O ciclo de R$ 6,8 bilhões em investimentos no Porto de Paranaguá recolocou a infraestrutura de acesso ao complexo portuário no centro das discussões sobre a competitividade logística brasileira. Enquanto a autoridade portuária amplia a capacidade operacional, moderniza a infraestrutura e investe na expansão ferroviária, representantes do transporte rodoviário alertam que os ganhos poderão ser limitados se não forem acompanhados por melhorias na BR-277, nos pátios de triagem e nos sistemas de acesso aos terminais.
O debate ganhou força em um momento de expansão das operações do porto. Em 2025, os portos paranaenses movimentaram o recorde de 73,5 milhões de toneladas, volume 10,1% superior ao registrado no ano anterior. A pressão também se refletiu na infraestrutura terrestre: o Pátio Público de Triagem de Paranaguá recebeu 507.915 caminhões ao longo do ano, crescimento de 29,5% sobre 2024. Em um único dia, o complexo registrou a entrada de 2.523 veículos carregados com grãos e farelos, acima da capacidade diária para a qual foi projetado.
O tema foi discutido durante o painel “Multimodalidade e Eficiência Logística”, realizado no Centro-Oeste Export, em Rio Verde (GO). Segundo Luiz Gustavo Nery, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), a eficiência logística deve ser medida por toda a cadeia operacional, desde a origem da carga até o retorno do veículo.
“O porto pode ampliar sua capacidade de recepção e embarque, mas, se o caminhão continuar levando horas para entrar ou sair, o investimento não se traduz em eficiência. Terminal, rodovia, pátio de triagem e sistemas de agendamento precisam funcionar como um fluxo contínuo”, afirmou.
Entre os principais projetos em andamento está o Moegão, complexo ferroviário que recebeu investimentos superiores a R$ 650 milhões e terá capacidade para movimentar até 24 milhões de toneladas de grãos e farelos por ano. Para o dirigente do SETCEPAR, a expansão da ferrovia contribuirá para redistribuir parte do fluxo de cargas durante a safra, mas não elimina a necessidade de investimentos nos acessos rodoviários.
“A ferrovia é essencial para cargas de grande volume, mas o transporte rodoviário continuará desempenhando papel estratégico na coleta da produção, na movimentação de contêineres e nas operações que exigem capilaridade. Os diferentes modais precisam atuar de forma complementar”, destacou.
A discussão ocorre em um cenário de crescente concorrência entre os corredores de exportação brasileiros. Em 2025, os portos do Arco Norte responderam por 36,2% das exportações nacionais de soja e por 48% dos embarques de milho, enquanto Paranaguá concentrou 13,4% e 10,4%, respectivamente.
Outro tema abordado durante o encontro foi a medida provisória que altera as regras do piso mínimo do frete rodoviário. Representantes do setor defenderam que os impactos da nova regulamentação sobre operações multimodais sejam avaliados para evitar perda de competitividade em cadeias logísticas que integram rodovia, ferrovia e cabotagem.
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