A ZF vai nacionalizar a transmissão automatizada nova TraXon 2 na fábrica de Sorocaba (SP), com início da produção previsto para meados de 2027 e contratos de fornecimento já fechados com duas montadoras. A novidade é o principal anúncio da empresa para a Fenatran 2026 e integra um pacote de lançamentos que inclui a nova geração de discos de embreagem TD285, a remanufatura do atuador pneumático ConAct e a incorporação do sistema PreVision à transmissão 9AS EcoTronic, voltada a caminhões médios e semipesados.
Durante encontro com a imprensa hoje, em São Paulo, Carlos Delich, presidente da ZF América do Sul, indicou para a Agência Transporte Moderno, que a companhia deverá encerrar 2026 com crescimento de aproximadamente 5% nas vendas, abaixo dos 8% inicialmente projetados. A revisão reflete um cenário mais difícil para o setor, marcado pelos juros elevados e pelas restrições à renovação da frota.
A estratégia da companhia combina tecnologias desenvolvidas globalmente com adaptações às condições de operação sul-americanas. Além da eficiência energética, a nova geração de transmissões amplia a integração eletrônica dos veículos e prepara o sistema para atualizações remotas de software e requisitos de cibersegurança.
“A nacionalização da TraXon 2 representa muito mais do que a produção local de uma transmissão. Trata-se de uma tecnologia de alta complexidade, preparada para acompanhar a transformação da indústria rumo à digitalização, à conectividade e à eletrificação”, afirma Delich.
TraXon 2: economia de 1,7% no consumo de combustível
A nova geração da transmissão automatizada para caminhões pesados mantém a base mecânica da TraXon 1, mas incorpora uma arquitetura eletrônica redesenhada, com nova unidade de controle eletrônico (ECU) e maior capacidade de processamento. A mudança permite tornar as trocas de marcha mais rápidas e precisas, melhorar a interação entre transmissão, motor e demais sistemas do veículo e ampliar as possibilidades de atualização ao longo da vida útil do caminhão.

Segundo estimativas globais da ZF, a TraXon 2 pode reduzir em até 1,7% o consumo de combustível e as emissões de CO₂ em relação à geração anterior. O resultado depende, obviamente, da aplicação e da configuração do veículo, já que a transmissão é apenas um dos componentes que influenciam a eficiência do conjunto.
A evolução também inclui a função stop and go, que permite desligar o motor durante determinadas paradas e retomá-lo quando necessário. O pacote de software contempla recursos como PreVision e ECO-Roll, além da integração com os sistemas eletrônicos de frenagem ABS/EBS.
Outra novidade é a preparação para atualizações remotas de software, por meio da tecnologia Flash Over The Air (FOTA). O recurso permitirá disponibilizar novas funcionalidades e aperfeiçoamentos sem que o caminhão precise necessariamente ir à oficina para esse procedimento. A aplicação dependerá da integração entre a transmissão, a arquitetura eletrônica do veículo e os sistemas definidos em conjunto com cada montadora.
A família TraXon já ultrapassou 1,5 milhão de unidades produzidas mundialmente. Na América do Sul, a plataforma soma aproximadamente 120 mil unidades fornecidas, segundo os dados apresentados pela empresa.
A produção da TraXon 2 não substituirá a TraXon 1, que continuará sendo fabricada em Sorocaba. A nova versão terá uma estação específica para carregamento e processamento do software, com capacidade operacional aproximadamente duas vezes superior à da estrutura atual.
A produção nacional está prevista para meados de 2027. A ZF já tem contratos fechados com duas montadoras, cujos nomes não foram divulgados. O fornecimento para a primeira deverá começar em 2027 e, para a segunda, em 2028.
“Para as montadoras, ter a TraXon 2 produzida localmente facilita o planejamento, traz menos dependência de importação, torna a integração mais ágil com as linhas de montagem e garante o mesmo padrão de desempenho e confiabilidade que a transmissão já entrega nos principais mercados do mundo”, afirma Silvio Furtado, vice-presidente de Soluções para Veículos Comerciais da ZF América do Sul.
Cibersegurança ganha destaque
A nova arquitetura eletrônica também prepara a transmissão para as exigências internacionais de cibersegurança. O objetivo é proteger a comunicação entre os sistemas embarcados e impedir acessos indevidos ao software que possam alterar configurações do veículo e comprometer a segurança da operação.
Durante o encontro, os executivos explicaram que um acesso não autorizado poderia permitir a reconfiguração de sistemas eletrônicos e provocar situações de risco, inclusive acidentes. A proteção incorporada à TraXon 2 busca reduzir essa exposição e preparar o produto para futuras exigências regulatórias.
A nova estação de processamento de software da fábrica de Sorocaba também foi concebida para atender aos requisitos da norma internacional ISO/SAE 21434, referência para a engenharia de cibersegurança em veículos rodoviários.
