A escalada do conflito no Oriente Médio ainda não provocou impactos diretos relevantes nas operações dos terminais portuários brasileiros. No entanto, o setor já observa sinais de pressão logística que podem se intensificar nas próximas semanas, segundo avaliação de Jesualdo Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), compartilhada com a Agência Transporte Moderno.
De acordo com o executivo, as consequências imediatas ainda são limitadas, mas o cenário já aponta para um aumento dos custos do transporte marítimo. “Impactos diretos aos terminais ainda são poucos ou quase nenhum, mas já sabemos o que tende a ocorrer. O aumento do risco na região eleva o custo dos seguros marítimos e isso acaba sendo repassado diretamente ao frete”, afirma.
Segundo ele, algumas seguradoras já elevaram as taxas entre 50% e 100% para navios que passam por áreas próximas ao conflito. Além disso, o receio de ataques a embarcações tem levado armadores a alterar rotas tradicionais do comércio internacional.
Uma das alternativas adotadas por companhias marítimas é contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança em vez de utilizar o Canal de Suez, rota estratégica que conecta o Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Segundo Silva, esse desvio pode adicionar entre 10 e 14 dias ao tempo de viagem, elevando o consumo de combustível marítimo — conhecido como bunker — e pressionando ainda mais os custos logísticos.
“Quando o navio precisa fazer esse desvio, o consumo de combustível aumenta e o frete necessariamente sobe. É um efeito em cadeia”, explica.
Embora os impactos ainda sejam pontuais, alguns segmentos do comércio exterior brasileiro já começam a perceber dificuldades logísticas. Entre os mais sensíveis estão a importação de fertilizantes e as exportações de proteína animal destinadas ao Oriente Médio.
Segundo o presidente da ABTP, cerca de 20% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm daquela região, o que pode gerar impactos caso as rotas continuem comprometidas. No caso das proteínas, algumas cargas têm buscado rotas alternativas para chegar ao destino final.
“Em alguns casos, a carga chega a terminais na Europa e depois segue por caminhão até o destino final. Isso aumenta o custo e também o risco para os exportadores”, afirma.
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Vai faltar contêiner?
Outro ponto de atenção é a disponibilidade global de contêineres. Silva afirma que cerca de 10% da frota mundial desse tipo de embarcação está parada ou operando com restrições na região próxima ao Estreito de Ormuz e ao Mar Vermelho, o que pode provocar desequilíbrios na oferta de equipamentos para transporte de carga.
Segundo ele, o mercado de contêineres é extremamente sensível a interrupções logísticas. Situações semelhantes ocorreram durante a pandemia e no episódio de bloqueio do Canal de Suez, quando a disponibilidade global de contêineres foi afetada. “Se uma parte relevante da frota fica parada ou precisa mudar de rota, começa a faltar equipamento em outras regiões”, diz.
Caso o conflito se prolongue, os impactos podem se intensificar nas próximas semanas. “Se essa situação continuar, os reflexos mais fortes devem aparecer em um ou dois meses”, afirma.
No caso dos terminais brasileiros, os primeiros efeitos devem surgir nas operações ligadas ao comércio com o Oriente Médio, especialmente no transporte de contêineres. Ainda assim, o executivo ressalta que o aumento dos custos logísticos tende a atingir toda a cadeia portuária.
“Indiretamente todos acabam sendo impactados, porque o frete sobe, o bunker sobe e o seguro também. Em maior ou menor grau, todos os terminais acabam sentindo”, afirma.
Diante das incertezas, a ABTP mantém diálogo permanente com operadores portuários e usuários dos terminais para acompanhar possíveis gargalos operacionais. Segundo Silva, um dos riscos é o acúmulo de cargas que não conseguem embarcar no ritmo esperado, pressionando a capacidade de armazenagem.
“O que não consegue ser exportado acaba pressionando a cadeia para trás. Os terminais têm espaço limitado e muitas vezes é preciso recorrer a armazéns externos”, explica.
Velhos desafios
Além das tensões geopolíticas, o presidente da ABTP afirma que o setor portuário brasileiro ainda enfrenta desafios estruturais importantes, principalmente relacionados à infraestrutura logística e ao ambiente regulatório. Segundo ele, o fato de mais de 60% da carga movimentada no país ainda depende do transporte rodoviário, o que aumenta custos e limita a eficiência logística em longas distâncias.
Nesse contexto, o setor acompanha a tramitação do Projeto de Lei 733, em discussão na Câmara dos Deputados, que busca modernizar o marco regulatório portuário. Segundo Silva, a proposta pode ampliar prazos contratuais, dar mais segurança jurídica aos investimentos e permitir maior flexibilidade para expansão de infraestrutura dentro dos terminais.
“O setor precisa de regras que permitam investimentos de longo prazo e mais agilidade para ampliar infraestrutura e adotar novas tecnologias”, afirma.
O relatório do projeto, segundo ele, deve ser apresentado ainda em março pelo deputado Arthur Maia. Se aprovado, o texto poderá abrir espaço para novos investimentos e ganhos de produtividade nos portos brasileiros.
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