O Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), passou a ampliar sua estratégia para atrair cargas aéreas de alto valor agregado e disputar novos fluxos internacionais com Guarulhos, principal porta de entrada de mercadorias transportadas por avião no Brasil. A estratégia ganhou força com a assinatura de um acordo comercial com o Aeroporto de Liège, na Bélgica, que movimentou mais de 1 milhão de toneladas nos primeiros nove meses de 2026 e figura entre os cinco maiores centros cargueiros da Europa.
A parceria, noticiada pelo jornal O Globo, busca desenvolver novas conexões entre a Europa e o Brasil, com prioridade para produtos farmacêuticos, equipamentos de tecnologia e mercadorias do comércio eletrônico internacional. A expansão dos data centers e da indústria farmacêutica aumenta a demanda por transporte aéreo especializado e reforça a concorrência entre os aeroportos brasileiros.
O memorando de entendimento foi assinado na terça-feira (27), durante o Air Cargo Forum, em Miami, nos Estados Unidos, por Maria Fan, diretora comercial de Viracopos, e Frédéric Brun, vice-presidente de Vendas e Marketing do Aeroporto de Liège. O acordo prevê estudos de viabilidade para novos serviços cargueiros, prospecção conjunta de clientes, compartilhamento de informações comerciais e avaliação de incentivos para companhias aéreas interessadas em operar o corredor.
A parceria também poderá ampliar as conexões entre a Ásia e a América Latina, aproveitando a rede internacional de Liège e a localização de Viracopos próxima aos principais polos industriais e tecnológicos brasileiros. Ainda não há companhias aéreas confirmadas nem previsão para o início de novas rotas.
Liège: mais de 1 milhão de toneladas

A dimensão das operações do aeroporto belga ajuda a explicar o interesse de Viracopos na parceria. Liège movimentou 1,032 milhão de toneladas de cargas entre janeiro e setembro de 2026, crescimento de 7,3% em relação às 961,6 mil toneladas registradas no mesmo período de 2025.
As exportações foram um dos principais motores desse desempenho, com avanço de 18,5%, para 453,3 mil toneladas. No terceiro trimestre, a movimentação total ficou praticamente estável, em 334,5 mil toneladas, enquanto os movimentos de aeronaves recuaram 6%.
Em 2025, Liège registrou 1,325 milhão de toneladas movimentadas, aumento de 14% sobre o ano anterior. Foi o segundo maior resultado de sua história e o crescimento mais expressivo entre os dez principais aeroportos cargueiros europeus, segundo a administração do terminal.
O complexo ocupa a quinta posição no ranking europeu de movimentação de cargas. A infraestrutura atende segmentos como produtos farmacêuticos, perecíveis, comércio eletrônico e cargas expressas. O número de companhias aéreas clientes também cresceu. Entre 2023 e 2025, o número de companhias aéreas clientes passou de 40 para 56, enquanto o de operadores logísticos aumentou de 37 para 62.
Ecommerce enfrenta mudanças na Europa
Apesar do crescimento da movimentação total, Liège enfrenta mudanças no perfil das operações de comércio eletrônico internacional. A introdução de uma cobrança de três euros sobre pequenas encomendas importadas de valor inferior a 150 euros, em julho de 2026, afetou o fluxo de mercadorias desse segmento.
Segundo informações divulgadas pelo aeroporto e reproduzidas pela imprensa belga, o volume de pequenos pacotes vinculados ao comércio eletrônico recuou 42% após a implementação da medida, reduzindo a demanda por voos dedicados a esse mercado.
O desempenho indica que o crescimento das exportações e de outras operações cargueiras tem ajudado a compensar a retração de determinados fluxos de encomendas internacionais.
Para a parceria com Viracopos, a diversificação ganha importância. Além do comércio eletrônico, os aeroportos pretendem desenvolver negócios em segmentos com exigências logísticas específicas, como medicamentos, equipamentos eletrônicos e componentes de tecnologia.
Viracopos registra importações de US$ 17,3 bilhões
Os dados de comércio exterior mostram o peso das cargas de alto valor em Viracopos. Levantamento da plataforma de inteligência logística Norn, elaborado a partir de consultas ao Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), aponta que a unidade aduaneira do aeroporto registrou US$ 17,32 bilhões em importações em 2025.
O valor ficou próximo dos US$ 18,16 bilhões registrados na unidade aduaneira de Guarulhos, diferença de aproximadamente 4,6%.
