Fretes pressionados aceleram virada logística da Maersk

Companhia cresce em volumes, mantém investimentos globais e reforça estratégia integrada; no Brasil, expansão da APM Terminals Suape avança com aporte de US$ 350 milhões

Valeria Bursztein

A Maersk iniciou 2026 com crescimento operacional em todas as suas unidades de negócio, mas ainda sob forte pressão no transporte marítimo global. O excesso de capacidade na indústria continua comprimindo tarifas de frete e reduzindo margens das armadoras, movimento que acelera a transformação estratégica da companhia em uma operadora logística integrada.

No primeiro trimestre, a companhia registrou EBIT de US$ 340 milhões, abaixo dos US$ 1,3 bilhão apurados no mesmo período do ano anterior. O EBITDA totalizou US$ 1,8 bilhão, ante US$ 2,7 bilhões um ano antes.

Apesar da retração nos indicadores financeiros, a Maersk ampliou volumes em todas as divisões. O transporte marítimo cresceu 9,3%, acima da expansão estimada para o mercado global de contêineres, enquanto logística e serviços avançou 8,7% em receita. Já terminais registrou crescimento de 4,3% nos volumes movimentados.

A companhia manteve o guidance financeiro para 2026 e segue projetando crescimento entre 2% e 4% para o mercado global de contêineres.

“Observamos uma demanda robusta na maioria das regiões ao longo deste trimestre, sustentando um crescimento consistente de volumes em nossos três segmentos de negócio. Em transporte marítimo, em particular, a volatilidade do mercado permanece elevada e o excesso de capacidade na indústria continua pressionando as tarifas. Nesse contexto, nosso foco disciplinado em gestão de custos contribui para um desempenho resiliente”, afirmou Vincent Clerc, Chief Executive Officer da Maersk.

A companhia destacou que sua rede operacional flexível ajudou a reduzir em 7% o custo unitário do transporte marítimo, mesmo diante das disrupções provocadas pelos conflitos no Oriente Médio.

Transporte marítimo cresce, mas rentabilidade cai

Os resultados confirmam a continuidade do novo ciclo vivido pelo transporte marítimo internacional após o período excepcional registrado durante a pandemia.

Mesmo com crescimento de demanda em diversas regiões e avanço das exportações chinesas, a entrada de novos navios no mercado segue criando excesso estrutural de oferta, pressionando tarifas e reduzindo a rentabilidade das armadoras. O problema, neste momento, não é falta de carga, mas excesso de capacidade disponível.

A carteira global de encomendas de navios porta-contêineres permanece em nível elevado, reflexo dos pedidos realizados durante o pico da pandemia, quando as tarifas atingiram patamares recordes. A entrega dessas embarcações ao longo de 2025 e 2026 ampliou a oferta de espaço e reduziu o poder de precificação das companhias.

O segmento de transporte marítimo da Maersk registrou EBIT negativo de US$ 192 milhões no trimestre. A companhia atribui o resultado principalmente à queda das tarifas médias de frete carregado. Ainda assim, ampliou participação de mercado e manteve elevada taxa de utilização dos ativos, de 96%.

Indicadores de mercado reforçam esse cenário. O World Container Index, da Drewry, segue distante dos níveis recordes observados durante a pandemia, enquanto dados da Xeneta apontam continuidade da pressão sobre contratos de longo prazo no transporte marítimo internacional.

Oriente Médio ainda tem impacto limitado

A Maersk também indicou que o início do conflito no Oriente Médio teve impacto limitado sobre a demanda e o desempenho financeiro no primeiro trimestre. Segundo a companhia, logística e Serviços e terminais possuem exposição relativamente baixa à região, enquanto a rede modular de Transporte Marítimo ajudou a mitigar disrupções em volumes e níveis de serviço.

A leitura é relevante porque diferencia o ambiente atual do choque vivido entre 2020 e 2022. Naquele período, gargalos portuários, restrições de capacidade e desorganização das cadeias globais levaram os fretes marítimos a patamares historicamente elevados. Agora, mesmo com tensões geopolíticas e alterações de rotas, o excesso de capacidade disponível limita uma recomposição mais forte das tarifas.

