Escala 6×1 desafia operações 24 horas da logística

Transporte rodoviário, centros de distribuição e portos avaliam como preservar produtividade e nível de serviço

Redação

O debate sobre o fim da escala 6×1 ainda tramita no Congresso Nacional, mas empresas da cadeia logística já avaliam os impactos que uma eventual mudança poderá trazer para operações que dependem de funcionamento contínuo, múltiplos turnos e cumprimento rigoroso de janelas operacionais.

Diferentemente de atividades administrativas, grande parte da logística opera em regime ininterrupto. Portos, aeroportos, centros de distribuição, operações de e-commerce, terminais de carga e transporte rodoviário funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, exigindo elevada coordenação entre equipes, veículos e infraestrutura.

Nesse cenário, a discussão vai além da legislação trabalhista e passa a envolver produtividade, capacidade operacional, nível de serviço e competitividade. “Em logística, pequenos desvios se propagam rapidamente pela cadeia. O risco está em chegar à mudança sem preparo”, afirma Andrey Leite, diretor de Excelência Operacional da consultoria de operações e supply chain Ekantika.

Operações contínuas: maiores desafios

Na avaliação da consultoria, os segmentos mais expostos são aqueles que combinam operação contínua e elevada variabilidade de demanda, caso do transporte rodoviário, centros de distribuição com múltiplos turnos, operações portuárias, armazenagem intensiva e entregas de última milha.

Entre os principais riscos estão falhas de cobertura em turnos críticos, aumento de horas improdutivas, perda de sincronismo entre etapas da cadeia, maior dependência de horas extras e menor aderência às janelas de atendimento.

A preocupação é particularmente relevante em operações de carga e descarga programadas, distribuição urbana e entregas expressas, nas quais atrasos de poucas horas podem se refletir em toda a cadeia de abastecimento.

Mão de obra pesa na conta

A eventual mudança também preocupa pelo impacto potencial sobre os custos operacionais. Em operações de armazenagem e distribuição, despesas com pessoal frequentemente representam a principal parcela dos custos, superando inclusive energia e aluguel das instalações.

No transporte rodoviário, os gastos com mão de obra aparecem entre os principais componentes do custo operacional, ao lado do combustível, manutenção e pedágios. Na visão de Leite, eventuais reduções na disponibilidade de horas trabalhadas poderão exigir reforço das equipes, revisão das escalas e novas contratações para manutenção dos atuais níveis de serviço.

A discussão ganha corpo considerando que o setor enfrenta dificuldades estruturais para atração e retenção de profissionais, especialmente motoristas de caminhão. O envelhecimento da força de trabalho, a baixa renovação geracional e o aumento da rotatividade vêm sendo apontados há anos pelas entidades do transporte como um dos principais desafios para o crescimento do setor.

Nesse contexto, uma eventual redução da jornada pode ampliar a pressão sobre empresas que já enfrentam dificuldades para preencher vagas e manter operações contínuas.

Automação deve ganhar velocidade

Leite avalia que a eventual mudança na jornada tende a acelerar investimentos em tecnologia e automação ao longo dos próximos anos. Ferramentas como roteirização inteligente, torres de controle, sistemas de gestão de transporte (TMS), sistemas de armazenagem (WMS), analytics, planejamento de demanda e automação intralogística aparecem entre as principais alternativas para compensar eventuais perdas de produtividade.

“Quem agir apenas de forma reativa tende a perder eficiência. Quem antecipar cenários, redesenhar processos e investir em produtividade pode transformar a mudança em vantagem competitiva”, afirma Leite.

Entre os segmentos logísticos, a distribuição urbana e a última milha aparecem entre os mais vulneráveis. A expansão das entregas no mesmo dia e das janelas cada vez mais curtas reduziu significativamente as margens operacionais disponíveis para reorganização de turnos e escalas.

Em períodos de pico, como Black Friday e Natal, a necessidade de flexibilidade operacional tende a se tornar ainda mais crítica para operadores logísticos e plataformas de comércio eletrônico.

Nem todos os efeitos tendem a ser negativos

Especialistas também avaliam que jornadas menores podem trazer ganhos relacionados à qualidade de vida, retenção de profissionais e redução da fadiga operacional.

No transporte rodoviário, por exemplo, a diminuição do desgaste físico e mental dos motoristas pode contribuir para reduzir acidentes e afastamentos, além de melhorar os indicadores de segurança operacional.

Em centros de distribuição e operações de armazenagem, a expectativa é de que jornadas mais equilibradas possam contribuir para reduzir absenteísmo e turnover, problemas recorrentes em atividades intensivas em mão de obra.

Experiência internacional aponta caminhos

Diversos países já adotam jornadas inferiores às 44 horas semanais praticadas atualmente no Brasil, utilizando mecanismos como banco de horas, escalas flexíveis e maior automação para preservar a produtividade.

Na Europa, onde modelos mais curtos são comuns em vários mercados, operadores logísticos compensaram parte da redução da carga horária com investimentos em digitalização, automação e planejamento operacional.

Debate vai além da legislação

Embora ainda não exista definição sobre formato, prazos de transição ou possíveis exceções setoriais, o tema já passou a integrar os exercícios de planejamento de empresas da cadeia logística.

Para o diretor de Excelência Operacional da Ekantika, a principal questão deixou de ser apenas se a mudança ocorrerá ou não, mas como as empresas conseguirão preservar eficiência e competitividade em um ambiente operacional que exige disponibilidade praticamente contínua.

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