Brasil utiliza apenas 49% da malha hidroviária prevista

Estudo da CNT aponta entraves à expansão do transporte fluvial, que movimentou 91,3 milhões de toneladas em 2025, e propõe agenda de investimentos até 2046

Valeria Bursztein

O Brasil utiliza economicamente apenas 49% da extensão de vias navegáveis interiores prevista no Plano Nacional de Viação (PNV) para o transporte de cargas. O diagnóstico consta do Estudo sobre Regulação e Governança da Navegação Interior Brasileira, elaborado pela Pezco Economics por iniciativa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e divulgado esta semana.

Segundo o estudo, dos 41,7 mil quilômetros contemplados no planejamento federal, 20,4 mil quilômetros são efetivamente aproveitados. A diferença evidencia as limitações de infraestrutura, manutenção e planejamento que ainda restringem a participação das hidrovias na logística nacional. Outra evidência identificada pelo levantamento é que a fragmentação da governança, a insegurança regulatória e as dificuldades de financiamento comprometem a expansão do modal.

Apesar desses entraves, o transporte hidroviário de cargas registrou crescimento expressivo em 2025. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) apresentados no estudo, a navegação interior movimentou 91,3 milhões de toneladas, alta de 19,7% em relação a 2024. Quando considerada também a parcela da cabotagem realizada em vias interiores, o volume alcançou aproximadamente 116 milhões de toneladas.

O avanço destaca a importância dos rios para o escoamento de mercadorias, especialmente de granéis agrícolas e minerais. Entretanto, evidencia também que ampliar a utilização das hidrovias exige investimentos que assegurem condições regulares de navegação e integração com os demais modais de transporte.

Secas expõem vulnerabilidade das operações

Um dos principais desafios identificados pela CNT é garantir previsibilidade às operações. As variações do nível dos rios, associadas às limitações de infraestrutura, podem reduzir a capacidade das embarcações, aumentar o tempo de viagem e elevar os custos dos fretes.

As secas registradas na Amazônia em 2023 e 2024 ilustram esses impactos. Segundo o levantamento, aproximadamente 90% das embarcações no Amazonas enfrentaram restrições de navegação durante o período.

No corredor entre Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM), importante rota de escoamento de cargas, o tempo de viagem aumentou de oito para 20 dias. A capacidade de transporte foi reduzida em 60%, enquanto os custos dos fretes subiram até 150%.

As consequências também atingiram o abastecimento regional. Em 23 municípios amazonenses, o fornecimento de combustíveis ficou comprometido pelas interrupções no transporte fluvial.

Os números mostram como a perda de navegabilidade afeta não apenas os operadores hidroviários, mas toda a cadeia logística. A redução do volume transportado por viagem exige reprogramação de embarques, amplia os custos operacionais e pode comprometer o cumprimento dos contratos de transporte.

Planejamento hidroviário até 2046

Para enfrentar os gargalos, o estudo apresenta uma agenda de recomendações de curto, médio e longo prazos, com horizonte estratégico até 2046. As propostas estão organizadas em seis eixos: visão estratégica das hidrovias, governança e segurança regulatória, infraestrutura, mão de obra e capacitação, segurança e financiamento.

Entre as medidas defendidas estão a criação de uma instância nacional de coordenação da política hidroviária, a elaboração de um Plano Setorial Hidroviário e o fortalecimento das ações de dragagem e manutenção das vias navegáveis.

O documento também recomenda assegurar a continuidade do Programa de Operação e Manutenção de Eclusas (Proeclusas), além de estabelecer mecanismos de financiamento que garantam recursos para intervenções permanentes.

Outro ponto é o planejamento integrado por corredores logísticos. Segundo o estudo, a definição dos investimentos deve considerar a demanda de cargas, as condições de navegação, a disponibilidade de terminais, os acessos rodoviários e ferroviários e os custos de implantação e manutenção.

Para o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, o aproveitamento da malha hidroviária depende de uma política de longo prazo. “O país tem um potencial hidroviário expressivo, mas aproveitar essa capacidade exige planejamento, infraestrutura adequada e segurança regulatória. Avançar nesses pontos é imprescindível para integrar melhor o sistema de transporte, ampliar a eficiência logística e contribuir para a competitividade da economia brasileira”, afirma.

Antaq atualiza regras para navegação interior

A discussão sobre a expansão das hidrovias ocorre em meio a mudanças no ambiente regulatório. Em agosto de 2026, a Antaq publicou seis resoluções que reorganizam as regras para a navegação interior, incluindo autorizações, afretamento de embarcações e acordos operacionais entre empresas.

Uma das novidades é a regulamentação do compartilhamento de equipamentos e espaços entre transportadores, permitindo operações como cessão de barcaças com carga e formação conjunta de comboios. A medida busca ampliar a eficiência operacional e reduzir custos.

As novas normas, que substituem 11 regulamentações anteriores, entrarão em vigor em 13 de fevereiro de 2027.

Embora representem uma atualização das regras de operação, as mudanças regulatórias não eliminam a necessidade de investimentos físicos nas hidrovias. A disponibilidade de calado, a manutenção das eclusas e a existência de terminais adequados continuam sendo fatores determinantes para a ampliação do transporte.

Expansão exige viabilidade econômica

A diferença entre os 41,7 mil quilômetros previstos no Plano Nacional de Viação e os 20,4 mil quilômetros efetivamente utilizados não significa que toda a extensão restante possa ser incorporada imediatamente ao transporte comercial.

A viabilidade depende de características físicas dos rios, sazonalidade, demanda de cargas e disponibilidade de infraestrutura de apoio. Em determinados corredores, a ampliação da navegação poderá exigir investimentos elevados em dragagem, sinalização, terminais e conexões terrestres.

Por isso, o estudo recomenda que as hidrovias sejam avaliadas em conjunto com as alternativas rodoviárias e ferroviárias, considerando as características e os custos de cada rota logística.

O levantamento também aborda o transporte de passageiros, responsável pela movimentação de 21,2 milhões de pessoas por ano. Em 49 municípios, a navegação interior responde pela totalidade dos deslocamentos considerados na pesquisa. Para esse segmento, a CNT recomenda melhorias na infraestrutura, regularização gradual dos operadores e fortalecimento da segurança operacional.

A agenda apresentada pela entidade estabelece recomendações, mas não representa um cronograma de obras contratadas. Sua implementação dependerá da articulação entre governo, órgãos reguladores e iniciativa privada, além da disponibilidade de recursos.

Para o transporte de cargas, o resultado dessas medidas será medido principalmente pela capacidade de manter os corredores hidroviários operacionais, reduzir interrupções e oferecer maior previsibilidade aos embarcadores. É essa condição que poderá ampliar a participação dos rios na matriz logística brasileira.

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