O Latam Airlines Group encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de US$ 441 milhões, crescimento de 16,3% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço, entretanto, contrasta com a deterioração dos indicadores operacionais, pressionados pelo aumento do preço do combustível de aviação. Embora a receita tenha crescido 18,4%, para US$ 4,567 bilhões, a margem operacional ajustada recuou de 18,1% para 12,5%, refletindo o impacto dos custos sobre a rentabilidade do grupo.
O resultado operacional ajustado somou US$ 573 milhões, queda de 17,9% na comparação anual, enquanto o EBITDA ajustado atingiu US$ 1,095 bilhão, retração de 4,7%. A margem EBITDA passou de 29,8% para 24%.
A diferença entre o desempenho operacional e o crescimento do lucro líquido reflete o comportamento de outros componentes do resultado financeiro da companhia. Durante a apresentação do balanço, Ricardo Bottas, diretor financeiro do LATAM Airlines Group, destacou a redução dos custos financeiros e a melhora da estrutura de capital, fatores que contribuíram para o desempenho do grupo em um trimestre marcado pela pressão do combustível sobre as margens operacionais.
O principal fator de pressão sobre a operação foi o combustível de aviação, cujo preço médio aumentou 52,1% em relação ao terceiro trimestre de 2025. Segundo Bottas, somente a variação dos preços acrescentou aproximadamente US$ 520 milhões aos custos da companhia, sem considerar o maior consumo decorrente da expansão das operações.
“Estamos falando de um impacto apenas pela variação do preço do combustível, sem considerar o aumento do consumo decorrente da expansão da nossa capacidade”, afirmou Bottas, durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (3).
Parte dessa pressão foi compensada pelo aumento das receitas unitárias de passageiros, responsável por aproximadamente US$ 410 milhões em receitas adicionais, descontado o efeito do crescimento da capacidade.
Para Jérôme Cadier, CEO da Latam Brasil, os resultados demonstram a capacidade da companhia de absorver parte dos impactos externos sem comprometer sua estratégia de crescimento. “O modelo suporta um choque bastante relevante, como percebemos no preço do combustível nesses últimos meses”, disse.
Segundo o executivo, a combinação entre a fidelização dos passageiros, a melhoria dos serviços e uma estrutura operacional mais eficiente contribuiu para sustentar os resultados em um trimestre marcado por custos elevados.
Premissa de combustível sobe para US$ 180
A persistência dos preços elevados do combustível levou a Latam a revisar suas premissas financeiras para o encerramento de 2026. A companhia passou a considerar um preço médio de US$ 180 por barril no quarto trimestre, ante os US$ 130 previstos anteriormente, uma elevação de 38,5%.
Durante a coletiva, Bottas explicou que a estimativa anterior considerava preços de US$ 150 por barril no terceiro trimestre e US$ 130 no quarto. Com a revisão, o impacto acumulado da alta do combustível deverá alcançar aproximadamente US$ 2 bilhões em 2026, considerando exclusivamente a variação dos preços, sem incluir o aumento do consumo decorrente da expansão das operações. “Mesmo assim, projetamos praticamente o mesmo ponto central de geração de margem para o ano”, comentou Bottas.
A companhia projeta receita anual entre US$ 17,6 bilhões e US$ 17,8 bilhões e EBITDA ajustado entre US$ 3,9 bilhões e US$ 4,05 bilhões. A expectativa de geração de fluxo de caixa livre ajustado permanece acima de US$ 1,2 bilhão. “Estamos prevendo uma geração de cerca de US$ 4 bilhões de EBITDA e uma geração de caixa após os investimentos superior a US$ 1,2 bilhão em caixa livre”, destacou o diretor financeiro.
Transporte de cargas cresce 19,5%
A operação de cargas apresentou crescimento superior ao registrado pelo conjunto das receitas do grupo. No terceiro trimestre, o segmento faturou US$ 483 milhões, avanço de 19,5% em relação aos US$ 404 milhões contabilizados um ano antes. O volume transportado chegou a 256 mil toneladas.
Durante a coletiva, Bottas explicou que o desempenho foi sustentado pelo aumento da capacidade e pela melhora das receitas unitárias. Segundo o executivo, a capacidade de transporte de cargas cresceu aproximadamente 3%, enquanto a receita unitária por tonelada avançou 16%.
A operação cargueira também apresentou maior capacidade de adaptação às oscilações do combustível, em razão dos ciclos comerciais mais curtos, que permitem incorporar mais rapidamente as variações de custos aos preços dos serviços.
Questionado pela Agência Transporte Moderno sobre os efeitos do aumento do combustível nos fretes aéreos e as perspectivas para o segmento, Cadier reconheceu que a pressão de custos também provocou ajustes nas operações de carga. “A mesma pressão que sofremos em passageiros, com a questão do combustível, carga também sofreu”, afirmou.
Segundo o executivo, os preços mais elevados já tiveram reflexos sobre a demanda, exigindo adequações tanto na utilização dos compartimentos de carga das aeronaves de passageiros quanto nas operações internacionais realizadas com aviões exclusivamente cargueiros.
“Parte da demanda de carga anda pari passu com a demanda de passageiros, porque se utiliza a barriga das aeronaves que transportam passageiros para acomodar carga, principalmente no mercado doméstico”, explicou Cadier.
No mercado internacional, acrescentou, as operações com aeronaves cargueiras dedicadas também vêm sendo ajustadas conforme o comportamento da demanda. “Temos a mesma dúvida de como é que o combustível afetará os preços e a demanda por transporte aéreo de carga nos próximos meses”, disse.
