O transporte rodoviário de cargas movimentou R$ 211 bilhões em fretes entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025 e gerou R$ 14,2 bilhões em arrecadação de ICMS. Os dados fazem parte de um levantamento da Qive, empresa brasileira de tecnologia especializada em automação financeira, gestão de documentos fiscais e contas a pagar, baseado na análise de 194,2 milhões de Conhecimentos de Transporte Eletrônico (CT-es) emitidos no período, que registraram a movimentação de 34,2 trilhões de quilos de mercadorias em todo o país.
Além de dimensionar a atividade logística, o estudo ajuda a revelar como a atual estrutura tributária influencia decisões sobre localização de centros de distribuição, desenho de rotas e posicionamento de estoques ao longo do território nacional.
Participação do varejo
O varejo respondeu pelo maior número de operações logísticas do país, com 52,1 milhões de CT-es emitidos no período analisado. Entretanto, apesar da liderança em volume, o segmento apresentou um dos menores valores médios por operação, cerca de R$ 1,5 mil por frete, reflexo da elevada capilaridade das entregas e da proximidade entre centros de distribuição e consumidores finais.
Já setores como energia e agronegócio concentraram as operações de maior valor agregado e maior distância média percorrida. Segundo o levantamento, o ticket médio dos fretes alcançou R$ 11,4 mil no segmento de energia e R$ 5,4 mil no agronegócio.
“O varejo é o setor da capilaridade; são muitos fretes pequenos, frequentes e próximos ao consumo. Energia e agronegócio aparecem nos corredores de commodities de longa distância. O que o mapa mostrava por geografia, o setor confirma por economia”, afirma Guilherme Martins, gerente de Produto e especialista em Reforma Tributária da Qive.
São Paulo concentra fluxo logístico
Os dados confirmam a centralização da logística brasileira na Região Sudeste e, especialmente, no entorno da capital paulista. Segundo o estudo, 56,6% de todos os CT-es emitidos no país tiveram origem no Estado de São Paulo.
O destaque ficou para o chamado “anel logístico metropolitano”, formado principalmente pelos municípios de Cajamar, Guarulhos, Barueri e Sumaré, regiões que concentram centros de distribuição de varejistas, marketplaces e operadores logísticos.
Somente a rota envolvendo São Paulo e Cajamar respondeu por aproximadamente 6,9 milhões de documentos emitidos no período analisado. “Conseguimos avaliar que a malha logística é feita em torno do consumo, com a rota São Paulo-Cajamar liderando isoladamente o volume nacional”, afirma Martins.
Reforma pode mudar o mapa da distribuição
O levantamento também oferece uma prévia dos impactos esperados da reforma tributária sobre a logística nacional. Segundo o estudo, a alíquota efetiva mediana do ICMS em operações estaduais atingiu 15,74%, acima dos 11,4% observados nas operações interestaduais.
A diferença ajudou a consolidar, ao longo das últimas décadas, estratégias de posicionamento de centros de distribuição voltadas à captura de benefícios fiscais estaduais, mesmo quando isso implicava trajetos mais longos e maior custo operacional.
Com a implementação gradual do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que passarão a tributar o consumo no destino final da mercadoria, essa lógica tende a perder força.
“Historicamente, muitas empresas posicionaram seus centros de distribuição para otimizar incentivos fiscais estaduais, assumindo rotas mais longas apenas para pagar menos ICMS”, afirma Martins, que acrescenta: “Com a nova tributação, a localização dos CDs passará a ser uma decisão cada vez mais logística e operacional, baseada em distância física, qualidade da infraestrutura e tempo de entrega”.
Logística e consumo mais próximos
A mudança tende a acelerar um movimento já observado nos últimos anos: a aproximação dos estoques dos grandes centros consumidores e a redução da dependência de estruturas desenhadas prioritariamente para capturar vantagens tributárias.
Na prática, a reforma tributária poderá provocar um dos maiores redesenhos da geografia logística brasileira desde a expansão dos grandes centros de distribuição e dos condomínios logísticos observada nas últimas duas décadas. No entendimento de operadores e embarcadores, nesse cenário, a eficiência operacional tende a substituir gradualmente a engenharia fiscal como principal critério para a definição das futuras redes de distribuição do país.
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