Sany lançará caminhão elétrico de 49 toneladas na Fenatran

Montadora chinesa apresentará também modelo elétrico de 18 toneladas para aplicações vocacionais e mira R$ 180 milhões em negócios na feira

Aline Feltrin

A chinesa Sany lançará dois novos caminhões elétricos na Fenatran 2026, maior feira de transporte de carga da América Latina, que será realizada de 9 a 13 de novembro, em São Paulo. O principal destaque será o 636, cavalo mecânico elétrico 4×2 de 49 toneladas para operações rodoviárias de longa distância. A fabricante chinesa também apresentará pela primeira vez no Brasil um caminhão 4×2 elétrico de 18 toneladas, inicialmente configurado para coleta de resíduos, mas que poderá atender outras aplicações vocacionais.

Os dois modelos serão as principais novidades da Sany na feira. O restante dos veículos expostos já faz parte do portfólio da empresa no Brasil. Entre eles estão o SE-588 Composite, cavalo mecânico elétrico 6×4 com 80 toneladas de CMT, um caminhão 6×4 a diesel de 560 cavalos, um caminhão leve elétrico de 6 toneladas de PBT e um basculante.

O 636 amplia a atuação da Sany em uma faixa de mercado que começa a atrair outras fabricantes chinesas e tradicionais. O modelo será posicionado para o transporte rodoviário de longa distância e chega ao mercado brasileiro em um momento de expansão da oferta de caminhões elétricos pesados.

Já o caminhão de 18 toneladas terá uma proposta mais ampla do que a configuração de coleta de resíduos sugere. Segundo Dieter, diretor da Sany no Brasil, o veículo poderá ser utilizado também como caminhão-pipa, cesto aéreo e em outras operações vocacionais. “A ideia é trabalhar com uma plataforma de uso múltiplo”, revelou.

Lançamento na Fenatran: caminhão 4×2 elétrico de 18 ton. para coleta de resíduos (Divulgação)

A Sany iniciou as vendas de caminhões no Brasil em fevereiro deste ano e licenciou 32 unidades até setembro, segundo os dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Com esse volume, a fabricante ocupa provisoriamente a terceira posição entre as marcas de caminhões elétricos, atrás da JAC, com 102 unidades e 47,22% de participação, e da Foton, com 38 unidades e 17,59%. A Sany aparece com 14,81% do mercado.

A posição, no entanto, ainda não considera as 251 unidades elétricas anunciadas pela também chinesa XCMG, cuja venda é recente e ainda não há emplacamentos. Com a inclusão desses veículos nos próximos meses, o ranking deverá sofrer uma alteração significativa.

A venda da XCMG, de 251 caminhões elétricos para uma operação de transporte de cargas do agronegócio, chegou a ser negociado anteriormente pela Sany, segundo revelou o executivo à Agência Transporte Moderno. Segundo Lommer, a fabricante participou da estruturação da operação e realizou a validação da rota, de aproximadamente 1.350 quilômetros, incluindo a definição dos pontos de recarga necessários para a operação.

A Sany, porém, acabou não concretizando o negócio, que posteriormente foi anunciado pela XCMG. O volume representa, sozinho, quase oito vezes as 32 unidades licenciadas pela Sany até setembro e mostra o potencial de crescimento das vendas de caminhões elétricos pesados no país.

Apesar de aparecer atrás de JAC e Foton no ranking geral, Lommer ressalta que o perfil dos veículos vendidos é diferente. Enquanto as duas concorrentes concentram suas vendas em caminhões leves, a Sany tem direcionado sua operação para cavalos mecânicos pesados.

Tanto é que a maior parte das 32 unidades vendidas pela Sany é formada pelo SE588 Composite, carro-chefe da marca. A fabricante também comercializa o SE-437, mas mantém o SE588 como principal produto da operação brasileira.

Entre os clientes estão a EVmob, locadora de veículos e a COFCO, gigante chinesa ligada à logística do agronegócio. A expectativa da empresa é encerrar o ano próxima de 50 caminhões elétricos vendidos no país. Como a operação comercial começou em fevereiro, 2026 representa o primeiro ano efetivo da Sany no mercado brasileiro. O executivo também revelou que está na mesa de negociação mais 50 cavalos mecânicos pesados a diesel que poderá se concretizar ainda neste ano, aumentando para 100 o número de caminhões da marca vendidos no Brasil.