A evolução acompanha a tendência dos veículos comerciais definidos por software, nos quais diferentes sistemas podem receber atualizações e incorporar novas funcionalidades ao longo do ciclo de vida. Na prática, isso amplia as possibilidades de evolução tecnológica sem exigir a substituição física de todos os componentes.
Testes brasileiros: mais de 2 milhões de quilômetros
A adaptação às condições locais é uma das etapas centrais do desenvolvimento. A TraXon 2 já acumulou mais de 2 milhões de quilômetros de testes com mais de 40 veículos, segundo os dados apresentados pela ZF. A validação envolve diferentes aplicações, rotas e condições de operação.
Segundo os executivos, o processo de testes de campo pode levar de um ano a um ano e meio, após as etapas iniciais de simulação e bancada. A diversidade das estradas sul-americanas exige avaliar diferentes combinações de topografia, altitude, pavimento, carga e condições de uso. Uma configuração que funciona bem em rotas predominantemente planas pode exigir ajustes para operações com aclives, declives ou aplicações severas.
A equipe regional de aplicação, calibração e desenvolvimento conta com mais de cem engenheiros. Parte desse trabalho consiste em ajustar o software e os parâmetros de funcionamento às características de cada veículo, aplicação e montadora.
Segundo Furtado, a transmissão é a mesma, mas a calibração eletrônica pode mudar conforme o mercado e as condições de uso. Essa adaptação é especialmente importante em uma região que combina rotas planas, trechos montanhosos, operações rodoviárias de longa distância e aplicações severas.
PreVision amplia alcance para antecipar a rota
Outra novidade é a incorporação do PreVision à transmissão automatizada 9AS EcoTronic, de nove marchas, destinada a caminhões médios e semipesados. A funcionalidade utiliza informações do GPS para antecipar o perfil da rota e ajustar as trocas de marcha de acordo com as condições previstas à frente do veículo.
Na TraXon 1, o alcance de antecipação informado pela empresa era de um quilômetro. Na TraXon 2, passou para dois quilômetros, permitindo uma leitura mais antecipada do trajeto. A tecnologia também está sendo incorporada à 9AS EcoTronic.

Ao identificar previamente aclives e declives, o sistema pode selecionar a marcha mais adequada antes de o caminhão chegar ao trecho, evitando mudanças desnecessárias e contribuindo para uma condução mais suave e eficiente. A estratégia busca melhorar o aproveitamento da energia e reduzir o consumo de combustível.
Nos testes preliminares realizados no Brasil com a 9AS EcoTronic equipada com PreVision, a ZF registrou potencial de economia de até 3% em comparação com a configuração sem o recurso. O percentual não deve ser confundido com a estimativa de até 1,7% atribuída à TraXon 2.
O desenvolvimento da aplicação para a transmissão de nove marchas partiu de uma necessidade identificada pela engenharia brasileira, considerando o perfil de utilização dos caminhões médios e semipesados, que combinam operações urbanas e rodoviárias.
A tecnologia também foi adaptada às condições de operação de veículos extrapesados no Brasil, que podem transportar até 74 toneladas, conforme destacado no material da empresa. A solução já tem um cliente contratado no país, cujo nome não foi divulgado.
TD285 protege o trem de força
A ZF apresentará também na Fenatran 2026 a TD285, nova geração de discos de embreagem com amortecedor torcional desenvolvida no Brasil para caminhões e ônibus pesados. O componente foi projetado para atenuar as vibrações geradas pelos motores Euro 6 e pelas próximas gerações de sistemas de propulsão.

O produto utiliza discos de 430 milímetros de diâmetro e está disponível para aplicações com torque máximo de até 3.500 Nm. A proposta é melhorar a dirigibilidade, especialmente em baixas rotações, partidas e trocas de marcha, além de proteger os componentes do trem de força contra vibrações torcionais.
A TD285 poderá atender tanto às montadoras, no mercado de equipamento original, quanto ao mercado de reposição. O lançamento reforça o papel da engenharia brasileira na adaptação de componentes às condições de operação dos veículos comerciais pesados.
ConAct amplia a remanufatura no Brasil
A terceira frente do pacote de novidades é a remanufatura do ConAct, sistema pneumático de acionamento de embreagem utilizado em veículos comerciais pesados. A operação deverá começar em 2027, na unidade de Araraquara (SP).
O componente atua no acionamento da embreagem e contribui para o controle das mudanças de marcha, reduzindo o desgaste prematuro do conjunto. O sistema dispensa acionamento hidráulico, facilita a montagem e pode ser aplicado em operações severas, incluindo atividades fora de estrada. É compatível com aplicações de motores com torque de até 3.200 Nm.

