Custos logísticos de R$ 2,2 trilhões desafiam empresas em 2027

Estudo do ILOS aponta despesas equivalentes a 16,1% do PIB; juros elevados pressionam estoques e 69% das empresas projetam aumento nos custos de transporte no próximo ano

Valeria Bursztein

O Brasil deverá encerrar 2026 com uma conta logística de R$ 2,2 trilhões, equivalente a 16,1% do Produto Interno Bruto (PIB). A estimativa do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) revela que os custos de transporte, armazenagem e manutenção de estoques permanecem em um patamar elevado, pressionando as margens das empresas e a competitividade da produção nacional.

O cenário para 2027 também é de preocupação: quase sete em cada dez grandes companhias consultadas pelo instituto esperam novos aumentos nas despesas com transporte.

O problema não se resume à elevação dos fretes. A combinação de juros elevados, capital imobilizado em estoques e limitações da infraestrutura logística tem ampliado o peso dessas despesas sobre a economia brasileira. Em 2014, os custos logísticos representavam 10,4% do PIB. Em 2025, chegaram a 15,5%, e a projeção para este ano indica um avanço de mais 0,6 ponto percentual.

A evolução representa um aumento de 5,7 pontos percentuais na participação da logística no PIB em pouco mais de uma década. Para empresas que dependem do transporte de matérias-primas, insumos e produtos acabados, o resultado significa uma parcela crescente dos recursos comprometida com a movimentação e a manutenção de mercadorias.

“O Brasil não está diante de um pico de custo logístico, mas de um novo patamar”, afirma Maurício Lima, sócio-diretor do ILOS e responsável pelo estudo. Segundo ele, a elevação registrada a partir de 2022 se consolidou, sem perspectiva de alívio no curto prazo.

Juros tornam estoques mais caros

Embora o transporte continue sendo a principal parcela dos custos logísticos nacionais, com participação próxima de 9% do PIB desde 2020, a manutenção de estoques apresentou uma das maiores variações nos últimos anos.

De acordo com o ILOS, esse componente representava 2,9% do PIB em 2020 e passou para 5% em 2022. Em 2023, alcançou 5,6%, percentual que se manteve em 2025. O aumento está diretamente relacionado ao custo financeiro de manter mercadorias armazenadas em um ambiente de juros elevados.

Com a Selic em patamar elevado, os recursos aplicados na formação e manutenção de estoques representam um custo maior para as empresas. Isso significa que, mesmo sem aumento proporcional do volume armazenado, a despesa financeira associada às mercadorias pode crescer.

O impacto é particularmente relevante para setores que trabalham com grandes volumes, operações sazonais ou necessidade de manter estoques de segurança para garantir o abastecimento.

A situação também amplia a importância do planejamento da cadeia de suprimentos. Reduzir o tempo entre a produção, a armazenagem e a entrega pode contribuir para diminuir a necessidade de capital de giro, embora essa estratégia dependa da previsibilidade do transporte e da disponibilidade de infraestrutura.

Logística consome quase 10% da receita empresarial

Para avaliar como essas despesas afetam diretamente os negócios, o ILOS realizou, no primeiro semestre de 2026, uma pesquisa com mais de 100 das maiores empresas industriais e varejistas do país, considerando o faturamento.

O levantamento mostrou que os custos logísticos representam, em média, 9,5% da receita líquida das companhias consultadas. O percentual, entretanto, apresenta diferenças expressivas entre os segmentos econômicos.

Na indústria de materiais de construção, as despesas chegam a 19,8% da receita líquida, o maior percentual identificado na pesquisa. Já nas empresas de tecnologia e telecomunicações, a participação é de 3%.

A diferença reflete características como peso e volume das mercadorias, distâncias percorridas, frequência das entregas e necessidade de armazenagem. Produtos de baixo valor agregado e elevado peso, por exemplo, tendem a ser mais sensíveis ao custo do transporte.

Para os embarcadores, a pressão logística exige atenção não apenas à negociação dos fretes, mas também à localização dos centros de distribuição, ao dimensionamento dos estoques e à integração entre produção, transporte e abastecimento.

No caso das transportadoras, o desafio é conciliar a necessidade de oferecer preços competitivos aos clientes com a preservação das margens operacionais, em um ambiente de custos elevados.

Fretes mais caros em 2027

As expectativas para o próximo ano indicam que a pressão sobre os custos logísticos deverá continuar. Segundo a pesquisa do ILOS, 69% das empresas consultadas acreditam que as despesas com transporte aumentarão em 2027, com alta média esperada de 9,6% entre as que projetam elevação.

A armazenagem também aparece entre as preocupações. Nesse segmento, 44% das companhias esperam aumento dos custos, com variação média projetada de 5,7%. Já na manutenção de estoques, 31% preveem elevação das despesas, estimada em 7%.

As projeções não representam reajustes já contratados ou uma previsão de aumento uniforme dos fretes no país, mas indicam a percepção das empresas sobre as condições de custos que deverão enfrentar no próximo exercício.

Para Lima, a perspectiva é preocupante porque as companhias não identificam sinais consistentes de redução das despesas logísticas. O executivo avalia que a continuidade dos aumentos poderá afetar simultaneamente a rentabilidade empresarial, os preços ao consumidor e a competitividade da produção brasileira.

Infraestrutura limita eficiência

Além dos fatores financeiros, a evolução dos custos logísticos está relacionada à capacidade da infraestrutura de acompanhar o crescimento da movimentação de mercadorias.

Em análise anterior do ILOS, Lima observou que o Brasil havia ampliado em cerca de 25% o volume de cargas transportadas ao longo de dez anos, sem expansão equivalente da infraestrutura logística. O descompasso contribui para pressionar os custos das operações e limitar ganhos de produtividade.

A questão ganha relevância diante da necessidade de melhorar a integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias e portos, especialmente nos corredores utilizados para o escoamento da produção industrial e agrícola.

A redução dos custos depende, portanto, de medidas que ultrapassam a gestão individual das empresas. Investimentos em infraestrutura, maior previsibilidade operacional e integração entre os diferentes modais podem contribuir para diminuir desperdícios, tempos de espera e despesas de transporte e armazenagem.

O levantamento do ILOS mostra que a logística entrou em um período de custos persistentemente elevados. Com as empresas já projetando novas altas para 2027, o desafio será encontrar ganhos de produtividade suficientes para absorver parte dessas despesas sem comprometer a competitividade das operações.

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