A entrada de fabricantes chineses no mercado brasileiro de caminhões deverá levar a Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) a adotar uma postura mais ativa a partir de 2027. Depois de acompanhar a rápida expansão das marcas chinesas no segmento de automóveis, o presidente da entidade, Igor Calvet, afirmou que será necessário monitorar de forma mais próxima a chegada dos novos concorrentes aos veículos pesados, com atenção especial às condições de importação, regimes de montagem e eventuais benefícios tributários.
A mudança de postura foi sinalizada pelo presidente da Anfavea, Igor Calvet, durante encontro com jornalistas. Segundo ele, a entidade não defende o fechamento do mercado brasileiro à concorrência, mas considera necessário garantir condições equivalentes entre fabricantes nacionais e importadores.
“Uma das coisas que a gente nunca pensou na Anfavea foi em fechar o mercado. Todos nós somos favoráveis à competição”, afirmou Calvet. O executivo, porém, destacou a necessidade de observar a chamada simetria competitiva.
Na prática, isso significa verificar se os produtos importados estão submetidos às mesmas condições competitivas enfrentadas pelas fabricantes instaladas no Brasil. Entre os pontos citados estão tarifas de importação, regimes de produção CKD e SKD, benefícios fiscais e fiscalização sobre os componentes que entram no país.
“Seja por taxa de subsídios, seja por benefícios que estão no governo, por ex-tarifário, por outras tantas coisas, falta de fiscalização, acaba entrando produto no Brasil que não compete de igual para igual”, disse.
A preocupação ganha relevância diante da quantidade de novas marcas chinesas que começam a mirar o mercado brasileiro de caminhões. Segundo Calvet, a Fenatran, maior feira de transporte de cargas da América Latina, que será realizada em novembro, já mostrou esse movimento. Seis marcas chinesas estarão presentes no evento, mas outras empresas ainda poderão chegar ao país.
Para a Anfavea, o avanço dos chineses ocorre em um momento particularmente desafiador para o mercado de caminhões. A entidade revisou as projeções e epera retração de 6,5% nas vendas de caminhões e ônibus em 2026, puxada sobtetudo pelo mercado de caminhões, enquanto o setor enfrenta juros elevados e dificuldades de financiamento. No primeiro semestre, os emplacamentos de caminhões caíram 10,5% na comparação anual. Isso cria uma combinação que pode aumentar a pressão sobre as fabricantes tradicionais: um mercado menor sendo disputado por um número maior de marcas.
A preocupação da Anfavea não se limita ao mercado brasileiro. O avanço das marcas chinesas em outros países da América Latina também começa a afetar a indústria instalada no Brasil, que depende desses mercados para sustentar parte de sua produção. A presidente da entidade citou Argentina, Colômbia, Chile, Peru e Equador entre os mercados que merecem atenção. A Argentina é especialmente relevante para a indústria brasileira, mas vem reduzindo as compras de veículos produzidos no Brasil ao mesmo tempo em que aumenta a presença de modelos chineses.
Aprendizado com os automóveis
A estratégia para os caminhões também reflete uma mudança de abordagem da Anfavea diante do avanço chinês no setor automotivo.
Nos automóveis, a presença chinesa cresceu rapidamente. No primeiro semestre de 2026, metade dos 280,6 mil veículos importados emplacados no Brasil tinha origem chinesa. Em apenas um ano, o volume de veículos chineses enviados ao país dobrou, passando de 70 mil para 140 mil unidades.
Em agosto, a China já representava 54,2% dos veículos importados comercializados no Brasil, segundo dados divulgados pela Anfavea. A entidade passou a defender com mais intensidade a recomposição das condições de competição, inclusive em relação às regras para importação de veículos desmontados. Em junho, a Anfavea chegou a ameaçar recorrer à Justiça caso fossem renovados benefícios considerados favoráveis à importação de veículos eletrificados em regimes CKD e SKD.
Agora, a preocupação se desloca também para os veículos pesados. A ideia, segundo Calvet, não é impedir a entrada dos chineses, mas acompanhar como essa entrada ocorre e se as empresas concorrem em condições equivalentes às fabricantes que produzem no país. “É uma abordagem muito mais ativa de fiscalização e compliance para a entrada de produtos importados no país”, afirmou.
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