E-commerce deve dobrar até 2036: como fica a logística?

Projeção de crescimento de 104% nas compras online amplia desafios para armazenagem, transporte e última milha; consumidores exigem entregas mais rápidas e previsíveis

Valeria Bursztein

O avanço do comércio eletrônico brasileiro na próxima década deverá exigir uma reorganização das operações logísticas, com maior capacidade de armazenagem, distribuição e entregas urbanas. A projeção de crescimento de 104% nos gastos online até 2036, mais do que o dobro do valor atual, coloca transportadoras, operadores logísticos e varejistas diante do desafio de absorver a expansão do mercado sem elevar os custos de distribuição na mesma proporção.

A estimativa faz parte do relatório Beyond Borders 2026, elaborado pelo EBANX em parceria com a World Data Lab. O estudo prevê que o consumo total dos brasileiros, considerando compras físicas e digitais, crescerá 66% no mesmo período. Com isso, a participação do comércio eletrônico nos gastos de consumo deverá passar de 11,5% para 15,2% até 2036.

A expansão será acompanhada por mudanças no perfil dos compradores. Segundo o levantamento, os consumidores acima de 65 anos deverão apresentar o maior crescimento relativo nas compras digitais, enquanto mais de 21 milhões de brasileiros deverão ingressar na classe consumidora ao longo da próxima década.

Para a logística, a combinação de maior consumo digital e diversificação do público tende a ampliar a demanda por serviços de distribuição, mas também exigirá operações capazes de atender diferentes perfis de clientes, regiões e categorias de produtos.

Exigências operacionais

A velocidade de entrega já se tornou um dos fatores de competitividade do comércio eletrônico. A décima edição do estudo The Future Shopper 2026, da VML, realizada com 28 mil consumidores em 17 países, mostra que 37% dos entrevistados esperam receber suas compras online em menos de duas horas, ante 32% na edição anterior.

O levantamento também aponta que a rapidez, isoladamente, não garante a satisfação do consumidor. O cumprimento dos prazos anunciados, a disponibilidade dos produtos e a confiabilidade das informações durante a compra ganharam importância na avaliação da experiência digital.

A tendência cria desafios distintos para cada segmento. Produtos de supermercado e farmácia, por exemplo, apresentam maior sensibilidade ao tempo de entrega, enquanto categorias como móveis e eletrodomésticos podem exigir operações mais complexas de transporte e agendamento.

Para atender a essas necessidades, os operadores logísticos precisam ajustar os níveis de serviço às características das mercadorias, à localização dos estoques e à capacidade de distribuição disponível em cada região.

Norton Canali, diretor comercial da Eu Entrego / Foto: Divulgação

Norton Canali, diretor comercial da Eu Entrego, avalia que a diferenciação estará cada vez mais associada à capacidade de cumprir o prazo informado ao consumidor. Na análise do executivo, a promessa de entrega deve considerar dados efetivos de estoque e disponibilidade logística, evitando compromissos que a operação não consiga atender.

Última milha na estrutura de custos

O crescimento do comércio eletrônico também deverá intensificar a pressão sobre a última milha, etapa responsável pelo deslocamento dos produtos até o consumidor final.

Ao contrário do transporte de grandes volumes entre centros de distribuição, a entrega urbana envolve pedidos fragmentados, múltiplos destinos e restrições de circulação. A produtividade depende de fatores como densidade de entregas, planejamento de rotas, disponibilidade de veículos e proximidade dos estoques em relação aos consumidores.

Nesse cenário, o aumento da demanda não se traduz automaticamente em maior rentabilidade para os operadores. A necessidade de oferecer fretes competitivos, entregas rápidas e alternativas de devolução pode elevar os custos, especialmente em regiões com menor concentração de pedidos.

Canali defende que a expansão seja acompanhada por maior flexibilidade operacional, com redes de distribuição capazes de absorver oscilações de demanda sem exigir o mesmo nível de estrutura fixa durante todo o ano.

O desafio ganha ainda mais relevância em períodos de forte movimentação, como a Black Friday, quando o aumento dos pedidos exige reforço temporário da capacidade de separação, expedição e transporte.

A adoção de pontos de retirada, armários inteligentes e entregas programadas também pode contribuir para organizar os fluxos urbanos, embora a viabilidade dessas soluções dependa do perfil dos consumidores e da concentração geográfica das encomendas.

Preço e previsibilidade

A preocupação com o orçamento das famílias acrescenta outra variável à operação logística. No estudo da VML, 72% dos consumidores pesquisados afirmam que o preço passou a ter maior peso nas decisões de compra.

O resultado reforça a necessidade de equilibrar o custo do frete com o nível de serviço oferecido. Entregas expressas podem representar um diferencial competitivo, mas nem todos os consumidores estão dispostos a pagar mais pela redução do prazo.

A pesquisa também mostra que os marketplaces continuam sendo referência em conveniência, facilidade de compra e serviços associados à entrega. Para varejistas que operam canais próprios, competir nesse ambiente exige maior integração entre estoque, plataformas digitais e transportadores.

A experiência posterior à compra também passou a influenciar a percepção do consumidor. Informações de rastreamento, comunicação sobre atrasos e procedimentos de devolução são elementos que dependem diretamente da organização logística.

A consequência é que o desempenho da distribuição deixa de ser avaliado apenas pelo custo do transporte e passa a incluir indicadores como pontualidade, taxa de entregas concluídas na primeira tentativa e facilidade de resolução de ocorrências.

IA começa a mudar as compras

Outra transformação identificada pela VML é o avanço da inteligência artificial na jornada de consumo. Segundo o levantamento, 82% dos entrevistados já utilizaram ferramentas de IA, enquanto 50% prefeririam informar suas necessidades a um sistema capaz de apresentar opções, comparar preços e permitir a compra em um único ambiente.

A utilização de agentes de inteligência artificial para realizar compras ainda está em estágio inicial, com maior potencial em categorias de consumo recorrente, como alimentos e produtos domésticos.

Para a logística, essa mudança amplia a importância da qualidade das informações disponíveis nas plataformas de venda. Estoques, prazos e custos de entrega precisam estar atualizados para que os sistemas possam comparar ofertas de maneira adequada.

A integração entre plataformas comerciais, sistemas de gestão de armazéns e transportadores tende a ganhar relevância à medida que decisões de compra passem a considerar automaticamente o custo total e o prazo de recebimento.

Investimentos em capacidade

Embora o aumento projetado de 104% nos gastos online indique uma expansão significativa do mercado, esse percentual não corresponde necessariamente ao crescimento do número de encomendas. A quantidade de pedidos dependerá da evolução do tíquete médio, da frequência de compras e da participação de diferentes categorias no comércio eletrônico.

Ainda assim, a tendência aponta para a necessidade de ampliar a eficiência da infraestrutura logística, especialmente nas operações de armazenagem, separação de pedidos, transporte fracionado e distribuição urbana.

O avanço do comércio digital deverá exigir maior integração entre os elos da cadeia de abastecimento, com investimentos em tecnologia, automação e planejamento da capacidade de entrega.

Para transportadoras e operadores logísticos, o desafio até 2036 será acompanhar a expansão do mercado sem comprometer margens, qualidade do serviço e previsibilidade operacional. O crescimento das vendas poderá ampliar as oportunidades de negócios, mas a capacidade de transformar esse movimento em ganhos de produtividade será decisiva para a competitividade do setor.

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