A Lufthansa assinou na terça-feira (3) o acordo para comprar uma participação na TAP, em uma operação que coloca a malha brasileira da companhia portuguesa no centro da expansão do grupo alemão.
Segundo estimativas da Lufthansa, a associação poderá elevar sua participação no tráfego entre Europa e América Latina de cerca de 9% para aproximadamente 20%. A conclusão do negócio depende de autorizações regulatórias, especialmente da Comissão Europeia.
O contrato prevê inicialmente a aquisição de 44,9% por € 1,025 bilhão. A participação poderá alcançar 49,9% com a compra das ações reservadas aos trabalhadores que não forem adquiridas por eles. Considerados essa parcela e os ajustes previstos, o valor poderá chegar a aproximadamente € 1,2 bilhão. O Estado português manterá inicialmente 50,1% do capital.
O plano apresentado ao governo português prevê preservar a marca e a sede da TAP, fortalecer o centro de conexões em Lisboa e ampliar a frota para até 130 aeronaves. Também contempla o reforço das operações no Porto e da presença na América Latina. Uma eventual aquisição do controle dependerá de uma segunda etapa da privatização.
Brasil dá escala à expansão
O principal atrativo brasileiro é a distribuição geográfica da malha da TAP. A rede de destinos divulgada pela companhia inclui capitais como Belém, Brasília, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador e Belo Horizonte, além de São Paulo, Rio de Janeiro e cidades do Sul. Essa estrutura permite captar passageiros em diferentes regiões para conexões em Portugal.
A relevância desse mercado já aparecia nos resultados anteriores à negociação. Em 2024, a TAP transportou pela primeira vez mais de 2 milhões de passageiros entre Brasil e Europa, crescimento de 7,1% sobre 2023. O avanço foi superior ao registrado no conjunto da companhia, cujo movimento aumentou 1,6%, para 16,1 milhões de passageiros.
A complementaridade das operações é apontada pela própria Lufthansa como justificativa para o investimento. Em apresentação aos acionistas em maio, o grupo destacou a pequena sobreposição de rotas e o valor estratégico da presença da TAP no Atlântico Sul, especialmente no Brasil. A leitura é que a aquisição permite ampliar a cobertura geográfica por meio de uma rede já estabelecida.
Na América Latina, o efeito imediato será o aumento da presença comercial do grupo no mercado atendido pela TAP. Isso não representa, por si só, o lançamento de voos para outros países da região: o comunicado da assinatura destaca a expansão das ligações com o Brasil, a África de língua portuguesa e a América do Norte.
Mais conexões, mas oferta ainda sem definição
Para o passageiro brasileiro, a integração poderá ampliar as combinações de itinerários e a distribuição de voos pela rede europeia. TAP e Lufthansa já são parceiras na Star Alliance, mas a participação acionária abre espaço para uma coordenação mais profunda, sujeita às condições impostas pelas autoridades.
O efeito sobre a oferta dependerá de como o grupo distribuirá aeronaves, frequências e conexões entre suas bases. A ampliação da frota prevista na proposta cria espaço para crescimento, mas ainda não permite quantificar quantos assentos adicionais chegarão ao Brasil nem quais cidades receberão novas ligações.
Também não há garantia de redução de tarifas. Ganhos de escala podem diminuir custos, mas o preço final dependerá da demanda, da concorrência e das decisões comerciais. O aumento da participação conjunta entre Europa e América Latina torna a análise concorrencial uma das etapas relevantes para definir o alcance da integração.
Passageiros crescem, lucro perde força
A Lufthansa encontra uma companhia que recuperou movimento e voltou a apresentar resultados anuais positivos, mas ainda enfrenta pressão sobre a rentabilidade. O lucro líquido da TAP passou de € 177,3 milhões em 2023 para € 53,7 milhões em 2024. Na divulgação de 2024, a empresa atribuiu o resultado principalmente a provisões trabalhistas extraordinárias e perdas cambiais.
Em 2025, o lucro recuou para € 4,1 milhões, no quarto ano consecutivo de resultado positivo. Segundo a TAP, sem o efeito da atualização das taxas do imposto sobre o rendimento das empresas, teria alcançado € 46 milhões. O movimento cresceu 3,4%, para 16,7 milhões de passageiros, e a ocupação chegou a 84,2%. As receitas operacionais somaram € 4,313 bilhões.
Os dados de 2026 mostram a continuidade dessa diferença entre demanda e resultado financeiro. No primeiro semestre, a TAP transportou 8,2 milhões de passageiros, alta de 4,2%, e registrou receita operacional de € 2,04 bilhões, avanço de 4,3%. Ainda assim, o prejuízo aumentou para € 99,2 milhões, ante € 70,7 milhões no mesmo período de 2025, pressionado pelo combustível.
O desempenho ajuda a explicar por que o interesse da Lufthansa vai além do lucro atual: envolve a possibilidade de combinar uma rede com demanda crescente a uma estrutura de maior escala e capacidade de investimento.
Carga enfrenta pressão sobre receitas
No transporte de mercadorias, os resultados também exigem distinguir atividade e receita. Em 2024, a receita de carga e correio caiu 6%, de € 173,1 milhões para € 162,7 milhões. No mesmo período, o peso tarifável — indicador utilizado na cobrança do frete — cresceu 3,4%, e a ocupação de carga avançou 3,5 pontos percentuais, para 48,7%.
A pressão prosseguiu no quarto trimestre de 2025. A receita de carga e correio ao trimestre ficou em € 36,9 milhões, queda de 18,9% sobre igual período de 2024. A TAP atribuiu a redução a dosi fatores: menor peso tarifável e queda da receita média do transporte.
Para o mercado brasileiro, uma eventual expansão dos voos de passageiros poderá acrescentar espaço para mercadorias nos porões das aeronaves. O ganho efetivo dependerá, porém, do modelo de avião, da frequência e da capacidade disponível em cada ligação.
A experiência recente da TAP mostra também uma busca por cargas de maior valor agregado. Em 2024, a companhia operou cargueiros entre Bruxelas, Amsterdã e Portugal para atender segmentos como o farmacêutico. A aproximação com o grupo alemão poderá abrir oportunidades de coordenação logística, mas o acordo divulgado não detalha um plano específico de integração entre TAP Air Cargo e Lufthansa Cargo.
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