Rhenus acelera expansão no Brasil com foco no trade Ásia–Brasil

Grupo alemão avança na rota China–Brasil, amplia atuação no marítimo e lidera corredor aéreo Miami–Vitória com foco em eletrônicos e cargas de alto valor

Valeria Bursztein

A Rhenus Logistics estabeleceu como meta global movimentar 1 milhão de TEUs até 2028 e tem acelerado sua expansão no Brasil como parte dessa estratégia. Em 2025, o grupo movimentou cerca de 300 mil TEUs globalmente, enquanto a operação brasileira somou aproximadamente 25 mil TEUs, segundo Bruna Ventura, Managing Director da Rhenus Logistics no Brasil.

A executiva diz que a América Latina ganhou peso para o grupo em 2025, tanto em faturamento quanto em volume, e deve seguir no radar da companhia por meio de aquisições e integração de operações. No Brasil, a empresa afirma que pretende encerrar 2026 entre os dez maiores players do setor e alcançar o Top 5 até 2027, apoiada no avanço no trade Ásia–Brasil e na ampliação da operação aérea voltada a cargas de alto valor.

Fundado em 1912, o Rhenus Group atua em mais de 70 países, com cerca de 41 mil funcionários e mais de 1.300 escritórios. O grupo registra faturamento anual em torno de € 8,2 bilhões. No Brasil, a empresa opera serviços de transporte multimodal, armazenagem, despacho aduaneiro e gerenciamento de supply chain.

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Crescimento no marítimo

Segundo Bruna Ventura, a expansão da companhia no trade Ásia–Brasil foi sustentada por uma combinação de aquisições e reforço do produto marítimo. Um dos marcos foi a compra da Blu Logistics (operação na Colômbia) em 2023, que fortaleceu a atuação regional e trouxe ao grupo um escritório em Hong Kong.

“A compra da Blu Colômbia nos trouxe uma fortaleza de produto marítimo da Ásia. Junto com essa aquisição veio o escritório de Hong Kong, o que nos permitiu abrir bastante esse mercado. Um ponto positivo foi que não tivemos sobreposição de clientes porque a operação brasileira estava voltada para um business de Europa”, diz.

A executiva afirma que a operação brasileira também passou por reestruturação interna, com criação de uma área dedicada ao desenvolvimento de produto e maior interlocução com armadores.

“No Brasil crescemos e criamos um departamento de produto para ser um interlocutor com os armadores e com os fornecedores logísticos e assim sermos mais competitivos na América Latina. A questão do freight forwarder é muito direcionada por trade lane, então a estratégia tem que ser muito bem desenhada para investir”, afirma.

Ásia concentra volume e faturamento

A Rhenus afirma que o trade Ásia–Brasil se tornou o principal eixo da companhia no país, sustentado pelo crescimento estrutural das importações brasileiras originadas do continente asiático.

“Mais de 50% das importações do Brasil são oriundas da Ásia. Então, para crescer, temos que estar nesse trade e o produto marítimo com certeza é estratégico. Para nós é o nosso primeiro mercado, em volume e faturamento”, diz Bruna.

Segundo ela, a operação brasileira tem perfil predominantemente importador: cerca de 85% do volume está concentrado em importações. No marítimo, a Ásia ocupa a primeira posição, seguida pela Europa. No modal aéreo, o principal trade é o dos Estados Unidos, seguido pela Ásia, com maior peso de cargas eletrônicas.

Painéis solares e têxtil

Para ganhar escala e aumentar poder de negociação com armadores, a empresa segmentou sua carteira na rota Ásia–Brasil, priorizando setores com maior potencial de volume.

“Quando falamos de Ásia, segmentamos também a carteira, focando em painéis solares e têxtil, porque oferecem volume. Nossa estratégia é aumentar a nossa força de negociação com os armadores e para isso é preciso ter volume”, afirma Bruna.

A executiva acrescenta que a empresa tem buscado reduzir a exposição à volatilidade do mercado marítimo com contratos de longo prazo.

“Temos contratos de longo prazo, com compromisso de volume por navio, que nos garantem prioridade de embarque, o que é muito interessante para manter sempre um nível de serviço, mesmo em momentos que se tornem um pouco mais complexos”, diz.

Liderança na rota Miami–Vitória

No modal aéreo, a empresa afirma que consolidou liderança na rota Miami–Vitória e ocupa a segunda posição no corredor Miami–Florianópolis, com especialização em cargas eletrônicas e de infraestrutura tecnológica.

“A Rhenus controla cerca de 70% do volume de Cisco, gigante do setor de tecnologia, que é importado para o Brasil”, afirma Bruna.

Segundo ela, a operação foi desenhada para oferecer rastreabilidade desde a origem, com controle do prazo de entrega e planejamento de coleta junto aos fornecedores internacionais.

“Um diferencial nosso é conseguir mapear desde o início da compra do nosso cliente dentro do fornecedor dele o lead time de entrega, que nos permite fazer a coleta dentro de uma janela adequada, com a entrega no nosso armazém em Miami”, diz.

Incentivos fiscais e menor risco

A executiva afirma que a escolha por rotas como Vitória e Florianópolis está associada a benefícios fiscais e gestão de risco em cargas sensíveis, como eletrônicos. Segundo ela, o risco de roubo e extravio é mais elevado em rotas tradicionais como Guarulhos.

“Temos clientes que trabalham com benefícios fiscais, então direcionamos para os aeroportos de Espírito Santo e Santa Catarina. Poderíamos operar por São Paulo, mas são cargas de eletrônicos e a sinistralidade é mais alta dentro de Guarulhos”, afirma.

A empresa ainda não opera entrega final no Brasil, mas avalia que essa expansão pode ocorrer no futuro. “O last mile a gente ainda não está trabalhando no Brasil. Na Europa é muito forte. Talvez isso venha pro Brasil”, diz Bruna.

Miami Gateway conecta EUA e da Ásia

A operação aérea é apoiada pelo Miami Gateway, estrutura de consolidação e armazenagem instalada em uma free trade zone próxima ao aeroporto. Segundo a empresa, o modelo permite internalizar cargas e registrar informações no nível de ordem de compra, oferecendo visibilidade ao cliente e flexibilidade para programar embarques.

“É como se fosse um estoque do cliente dentro do nosso sistema”, afirma Bruna.

A estrutura tem 15 mil metros quadrados, 10 mil posições pallet e 60 docas, localizada a cerca de um quilômetro do aeroporto de Miami. Além das cargas coletadas nos Estados Unidos, o hub integra fluxos originados em mercados asiáticos, como Hong Kong e Taipei, antes da consolidação final para o Brasil.

Verticalização pressiona mercado

Questionada sobre a tendência de verticalização de armadores e tentativas de reduzir a intermediação de freight forwarders, Bruna Ventura afirma que a empresa acompanha o movimento, mas avalia que o mercado brasileiro ainda exige operadores especializados.

“Avalio que o cliente médio e os clientes de mercados muito específicos, com muitos pontos, como é o mercado brasileiro, fica um pouco mais difícil você tirar o prestador de serviço da cadeia”, afirma.

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