Preço do diesel: transportadores relatam alta abusiva mesmo sem reajuste nas refinarias

Em grupo com mais de 1 mil integrantes há relatos de aumentos sucessivos nas bombas e limitação de abastecimento

Aline Feltrin

Transportadoras de diferentes regiões do Brasil têm relatado aumentos considerados abusivos no preço do diesel em postos de combustíveis, além de restrições na venda do produto. As denúncias surgem em meio a um cenário de tensão no setor de transporte rodoviário de cargas — responsável pela maior parte da movimentação logística do país — e ocorrem mesmo sem reajustes recentes nas refinarias da Petrobras.

A Agência Transporte Moderno teve acesso a um grupo de aplicativo de mensagens com mais de 1 mil participantes, formado majoritariamente por transportadores, no qual profissionais relatam aumentos sucessivos no preço do diesel nas bombas, dificuldades para negociar fretes e até limitação de volume para abastecimento em alguns postos.

Entre os relatos compartilhados estão casos de três aumentos no preço do diesel em apenas nove dias. Em um posto da rede Brasil Petro, em Ilha Solteira (SP), o litro foi citado a R$ 6,43, enquanto em Alambari (SP) o valor chegou a R$ 6,55. Já em Presidente Venceslau (SP), transportadores relataram preço de R$ 7,24.

Em comunicado que circulou entre os integrantes do grupo, o posto São Caetano II, na Bahia, informou que repassará um aumento de R$ 0,84 no preço do diesel a partir de hoje. Há também registros de aumentos expressivos na compra direta com distribuidoras. Segundo transportadores que participam das discussões, o reajuste chegou a cerca de 15% em São Paulo e a 25% em Goiás.

Além da alta nos preços, alguns profissionais afirmam enfrentar dificuldade para encontrar diesel em determinadas rotas logísticas. Um dos relatos menciona falta de diesel S10 em postos da rodovia Fernão Dias, uma das principais ligações entre São Paulo e Minas Gerais.

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Pressão do cenário internacional

A pressão recente sobre o mercado de diesel também está ligada ao cenário geopolítico no Oriente Médio. A escalada das tensões na região, com risco de interrupções no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo e derivados, elevou a volatilidade dos preços internacionais do combustível.

O corredor marítimo liga o Golfo Pérsico ao oceano Índico e concentra grande parte do fluxo mundial de petróleo. Qualquer restrição à passagem tende a impactar rapidamente os preços internacionais de petróleo e derivados.

O Brasil é sensível a esse movimento porque ainda depende de importações para complementar o abastecimento de diesel. Mesmo sendo grande produtor de petróleo, o país não refina volume suficiente para atender toda a demanda doméstica pelo combustível, o que obriga distribuidoras e importadores a recorrerem ao mercado internacional.

Apesar da pressão global, até o momento não houve reajuste oficial do diesel nas refinarias da Petrobras.

Antecipação de compras

Para executivos do setor de transporte, o comportamento do mercado já mostra sinais de preocupação. A diretor de operações da transportadora TransJordano, Joyce Bessa, afirmou à Agência Transporte que muitos transportadores passaram a antecipar compras de diesel diante da incerteza sobre a oferta e o preço do combustível.

Segundo ela, as distribuidoras têm reagido limitando os volumes vendidos para evitar ruptura no abastecimento. “Está acontecendo um movimento parecido com o que vimos na pandemia com o álcool em gel. Se um cliente quer comprar 100 mil litros e outro quer comprar 40 mil, a distribuidora divide o volume para que todos consigam comprar um pouco”, disse.

De acordo com Bessa, a estratégia busca evitar que alguns clientes concentrem grandes volumes e deixem outros sem acesso ao combustível.

“É uma forma de manter todo mundo abastecido e continuar faturando, porque ainda não se sabe qual será a extensão dessa crise ou quanto tempo essa volatilidade vai durar.”

Fretes pressionados

Outro ponto de preocupação entre transportadores em trocas de mensagens é a dificuldade de repassar o aumento do diesel para o valor dos fretes. Segundo relatos compartilhados no grupo, o mercado de transporte não tem conseguido absorver os reajustes nas bombas, o que faz com que o custo adicional recaia diretamente sobre as transportadoras.

Há também queixas de que alguns embarcadores chegaram a reduzir o valor pago por tonelada transportada, mesmo diante da escalada do combustível. Os transportadores afirmam que essa combinação pode pressionar ainda mais as margens operacionais das empresas de transporte, que já operam com rentabilidade apertada.

Embarcadores preocupados

As trocas de mensagens mostra ainda que alguns embarcadores começaram a procurar transportadoras para entender os impactos do aumento do diesel sobre a operação logística. Segundo relatos, há preocupação com o risco de interrupção da cadeia logística caso a escalada dos custos se prolongue.

Transportadores afirmam, no entanto, que a continuidade das operações depende de maior alinhamento entre as partes. “O setor de transporte já trabalha com margens muito apertadas. Um aumento tão expressivo no diesel impacta diretamente a viabilidade das operações”, afirmou um dos participantes das discussões.

Entidades pedem investigação

Diante da situação, a Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava) enviou um ofício ao governo federal solicitando uma reunião emergencial para discutir medidas relacionadas à alta do diesel. No documento, a entidade afirma que há indícios de retenção de vendas por parte de distribuidoras e alerta para possíveis práticas abusivas que estariam elevando artificialmente os preços do combustível.

A associação também pediu a abertura de investigação sobre a formação de preços do diesel e solicitou medidas temporárias para reduzir os custos do transporte, como a suspensão de tributos federais e discussões com estados sobre o ICMS.

Além disso, a entidade protocolou representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) pedindo apuração sobre a alta considerada indevida nos preços do diesel praticados por postos e distribuidoras.

No transporte rodoviário de cargas, o diesel representa entre 35% e 45% do custo operacional das transportadoras, o que torna o setor particularmente sensível a oscilações no preço do combustível.

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