A Sinotruk prepara um plano de assistência para atender proprietários de caminhões vendidos durante sua primeira operação no Brasil, encerrada em 2014. A fabricante chinesa estima que entre 500 e 700 veículos da marca ainda estejam em circulação no país e pretende identificar esses clientes para mapear as principais dificuldades de manutenção e fornecimento de peças.
A iniciativa faz parte da estratégia da empresa para recuperar a confiança dos transportadores brasileiros em seu retorno ao mercado nacional. Segundo Elmer Hartman, executivo responsável pelo projeto de reestruturação da operação brasileira, a companhia já recebe contatos de proprietários de modelos antigos, principalmente dos caminhões Howo 380 e Howo A7, que enfrentam dificuldades para encontrar componentes de reposição.
“Estamos planejando entrar em contato, possivelmente conhecer todos eles e conseguir endereçar as principais demandas na questão de peças que sentem falta”, afirmou Hartmann, em entrevista ao Videocast Transporte Moderno.
A proposta é utilizar o centro de distribuição que está sendo estruturado em São Paulo para disponibilizar componentes aos proprietários da frota antiga. A empresa ainda trabalha no levantamento das necessidades desses veículos e não detalhou quando o programa estará disponível nem quais serão as condições comerciais para o fornecimento de peças.
Frota de 2.500 caminhões
Na primeira passagem pelo Brasil, entre 2010 e 2014, a Sinotruk comercializou aproximadamente 2.500 caminhões, segundo estimativa mencionada na entrevista. Com a saída da fabricante, as concessionárias que representavam a marca procuraram manter o atendimento e o fornecimento de componentes, mas a estrutura perdeu capacidade ao longo dos anos, especialmente após o encerramento das garantias.
A retomada do relacionamento com esses transportadores é considerada uma etapa importante para a nova operação. Diferentemente da primeira experiência, quando a marca atuava no país por meio de uma importadora, a Sinotruk Brasil foi constituída como subsidiária integral do grupo chinês, por meio da Sinotruk International. A unidade de negócios brasileira foi aberta em novembro de 2025.
Hartmann e o executivo responsável pelo desenvolvimento da rede de concessionárias e do pós-venda, Emílio Véquez, têm experiência anterior na Scania. A companhia pretende aproveitar esse conhecimento para estruturar o atendimento no país, com prioridade para a disponibilidade de peças, a assistência técnica e a formação da rede.
“Temos uma história que vai demandar que a gente recupere a confiança, mas não temos nenhuma dúvida da nossa capacidade de fazer isso. O que vai mostrar para o cliente não são palavras, é o que efetivamente vamos ser capazes de entregar”, disse Hartmann.
Nova operação
A Sinotruk deixou o mercado brasileiro em 2014, em meio às dificuldades de adaptação às exigências do programa Inovar-Auto e à complexidade do ambiente regulatório e industrial do país. Desde então, a fabricante ampliou sua presença em outros mercados da América Latina, incluindo Peru, México, Paraguai e Equador.
No retorno, a empresa pretende operar diretamente, com estrutura própria e uma estratégia que começa pelo segmento de caminhões pesados. A companhia também prepara a apresentação de modelos com diferentes tecnologias de propulsão na Fenatran, que será realizada de 9 a 13 de novembro, em São Paulo.
Entre os veículos previstos estão um cavalo mecânico C7H 6×4 com motor a gás natural liquefeito (GNL), de 560 cv, e uma versão elétrica do C7H, equipada com bateria de 600 kWh. A fabricante também planeja oferecer modelos a diesel das linhas Sinotruk e Sitrak.
A assistência à frota antiga, porém, representa um movimento anterior à conquista de novos clientes: a tentativa de demonstrar que, desta vez, a fabricante terá condições de sustentar sua presença no Brasil também depois da venda dos caminhões.
Planos para o mercado brasileiro
A estratégia de retorno ao Brasil não se limita à importação de caminhões. A Sinotruk estuda uma futura operação industrial, que poderá envolver montagem local e integração progressiva de fornecedores e componentes brasileiros. A empresa também trabalha na formação de uma rede de concessionárias e serviços, com fornecimento de peças, capacitação técnica e contratos de manutenção.
Para viabilizar a expansão, a fabricante busca alternativas de financiamento com instituições nacionais e internacionais, incluindo possibilidades de capital de origem chinesa. O objetivo é facilitar tanto a aquisição dos caminhões pelos clientes quanto o financiamento dos estoques das concessionárias.
A companhia identifica oportunidades em operações rodoviárias de médias e longas distâncias, construção, infraestrutura, transporte pesado e aplicações vocacionais. Também considera segmentos como serviços urbanos, saneamento e operações logísticas especializadas.
A Sinotruk vê espaço para ampliar a renovação da frota brasileira. A empresa cita dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) segundo os quais, no primeiro bimestre de 2025, foram negociados aproximadamente três caminhões usados para cada veículo novo emplacado. Na avaliação da fabricante, essa relação indica demanda potencial por veículos novos e oportunidades para ampliar o acesso ao mercado.
A entrada em um mercado com frota envelhecida, porém, exige mais do que preços competitivos. A decisão de compra de uma transportadora envolve custo total de operação, consumo de combustível ou energia, disponibilidade do veículo, valor de revenda, acesso a financiamento e capacidade de atendimento durante toda a vida útil do caminhão.
O desafio é relevante em um cenário de juros elevados e restrições de crédito. Mesmo com iniciativas de financiamento, como o programa Move Brasil, a aquisição de veículos pesados continua dependendo da capacidade de investimento de transportadoras e caminhoneiros autônomos. Para a Sinotruk, consolidar o retorno exigirá demonstrar que, além de produtos competitivos, a empresa tem estrutura para manter os caminhões em operação.
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