Mercedes-Benz descarta guerra de preços com chinesas no mercado de caminhões, por enquanto

Sete fabricantes chineses já comercializam caminhões no Brasil, e seis estarão na Fenatran 2026. Movimento aumenta a pressão competitiva e levanta dúvidas sobre uma disputa de preços semelhante à observada no mercado de automóveis

Aline Feltrin

A chegada de fabricantes chineses ao mercado brasileiro de caminhões levanta uma questão: o setor poderá seguir o caminho do mercado de automóveis, no qual montadoras tradicionais vêm reduzindo preços e oferecendo condições comerciais mais agressivas para competir com novos concorrentes? Recentemente, a Volkswagen reduziu em R$ 10 mil os preços de diversas versões do T-Cross. Da mesma forma, a Toyota lançou uma campanha para o Corolla Cross XRE, com desconto de R$ 19,8 mil: o modelo passou de R$ 194.790 para R$ 174.990.

Para Jefferson Ferrarez, vice-presidente de vendas e marketing da Mercedes-Benz do Brasil, ainda não há uma guerra de preços no segmento de caminhões. Embora reconheça a chegada de concorrentes com preços mais baixos, o executivo avalia que as particularidades do transporte de cargas tornam essa disputa diferente daquela observada no mercado de automóveis.

Segundo ele, reduzir preços sem considerar os demais fatores que sustentam a operação pode comprometer outros pilares importantes para os clientes, como a disponibilidade de serviços e a confiança na marca.

Na avaliação do executivo, o mercado de caminhões tem características próprias. “A escolha de um veículo comercial envolve o custo total ao longo do ciclo de operação, a confiabilidade, o valor de revenda e a capacidade de manter o caminhão disponível para trabalhar.”

A disponibilidade do veículo é especialmente importante para transportadores e empresas que precisam cumprir contratos e prazos de entrega. Uma eventual economia na compra pode perder atratividade se vier acompanhada de dificuldades de manutenção, demora na reposição de peças ou falta de suporte técnico.

Por isso, segundo Ferrarez, os clientes tendem a analisar com cuidado qualquer mudança de fornecedor. A decisão envolve não apenas o investimento na aquisição, mas também os riscos que podem afetar a operação e os compromissos assumidos com seus próprios clientes.

Pós-venda é diferencial na disputa

Nesse cenário, a estrutura de atendimento após a venda tem papel central. A capilaridade da rede de concessionários e oficinas, a disponibilidade de peças e o conhecimento das aplicações dos veículos estão entre os fatores que influenciam a escolha de uma marca. “O pós-venda com a nossa rede de serviços, a capilaridade da rede é um fortíssimo pilar”, destacou Ferrarez.

Para a Mercedes-Benz, a relação com o cliente não termina na entrega do caminhão. A assistência ao longo da vida útil do veículo contribui para reduzir o tempo parado e dar mais previsibilidade à operação, aspectos relevantes para quem depende do transporte de cargas para gerar receita.

Ferrarez reconhece que a chegada de concorrentes com preços mais agressivos pode ampliar o mercado em um primeiro momento. Isso porque alguns transportadores que planejavam substituir um caminhão usado por outro seminovo podem considerar a compra de um veículo novo caso a diferença de preço se torne mais atraente.

Esse movimento, no entanto, não significa necessariamente uma guerra de preços entre fabricantes. Na avaliação do executivo, o impacto dependerá da forma como os compradores compararão as ofertas e os custos envolvidos na operação.

O executivo também relatou que clientes têm demonstrado cautela antes de migrar para novas marcas. Para empresas de transporte, a escolha do caminhão está ligada ao histórico de operação e à confiança construída com fornecedores ao longo do tempo.

A avaliação da Mercedes-Benz é que a competição será definida por um conjunto de fatores: preço de aquisição, custo operacional, disponibilidade do caminhão, rede de serviços e confiança na marca. Para o transportador, a decisão final passa historicamente pela conta completa — e não apenas pelo desconto oferecido na compra.

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