Preço do diesel volta a subir no Brasil com conflito no Oriente Médio

Com petróleo em alta, preço do diesel sobe nos postos e volta a pressionar custos do transporte e do frete

Aline Feltrin

O preço do diesel no Brasil voltou a subir nos postos na primeira semana de março, em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e à alta do petróleo no mercado internacional.

Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizado entre os dias 1º e 6 de março, mostra que o diesel S10 passou de R$ 6,09 para R$ 6,15 por litro, alta de seis centavos ou cerca de 1%.

A gasolina também registrou aumento no período, passando de R$ 6,28 para R$ 6,30 por litro. Já o etanol teve leve queda, recuando de R$ 4,63 para R$ 4,61 por litro. Desde janeiro não havia aumento nos preços médios da gasolina e do diesel nos postos.

O movimento ocorre em um momento de maior volatilidade no mercado global de energia. O preço do barril de petróleo ultrapassou US$ 90, atingindo o maior nível desde 2023, em meio ao agravamento do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Analistas de mercado afirmam que uma escalada mais forte do petróleo, especialmente se o barril ultrapassar US$ 100, pode pressionar ainda mais os combustíveis no Brasil.

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A alta recente está ligada principalmente à valorização do petróleo no mercado internacional. O Oriente Médio concentra parte importante da produção global e das rotas de exportação de petróleo, o que torna a região sensível para os preços da commodity.

Quando há aumento de tensões geopolíticas, o mercado tende a reagir com maior volatilidade nas cotações do petróleo, o que pode afetar o valor de combustíveis em diferentes países, inclusive no Brasil.

Para o transporte rodoviário de cargas, a evolução do preço do diesel é especialmente relevante, já que o combustível representa uma das maiores despesas da operação logística.

Segundo Vinícios Fernandes, diretor-geral da Edenred Repom, dados mais recentes do Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL), referentes a fevereiro, ainda não indicavam impacto direto das tensões geopolíticas mais recentes no valor do diesel no país.

No período, o diesel comum registrou queda de 0,16%, enquanto o diesel S-10 recuou 0,32%.

“Mesmo com pequenas variações para baixo, o diesel permanece em patamares elevados, o que continua pressionando o transporte rodoviário de cargas”, afirmou Fernandes.

Segundo ele, em episódios de choque no petróleo, o impacto no valor do frete costuma aparecer algumas semanas depois, já que transportadores precisam renegociar contratos para recompor o aumento de custos.

Alta pode chegar ao frete?

Indicadores da Edenred mostram que o mercado de fretes iniciou 2026 com tendência de alta.

O Índice de Frete Rodoviário (IFR) registrou aumento de 2,28% no valor médio por quilômetro rodado em janeiro, na comparação com dezembro.

Esse movimento também é influenciado pelo início do escoamento da safra agrícola, que eleva a demanda por transporte nas rotas entre o Centro-Oeste e os portos.

Segundo Fernandes, além do preço do diesel, fatores como disponibilidade de caminhões, nível de demanda por transporte e condições logísticas também influenciam a formação do frete.

Diesel importado

O avanço das tensões internacionais também reacendeu o debate sobre a dependência brasileira de diesel importado. Dados da ANP indicam que as importações representaram, em média, cerca de 26% da oferta interna de diesel em 2024, chegando a 28% em alguns meses.

Para a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), a situação reforça a necessidade de ampliar a participação de biocombustíveis na matriz energética. Segundo Jerônimo Goergen, presidente da entidade, elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel — atualmente em B15 — poderia reduzir a exposição do país às oscilações do petróleo e do câmbio.

“Cada ponto percentual adicional de biodiesel diminui a necessidade de importação de diesel fóssil, fortalece a produção nacional e reduz a vulnerabilidade do país a crises internacionais”, afirmou. A associação defende a adoção do B16 ainda em 2026 e afirma ter apresentado ao Ministério de Minas e Energia uma proposta de trabalho para viabilizar a mudança, com foco na qualidade do combustível e na previsibilidade regulatória.

Na avaliação da entidade, ampliar a mistura também permitiria aproveitar melhor a capacidade instalada da indústria nacional de biodiesel, além de gerar empregos e renda no país.

Mercado internacional

De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), os preços domésticos seguem abaixo da paridade internacional.

A entidade estima que o diesel vendido no Brasil está cerca de 64% defasado em relação ao valor externo, enquanto a gasolina apresenta defasagem de 27%.

A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) afirmou ter recebido relatos de aumento nos preços praticados por distribuidoras, possivelmente em razão da alta do petróleo e do custo de importação.

Segundo a entidade, os postos de combustíveis representam o último elo da cadeia de comercialização e compram derivados exclusivamente das distribuidoras, sem acesso direto a refinarias ou importadores.

Atualmente, a Petrobras responde por cerca de 70% do abastecimento de combustíveis no país. Ainda assim, aproximadamente 30% do diesel e 10% da gasolina consumidos no Brasil são importados, o que mantém os preços domésticos sensíveis às oscilações internacionais do petróleo.

A Fecombustíveis ressalta ainda que o mercado é livre e competitivo, cabendo a cada empresa decidir se repassa ou não eventuais aumentos de custos ao consumidor final.

Historicamente, crises geopolíticas envolvendo grandes produtores de petróleo provocam oscilações nos preços dos combustíveis em todo o mundo. No Brasil, o diesel tem impacto direto na inflação e no custo da logística, já que cerca de 65% das cargas movimentadas no país dependem do transporte rodoviário.

Por isso, oscilações no preço do combustível costumam repercutir em toda a cadeia produtiva, do agronegócio à indústria.

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