Logística integrada ganha protagonismo

Enquanto o negócio marítimo enfrenta pressão, as áreas de logística integrada e terminais assumem papel cada vez mais relevante na geração de resultados da companhia. A divisão de logística e serviços registrou EBIT de US$ 173 milhões, sustentada pelo avanço de soluções multimodais, transporte aéreo, middle mile e ganhos operacionais. Segundo a companhia, a margem EBIT do segmento avançou pelo oitavo trimestre consecutivo.

Já a divisão de terminais manteve forte rentabilidade, com EBIT de US$ 436 milhões. A receita cresceu 6,7%, impulsionada por melhoria tarifária, efeitos cambiais favoráveis e mix operacional.

Os resultados reforçam uma transformação estrutural em curso entre as grandes armadoras globais. Mais do que operar navios, grupos como a Maersk vêm ampliando presença em armazenagem, terminais, transporte terrestre, soluções multimodais e logística integrada como forma de reduzir a exposição à volatilidade cíclica do frete marítimo.

Brasil aparece no mapa de expansão

Embora o relatório financeiro não apresente detalhamento regional dos resultados, a América do Sul aparece entre os focos de expansão da infraestrutura logística da companhia. No Brasil, a APM Terminals Suape está próxima de concluir uma obra de US$ 350 milhões.

O projeto integra a estratégia global da Maersk de ampliar capacidade portuária e fortalecer corredores logísticos considerados estratégicos. A expansão ocorre em um momento de maior relevância da logística portuária do Nordeste, impulsionada pela descentralização das cadeias brasileiras, pelo crescimento de polos industriais e de consumo fora do eixo Sudeste e pela busca de rotas mais eficientes para exportação e cabotagem.

O avanço da infraestrutura em Suape também conversa com a disputa entre terminais por maior participação em cargas conteinerizadas, refrigeradas e operações integradas, em um país ainda marcado por gargalos portuários, concentração de fluxos e elevada dependência do transporte rodoviário.

Investimentos seguem apesar da pressão

A Maersk manteve investimentos relevantes em frota, terminais e infraestrutura logística, apesar do ambiente de tarifas pressionadas. No primeiro trimestre, a companhia encomendou oito navios de grande porte, com capacidade de 18.600 TEUs e entrega prevista entre 2029 e 2030. As embarcações serão equipadas com motores dual fuel, capazes de operar com combustível convencional ou gás liquefeito, ampliando a flexibilidade operacional da frota.

A divisão de logística e serviços avançou na modernização e automação de armazéns globais e inaugurou o World Gateway II, centro logístico de 1,1 milhão de pés quadrados em Singapura, ampliando a capacidade da Maersk na região Ásia-Pacífico.

Em terminais, além do projeto em Suape, a companhia avançou em investimentos no México, Vietnã, Arábia Saudita e Alemanha. Entre os destaques estão a expansão em Lázaro Cárdenas, no México, e o investimento de EUR 1 bilhão, em parceria com a Eurogate, para modernizar e ampliar a capacidade do North Sea Terminal Bremerhaven, de 3 milhões para 4 milhões de TEUs.

Armadoras buscam nova base de rentabilidade

A manutenção do guidance para 2026 indica que a Maersk vê o mercado ainda em crescimento, mas sem reversão imediata da pressão tarifária. A companhia espera que o volume global de contêineres avance entre 2% e 4% no ano, mas reconhece que o excesso de capacidade e as incertezas sobre a reabertura do Mar Vermelho e do Estreito de Ormuz seguem como variáveis centrais para o desempenho do setor.

O resultado do primeiro trimestre indica que a recuperação dos volumes, isoladamente, não será suficiente para recompor margens no transporte marítimo. Para as grandes armadoras, a rentabilidade passa cada vez mais por escala, controle de custos, eficiência de rede e diversificação logística.

No caso da Maersk, o avanço das áreas de logística e serviços e terminais mostra que a estratégia de integração deixou de ser apenas uma tese de posicionamento e passou a funcionar como proteção operacional em um mercado de fretes mais volátil e competitivo.

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