Embora os valores sejam semelhantes, os dois aeroportos apresentam diferenças na relação entre o peso e o valor das mercadorias importadas. Segundo o levantamento, Viracopos registrou 74,7 mil toneladas de importações, com valor médio declarado de aproximadamente US$ 232 por quilo. Em Guarulhos, foram 124,2 mil toneladas, com média de US$ 146 por quilo.
Isso significa que o valor médio declarado por quilo das importações por Viracopos foi cerca de 59% superior ao registrado em Guarulhos, indicador da concentração de produtos de elevado valor unitário nas operações de Campinas.
Os números se referem aos registros de comércio exterior por unidade aduaneira e não devem ser confundidos com a movimentação física total dos aeroportos, que também inclui exportações, cargas domésticas e outras operações.
A concentração de mercadorias de maior valor também aparece nas importações de Viracopos. Segundo a Norn, máquinas e equipamentos mecânicos lideraram as operações em 2025, com US$ 6,87 bilhões, seguidos por equipamentos elétricos e eletrônicos, com US$ 4,72 bilhões. Instrumentos ópticos e de precisão responderam por US$ 1,63 bilhão, enquanto produtos farmacêuticos somaram US$ 1,32 bilhão. Juntas, essas quatro categorias representaram aproximadamente 84% do valor das importações registradas na unidade aduaneira de Viracopos no ano passado.
Os medicamentos estão entre as prioridades de Viracopos. Segundo a administração de Viracopos, o valor das importações desses produtos aumentou 43% em 2026, embora a concessionária não tenha detalhado o período exato utilizado na comparação.
Para acompanhar a demanda, o aeroporto está construindo uma nova estrutura refrigerada que deverá duplicar sua capacidade de armazenagem para esse tipo de mercadoria. A parceria com Liège poderá contribuir para o desenvolvimento de serviços especializados nesse segmento, considerando a experiência do aeroporto belga na movimentação internacional de produtos farmacêuticos e sua conectividade com mercados europeus e asiáticos.
Data centers: nova frente de negócios
A expansão dos investimentos em inteligência artificial e computação em nuvem também está criando oportunidades para o transporte aéreo de equipamentos de alto valor. De acordo com informações divulgadas por Viracopos, o aeroporto responde por aproximadamente 45% das importações brasileiras de produtos de alta tecnologia transportados por avião.
A perspectiva de novos investimentos nesse mercado é reforçada pelo Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que prevê incentivos tributários para aquisições elegíveis de equipamentos destinados ao setor.
Viracopos também investiu na infraestrutura para o comércio eletrônico internacional. O aeroporto colocou em operação um novo armazém de 20 mil metros quadrados dedicado a esse mercado, equipado com sistemas de inspeção por raios X de maior capacidade e acesso direto ao pátio de aeronaves.
A integração entre companhias aéreas, operadores logísticos e órgãos responsáveis pela fiscalização é fundamental para reduzir gargalos e melhorar a previsibilidade dos prazos de entrega.
Guarulhos mantém liderança e amplia infraestrutura
Apesar da proximidade no valor das importações registradas nas unidades aduaneiras, Guarulhos mantém a liderança brasileira na movimentação física de cargas aéreas internacionais. Segundo informações publicadas pelo Globo, o aeroporto concentra aproximadamente 55% da carga aérea importada pelo Brasil e responde por 63% das remessas da indústria farmacêutica.
Em 2025, o terminal de cargas internacionais de Guarulhos movimentou aproximadamente 342 mil toneladas, sendo 167 mil toneladas de importações e 175 mil toneladas de exportações.
A concentração das operações internacionais já provocou dificuldades operacionais. Em 2024, episódios de acúmulo de mercadorias levaram à adoção de restrições temporárias ao recebimento de cargas. Em junho de 2026, um novo período de elevada movimentação exigiu medidas de contingenciamento.
A GRU Airport informou ao Globo que as operações estão normalizadas, com ocupação de aproximadamente 80% e processamento superior a 33 mil toneladas mensais.
A concessionária também prevê ampliar a área do complexo logístico dos atuais 200 mil metros quadrados para mais de 365 mil metros quadrados até 2029. O projeto contempla instalações para diferentes categorias de mercadorias, incluindo produtos farmacêuticos e cargas que exigem condições especiais de armazenamento.
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