Bottas destacou que a integração entre as operações de passageiros e cargas representa uma vantagem competitiva para o grupo, ao ampliar a capilaridade da rede e permitir melhor aproveitamento dos custos. “Não estamos falando apenas da operação dos nossos cargueiros, que são 19 aviões exclusivos. Estamos falando da área de transporte de carga nos aviões de passageiros, o que traz uma sinergia bastante importante, tanto em termos de rota, capilaridade, mas também de aproveitamento de custos”, declarou.
Para o fechamento de 2026, a companhia trabalha com uma projeção de crescimento de aproximadamente 5% na operação de cargas, segundo o ponto médio do guidance atualizado apresentado pelo executivo.
Brasil mantém crescimento, mas ajusta frequências
No mercado doméstico brasileiro, a Latam manteve a expansão das operações, embora tenha reduzido ligeiramente sua projeção de crescimento para 2026. A estimativa anterior, de aumento entre 8% e 9% na capacidade, foi ajustada para uma faixa entre 7,5% e 8,5%.
Cadier detalhou que a mudança representa uma redução de aproximadamente 0,5 ponto percentual no crescimento esperado da malha. “Estávamos em 8,5%, agora falamos em 8% de crescimento. Então teve ajuste? Teve. Foi 0,5% da malha da Latam.”.
O executivo explicou que as mudanças ocorreram principalmente nas frequências de rotas com maior número de voos diários, sem eliminação de destinos ou encerramento de bases operacionais. “Não eliminamos nenhuma base ou rota operada. Fizemos simajustes de frequências de algumas rotas que operavam várias vezes por dia”, explicou Cadier.
No terceiro trimestre, a capacidade da operação doméstica brasileira cresceu 6,6%, enquanto o número de passageiros transportados avançou 1,8%, para 10,6 milhões. A taxa de ocupação passou de 86,1% para 83,2%, redução de 2,9 pontos percentuais.
Em contrapartida, a receita unitária de passageiros por assento-quilômetro oferecido (PRASK) aumentou 9,2% em dólares, indicando maior receita por unidade de capacidade, mesmo com a redução da ocupação.
No consolidado do grupo, a capacidade cresceu 7,7%, o número de passageiros transportados chegou a 23,5 milhões, alta de 2,7%, e a ocupação ficou em 83,7%, ante 85,4% um ano antes.
Preocupações para 2027
Apesar do crescimento do lucro líquido, a Latam mantém cautela em relação ao próximo ano. Durante a coletiva, Cadier apontou quatro fatores que poderão influenciar o ritmo de crescimento da aviação brasileira: a permanência dos preços elevados do combustível, a volatilidade cambial, os efeitos da reforma tributária e as possíveis mudanças nas jornadas de trabalho.
“Essa crise não vai embora tão cedo. Os preços do petróleo e do combustível de aviação continuarão altos, e essa deve ser a tônica para o ano de 2027 também”, afirmou. Segundo Cadier, mais de 60% dos custos das companhias aéreas que operam no Brasil são dolarizados, o que amplia a exposição do setor às oscilações cambiais.
A reforma tributária também poderá pressionar os preços das passagens e, consequentemente, a demanda. Já eventuais mudanças na escala de trabalho exigirão adaptações nas operações de solo e nos serviços prestados por terceiros.
Cadier ressaltou que a aviação opera ininterruptamente e que os tripulantes já estão submetidos a regras específicas de jornada e descanso. Para os profissionais de solo, entretanto, eventuais alterações na legislação poderão exigir ajustes nos regimes de trabalho e no dimensionamento das equipes.
Frota deve chegar a 409 aeronaves neste ano
A Latam encerrou setembro com 390 aeronaves, após incorporar sete aviões durante o trimestre: três Airbus A320neo, três A321neo e um Boeing 787-9. A previsão apresentada pela administração é alcançar 409 aeronaves ao final de 2026, 426 em 2027 e 452 em 2028.
No Brasil, a entrada em operação dos Embraer E195-E2 representa uma das principais iniciativas de expansão da conectividade doméstica. A companhia recebeu suas duas primeiras aeronaves em outubro, com início das operações comerciais previsto para 30 de novembro.
A fase inicial de incorporação prevê 14 aeronaves, destinadas a uma malha que abrangerá 42 rotas domésticas. Segundo Cadier, o modelo permitirá ampliar a oferta em mercados de menor densidade e aumentar frequências em destinos já atendidos, com menor consumo de combustível.
O executivo também indicou que os Embraer poderão substituir aeronaves Airbus A319 em determinadas operações, dependendo da evolução da demanda e das condições econômicas. Por enquanto, não há previsão de utilização do modelo na ponte aérea Rio–São Paulo.
A companhia mantém ainda investimentos na modernização de cabines, instalação de internet a bordo e ampliação da infraestrutura de atendimento aos passageiros. Entre as iniciativas previstas está a introdução da cabine Premium Comfort em voos de longa distância, a partir de 2027.
No terceiro trimestre, os investimentos somaram US$ 432 milhões, enquanto o fluxo de caixa operacional alcançou aproximadamente US$ 880 milhões.
Ao final de setembro, o grupo registrava liquidez de US$ 4,446 bilhões e alavancagem líquida ajustada de 1,5 vez. A melhora da posição financeira contribuiu para a elevação da classificação de risco corporativo pela S&P Global Ratings e pela Fitch Ratings, de BB para BB+, ambas com perspectiva estável.
Para Bottas, a manutenção do programa de investimentos, mesmo diante das pressões de custos, está associada à capacidade de geração de caixa e à melhora da posição financeira do grupo.
“A força de liquidez, a execução comercial e a integração corroboram um pouco o porquê dessa confiança do grupo Latam em seguir fazendo esse nível de investimentos e acreditar nessa estratégia de entregar crescimento com rentabilidade”, concluiu.
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