil.

“O Brasil responde por cerca de 24% das importações argentinas e absorve aproximadamente 38% das manufaturas industriais exportadas pelo país. O setor mais exposto, de longe, é o automotivo, cujas cadeias produtivas são profundamente integradas”, afirma.

Apesar desse cenário, o especialista avalia que, em caso de agravamento da crise, os impactos tendem a ser mais severos para a economia argentina, cuja indústria depende mais intensamente do mercado brasileiro do que o inverso.

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