Segundo a ZF, o processo permite recuperar 63% dos componentes de desgaste do ConAct. A remanufatura inclui limpeza, substituição de itens desgastados, inspeção e testes conforme os padrões do mercado de equipamento original. As peças remanufaturadas recebem garantia equivalente à de um componente novo.
A empresa informou que o uso conjunto do sistema de acionamento e da transmissão automatizada pode contribuir para ampliar em até 30% a vida útil da embreagem, conforme a aplicação. A estratégia é expandir gradualmente a remanufatura e, de acordo com a demanda, avançar para a produção de componentes novos no Brasil.
Brasil concentra mais de 90% das vendas regionais
A ZF registrou vendas próximas de R$ 8 bilhões na América do Sul em 2025. Mais de 90% das vendas regionais têm origem no Brasil, segundo Delich, o que reforça a importância do país para a operação da companhia.
A região reúne aproximadamente 5.500 colaboradores diretos e 13 localidades, oito delas com manufatura: sete no Brasil e uma na Argentina. A estrutura inclui atividades de produção, desenvolvimento, suporte às montadoras e mercado de reposição.
No cenário global, a empresa registrou vendas de € 38,8 bilhões em 2025, com cerca de 153 mil colaboradores e 162 unidades produtivas em 29 países.
Delich também destacou a importância da presença local para adaptar tecnologias às necessidades dos clientes. A estratégia da ZF não se limita à produção: inclui participação no desenvolvimento dos veículos, calibração de transmissões, suporte à operação das frotas e atendimento ao mercado de reposição.
Nesse segmento, o portfólio da companhia inclui marcas como ZF, Sachs, Lemförder, TRW e WABCO. A aquisição da TRW ampliou a atuação da empresa em sistemas de segurança e freios, enquanto a integração da WABCO fortaleceu a oferta de tecnologias de controle e frenagem para veículos comerciais.
A companhia mantém um plano de investimentos de R$ 1 bilhão até 2030, anunciado anteriormente. Os recursos abrangem não apenas novos produtos, mas também modernização industrial, automação, aumento de produtividade e redução de custos.
Em pesquisa e desenvolvimento, a ZF destina globalmente mais de 7,5% das vendas à atividade, segundo os executivos. A estrutura regional tem papel importante na adaptação de tecnologias às condições de uso sul-americanas e no desenvolvimento de soluções específicas para clientes locais.
A empresa também acompanha a evolução de tecnologias como eixos elétricos, compressores elétricos de ar, transmissões automáticas para ônibus e sistemas de assistência ao motorista. A eventual produção local dessas soluções dependerá da demanda, das condições econômicas, da legislação e da infraestrutura disponível.
Descarbonização: ritmos diferentes entre Brasil e Europa
A diferença entre os mercados brasileiro e europeu também influencia as decisões de desenvolvimento e adoção de novas tecnologias. Delich avaliou que o Brasil e a América do Sul como um todo se beneficiaram de não ter enfrentado a mesma urgência regulatória vivida pela indústria europeia na adaptação às metas de descarbonização.
Na avaliação do executivo, a pressão política na Europa acabou se sobrepondo, em determinados momentos, à análise técnica e às condições efetivas de implementação das tecnologias. A percepção ajuda a explicar sua defesa de uma transição que considere não apenas os objetivos ambientais, mas também a viabilidade econômica, a infraestrutura disponível e a capacidade de absorção das novas soluções pelo mercado.
A visão de Delich é que a adoção de tecnologias deve acompanhar as necessidades dos clientes e as condições de cada país. Isso não significa abandonar a redução das emissões, mas avaliar os caminhos disponíveis para alcançar ganhos ambientais sem comprometer a competitividade dos transportadores e das montadoras.
Juros elevados dificultam
A perspectiva de crescimento de aproximadamente 5% nas vendas da ZF em 2026, ante expectativa inicial de 8%, reflete um ambiente mais difícil para o setor de veículos comerciais. A companhia esperava que a redução dos juros favorecesse a retomada das compras de caminhões, mas o custo do crédito continua pressionando as decisões de investimento dos transportadores.
A renovação postergada pode transferir parte da demanda para períodos posteriores, mas torna a recuperação mais lenta e menos previsível. Nesse cenário, a ZF aposta na combinação de eficiência, conectividade, suporte de engenharia e soluções para todo o ciclo de vida dos veículos para sustentar os negócios.
A nacionalização da TraXon 2, os recursos de antecipação de rota e a ampliação da remanufatura procuram responder tanto à evolução tecnológica dos caminhões quanto à pressão por redução do custo total de operação das frotas.
A estratégia também reforça a importância da engenharia brasileira no desenvolvimento de soluções que podem atender outros mercados. Para Delich, o desafio é acompanhar a transformação tecnológica sem perder de vista a viabilidade econômica das aplicações e as condições reais de operação do transporte de cargas.
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