Sany mira R$ 180 milhões em negócios na Fenatran

Para a Fenatran, a Sany estabeleceu uma meta de R$ 180 milhões em negócios com caminhões, segundo o executivo. Parte das vendas será atendida por unidades importadas que chegarão ao Brasil ainda neste ano, enquanto outra parcela deverá ser direcionada à montagem nacional na fábrica de Campinas.

A fabricante prevê a chegada de um lote de aproximadamente 20 a 30 caminhões importados entre novembro e dezembro. Dez unidades devem desembarcar já em novembro e, segundo Lommer, praticamente todo esse volume está em negociação. Entre os veículos estão cinco destinados à Sudate, da área de produção de madeiras e compensados, e outras unidades em negociação com a Unidas.

A Sany também pretendia aproveitar a Fenatran para vender as primeiras 100 unidades que seriam produzidas no Brasil. Porém, o cronograma de chegada dos kits de montagem, porém, adiou as primeiras entregas nacionais para o fim de fevereiro ou o início de março de 2027, conforme explicou o executivo.

Produção nacional começa pelo SE588 Composite

A Sany já realizou os primeiros testes de sua estrutura de montagem em Campinas, interior de São Paulo, e afirma ter obtido os Certificados de Adequação à Legislação de Trânsito (CATs) necessários para os veículos. Segundo Dieter, a empresa já tem condições técnicas de iniciar a produção, mas está administrando a transição entre os caminhões importados e os nacionais. “Eu já posso produzir a partir de agora”, afirmou o executivo. O início efetivo das entregas produzidas localmente, entretanto, dependerá da chegada dos kits de montagem.

O primeiro modelo a ser produzido no Brasil será o SE588 Composite. A empresa esperava iniciar as entregas em fevereiro, mas o prazo de chegada dos kits levou a uma revisão do cronograma.

A estratégia é evitar que a produção nacional concorra com o último lote de caminhões importados. A Sany ainda receberá unidades entre novembro e dezembro para atender parte das negociações geradas pela Fenatran.

O modelo SE588 Composite será o primeiro a ser produzido no Brasil (Divulgação)

Elétricos são o foco da Sany

Embora tenha caminhões a diesel no portfólio brasileiro, a estratégia da Sany está concentrada nos modelos elétricos. Segundo Dieter, a eletrificação é o principal vetor para a entrada e expansão de uma fabricante chinesa no mercado brasileiro.

A aposta ocorre apesar do cenário de juros elevados e das dificuldades de financiamento para renovação de frota. Para o executivo, justamente em um ambiente de pressão sobre os custos das empresas, o caminhão elétrico deve ser analisado também pelo impacto sobre o custo operacional.

A lógica é que o transportador precisa continuar operando mesmo em um cenário de caixa apertado e, portanto, pode buscar investimentos capazes de reduzir o custo da operação.

A Sany considera que a competição no mercado brasileiro de caminhões elétricos vai se intensificar rapidamente. Além de fabricantes que já vendem caminhões no Brasil, como JAC, Foton, XCMG e BYD, outras marcas chinesas estão preparando operações no país.

Lommer estima que pelo menos quatro novas marcas chinesas poderão começar a vender caminhões no Brasil até 2027. Entre as empresas que estruturam a entrada estão fabricantes que já anunciaram projetos industriais, enquanto outras ainda trabalham na definição de operações, produtos e rede comercial.

A avaliação do executivo é que o movimento dos chineses em caminhões deverá repetir, em alguma medida, o avanço observado no mercado de automóveis. “A diferença é que, no transporte pesado, as fabricantes ainda precisam estruturar rede, assistência, financiamento e infraestrutura para sustentar as vendas.”

Para Dieter, as empresas que chegaram primeiro ao mercado estão ajudando a abrir caminho para uma concorrência que tende a crescer. Ele prevê que a Fenatran 2028 poderá apresentar um cenário muito mais pulverizado entre marcas chinesas, semelhante ao que ocorreu no último Salão do Automóvel.

A Sany pretende se antecipar a esse movimento com a combinação de portfólio elétrico, vendas de veículos pesados e produção local. “Na Fenatran 2026, o 636 de 49 toneladas e o caminhão vocacional de 18 toneladas serão as principais demonstrações dessa estratégia”, concluiu.

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