Quanto valia a logística em 2000 — e quanto passou a valer no Brasil digital

Planilhas, contratos longos e negociação técnica marcaram o início da profissionalização da logística no país. Vinte e cinco anos depois, dados em tempo real, precificação dinâmica e integração digital redefiniram o cálculo de custos e o papel do operador logístico

Valeria Bursztein

No início dos anos 2000, falar em logística integrada ainda era, para muitas empresas brasileiras, um exercício de aprendizado. O país dava os primeiros passos rumo à terceirização estruturada das operações logísticas, enquanto operadores buscavam explicar ao mercado que logística não era apenas transporte, mas um serviço técnico, estratégico e de alto impacto sobre o negócio do cliente.

Esse movimento ficou registrado na edição 395 da Transporte Moderno, publicada em setembro/outubro de 2000, que ouviu executivos de Deicmar, Delta Records, Exata Logística, Keepers Logística, Metropolitan Logística e Ryder do Brasil para responder a uma pergunta ainda pouco transparente à época: afinal, quanto valia a logística?

Vinte e cinco anos depois, a lógica de custos mudou radicalmente. Mas muitas das bases lançadas naquele período seguem presentes — ainda que reinterpretadas à luz da tecnologia, da digitalização e da pressão por eficiência em cadeias cada vez mais complexas.

Logística como serviço técnico, não como commodity

No ano 2000, operadores logísticos insistiam em um ponto central: logística não era um produto de prateleira. Tratava-se de um serviço sob medida, cujo resultado só poderia ser avaliado após a execução. Esse entendimento explicava por que a venda logística era longa, técnica e fortemente baseada em confiança entre as partes.

As negociações podiam durar até seis meses e, mesmo após esse período, não havia garantia de fechamento. O risco comercial fazia parte do jogo. A decisão de terceirizar logística era estratégica e, muitas vezes, determinante para a continuidade do próprio negócio do cliente — especialmente em operações de matéria-prima, linhas de produção ou abastecimento do varejo.

Hoje, o discurso permanece, mas o contexto é radicalmente outro. A lógica técnica deu lugar a processos mais estruturados, baseados em dados históricos, simulações digitais e provas de conceito. A negociação continua complexa, mas ganhou velocidade com o apoio de analytics, digital twins e benchmarking setorial.

Contratos longos e a busca por previsibilidade

Em 2000, diferentemente do transporte rodoviário — marcado por informalidade e acordos verbais — a logística já se consolidava como uma atividade contratualizada. Contratos escritos, com duração mínima de um a dois anos, eram a regra. Em alguns casos, chegavam a cinco anos.

Esses contratos buscavam proteger investimentos em infraestrutura, tecnologia da informação e capacitação de equipes. Também previam revisões periódicas, reconhecendo que a operação logística é dinâmica e sujeita a mudanças de volume, mix de produtos e políticas de estoque.

Atualmente, os contratos seguem relevantes, mas incorporam novos elementos. Indicadores de desempenho evoluíram para SLAs sofisticados, metas de produtividade são acompanhadas em tempo real e cláusulas de flexibilidade passaram a refletir oscilações de demanda, sazonalidade e até eventos extremos na cadeia global.

Planilhas abertas e o nascimento do open book

No início dos anos 2000, a planilha era o coração do cálculo logístico. Recursos humanos, área de armazenagem, equipamentos, tarefas operacionais, materiais e sistemas de informação eram detalhados item a item para formar o preço do serviço.

O modelo de planilha aberta — o chamado open book — começava a ganhar espaço, especialmente entre multinacionais. Empresas brasileiras, por sua vez, ainda operavam em uma lógica mais tradicional de negociação, com margem para ajustes comerciais.

Frete e armazenagem eram os itens mais facilmente mensuráveis, cobrados por metro cúbico, posição-palete, tonelada ou período. Já os investimentos em tecnologia da informação, embora reconhecidos como essenciais, ainda eram percebidos como custos administrativos, diluídos na operação.

Hoje, o open book deixou de ser diferencial e se tornou requisito em grandes contratos. O custo logístico passou a ser calculado de forma integrada, considerando não apenas recursos físicos, mas também softwares, automação, integração de sistemas, inteligência analítica e segurança da informação.

Tecnologia: de custo necessário a ativo estratégico

Em 2000, tecnologia já era considerada vital, mas ainda vista como suporte. Sistemas de gestão de estoque e transporte precisavam ser adaptados a cada cliente, gerando custos específicos de customização e administração.

A percepção de valor, porém, estava em construção. Operadores começavam a defender que a logística deveria ser avaliada não apenas pelo preço, mas pelo que agregava ao negócio do cliente — seja em redução de estoque, aumento de nível de serviço ou confiabilidade operacional.

Duas décadas depois, essa discussão amadureceu. Tecnologia deixou de ser custo e passou a ser ativo estratégico. Plataformas em nuvem, visibilidade ponta a ponta, rastreabilidade, automação de armazéns e integração com ERPs transformaram a forma de precificar serviços e medir ganhos logísticos.

Produtividade, ganhos compartilhados e penalidades

Mesmo em 2000, já existiam contratos que previam redução gradual de preços em função de ganhos de produtividade. A lógica era clara: melhorias operacionais deveriam beneficiar ambas as partes.

Da mesma forma, penalidades por falhas críticas, como paradas de linha de produção, já estavam previstas em contratos mais maduros. A relação entre operador e cliente começava a migrar de um modelo transacional para um modelo de corresponsabilidade.

Atualmente, essa lógica se sofisticou. Modelos de gain sharing, bônus por performance e penalidades automáticas baseadas em dados são comuns. A produtividade deixou de ser estimada e passou a ser mensurada continuamente.

O custo logístico como variável estratégica

No ano 2000, falava-se em economias de até 30% com a terceirização logística, somando transporte, mão de obra e armazenagem. Havia também a defesa do transporte de carga fechada como forma de reduzir custos, além da visão sistêmica de que decisões de estoque impactavam diretamente o custo logístico total.

Essa visão permanece atual. A diferença é que, hoje, o custo logístico é tratado como variável estratégica do negócio, integrada à tomada de decisão de vendas, marketing e planejamento financeiro.

Se antes a discussão era “quanto vale a logística”, hoje a pergunta evoluiu para “quanto valor ela gera”.

Da planilha ao algoritmo

A leitura da Transporte Moderno de 2000 revela um setor em formação, buscando linguagem comum, contratos claros e reconhecimento estratégico. Muitos dos princípios defendidos à época — parceria, transparência, profissionalismo e foco em valor — resistiram ao tempo.

O que mudou foi a ferramenta. A planilha deu lugar ao algoritmo. A negociação longa ganhou apoio de dados. O custo isolado passou a ser analisado como parte de uma equação maior, que envolve eficiência, resiliência e competitividade.

A logística de 2000 ainda precisava explicar quanto valia. A de hoje já sabe — e consegue provar.

Leia reportagem completa aqui.

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