Exportações de veículos da China pressionam capacidade de transporte marítimo global

Crescimento das vendas externas chinesas mantém mercado de navios para transporte de veículos aquecido, segundo a Wallenius Wilhelmsen

Redação

O avanço das exportações de veículos fabricados na China está pressionando a capacidade global de transporte marítimo especializado de automóveis. Segundo Lasse Kristoffersen, presidente e CEO da Wallenius Wilhelmsen, a demanda por espaço nos navios do tipo PCTC (Pure Car and Truck Carrier) continua superior à oferta, mesmo com a entrada de novas embarcações no mercado.

A avaliação foi apresentada durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre da companhia e publicada pelo site americano FreightWaves em 20 de agosto. Segundo o veículo, Kristoffersen afirmou que a frota da Wallenius Wilhelmsen que parte da Ásia está totalmente ocupada e que a empresa precisa priorizar clientes diante da falta de espaço disponível.

O executivo atribui a pressão principalmente ao crescimento estrutural das exportações chinesas de veículos, e não a uma estratégia das montadoras para simplesmente desovar estoques no exterior.

China exporta mais de 1 milhão de veículos por mês

De acordo com os dados apresentados por Kristoffersen, as exportações chinesas de veículos superaram 1 milhão de unidades tanto em junho quanto em julho, o que representa um ritmo anualizado superior a 12 milhões de veículos.

Antes da pandemia de Covid-19, as exportações chinesas eram inferiores a 1 milhão de veículos por ano, segundo o executivo. A mudança mostra a transformação da China em uma potência exportadora da indústria automotiva.

A própria Wallenius Wilhelmsen já vinha identificando essa tendência. No primeiro trimestre de 2026, a companhia informou que as exportações chinesas de veículos leves haviam crescido 47% em relação ao mesmo período do ano anterior, com Europa e América do Sul entre os mercados que impulsionaram o avanço.

Para Kristoffersen, o crescimento não está relacionado apenas ao preço dos veículos chineses. Segundo o executivo, os produtos ganharam competitividade em aspectos como tecnologia, funcionalidade, qualidade, design e preço.

Falta de navios muda rota das exportações

A falta de capacidade nos navios especializados também está levando parte dos veículos chineses a utilizar alternativas ao transporte tradicional de veículos.

Segundo a avaliação apresentada à qual o FreightWaves teve acesso, entre 2 milhões e 4 milhões de veículos por ano podem estar sendo transportados em contêineres ou por outras alternativas devido à indisponibilidade de espaço nos navios PCTC. Kristoffersen estima que o volume esteja mais próximo do limite superior dessa faixa.

Esse movimento representa uma demanda potencial para operadores de navios especializados caso novas embarcações estejam disponíveis.

A situação também evidencia o impacto logístico do avanço da indústria automotiva chinesa. O aumento das exportações não pressiona apenas portos e terminais, mas também a disponibilidade de navios, equipamentos e serviços necessários para levar os veículos aos mercados consumidores.

Frota não cresce no mesmo ritmo

Embora a carteira de pedidos de novos navios PCTC corresponda a aproximadamente 20% a 21% da frota mundial existente, o crescimento efetivo da capacidade deve ocorrer de forma mais lenta.

Segundo Kristoffersen, grande parte da capacidade dos estaleiros já está comprometida até 2029. Com isso, navios encomendados atualmente tendem a ser entregues somente a partir de 2030.

Ao mesmo tempo, parte da frota existente se aproxima do fim da vida útil. Embarcações mais antigas, próximas dos 30 anos de operação, podem ser retiradas de serviço, reduzindo o impacto líquido da entrada dos novos navios.

A própria Wallenius Wilhelmsen havia informado no primeiro trimestre que a frota mundial de navios para transporte de veículos com capacidade superior a 2 mil CEU estava em cerca de 5 milhões de CEU. Naquele momento, a carteira de pedidos correspondia a 21% da frota, com novas embarcações previstas para entrega principalmente em 2028 e 2029.

Fretes sobem com pressão sobre capacidade

O desequilíbrio entre oferta e demanda já aparece nos preços. Segundo a Wallenius Wilhelmsen, as tarifas spot e de afretamento de navios vinculadas à China subiram aproximadamente 80% no segundo trimestre e chegaram a praticamente dobrar em relação às mínimas registradas no primeiro trimestre.

Para os armadores, o aumento das tarifas representa uma oportunidade de elevação de receita, embora custos maiores de afretamento também possam pressionar as despesas operacionais. A Wallenius Wilhelmsen afirma ter exposição relativamente limitada a esse aumento no curto prazo.

Exportação chinesa muda o comércio global de veículos

O movimento reforça uma mudança estrutural no comércio internacional de veículos. A China deixou de ser apenas um dos maiores mercados automotivos do mundo e passou a ocupar uma posição cada vez mais relevante como plataforma de exportação.

A Wallenius Wilhelmsen já apontava no início do ano que o crescimento das exportações chinesas estava ampliando o desequilíbrio dos fluxos comerciais entre Ásia, Europa e América do Norte e aumentando a demanda por capacidade marítima.

A expansão também envolve veículos elétricos, híbridos e modelos equipados com motores a combustão. Dados apresentados pela companhia no primeiro trimestre mostram que o crescimento das exportações chinesas de veículos leves não se restringe aos modelos elétricos.

Para o setor de transporte e logística, o avanço chinês cria um efeito em cadeia: quanto mais veículos são exportados, maior é a necessidade de capacidade nos portos, navios especializados, terminais de veículos e operações de distribuição nos países de destino.

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