A morte de Constantino Júnior, aos 57 anos, na última sexta-feira (24), encerra a trajetória de um dos executivos que mais influenciaram o transporte aéreo no Brasil nas últimas décadas. Fundador e ex-CEO da GOL Linhas Aéreas, ele foi o responsável por introduzir no País o modelo de aviação de baixo custo, que redesenhou a estrutura operacional do setor e ampliou de forma inédita o acesso da população ao modal aéreo.
À frente da companhia desde sua criação, em 2001, Constantino conduziu uma mudança que extrapolou o universo das companhias aéreas. Ao adaptar ao mercado brasileiro o conceito de “low cost, low fare”, ele alterou padrões de eficiência, precificação e gestão que passaram a influenciar também outros segmentos do transporte e da logística.
Segundo estatísticas da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) referentes a novembro de 2025, a GOL detinha cerca de 32,6% do market share no mercado doméstico brasileiro em termos de participação de oferta e demanda, ficando na segunda posição, atrás da LATAM Airlines Brasil e à frente da Azul.
Pelas estatísticas históricas e reportes anuais, a GOL acumula cerca de 640 milhões de passageiros transportados desde 2001. Na carga, a GOLLOG ultrapassou 1,2 milhão de toneladas até 2019 e somou mais 231,6 mil toneladas em 2023–2024, com crescimento em 2025.
A ruptura com o modelo tradicional
Quando a GOL iniciou operações, a aviação brasileira ainda era marcada por estruturas complexas, frota diversificada e custos elevados. A estratégia liderada por Constantino seguiu caminho oposto: frota padronizada de Boeing 737, alta utilização das aeronaves, rotas ponto a ponto e forte controle de despesas operacionais.
O baixo custo, nesse contexto, não se restringia à tarifa. Tratava-se de um modelo de eficiência, sustentado por escala, produtividade e padronização, que permitia reduzir custos estruturais sem comprometer a operação. Essa lógica pressionou concorrentes a reverem seus próprios modelos e inaugurou um novo ciclo competitivo no setor aéreo brasileiro.
Aviação mais próxima do transporte de massa
O impacto mais visível dessa estratégia foi a ampliação do acesso ao transporte aéreo. Ao longo dos anos 2000, milhões de brasileiros passaram a voar pela primeira vez, impulsionando o crescimento da demanda doméstica e fortalecendo a integração regional.
Este número indica a expansão da demanda que, em grande parte, se sustenta na lógica de tarifas mais competitivas introduzidas originalmente por modelos de baixo custo como o da GOL.
A aviação deixou de ser um serviço restrito a determinados segmentos de renda para assumir papel mais próximo ao de um transporte de massa, especialmente em um país de dimensões continentais e infraestrutura rodoviária desigual. Esse movimento teve reflexos diretos sobre cadeias produtivas, turismo, comércio e serviços, reforçando a aviação como elo relevante da logística nacional.
Gestão, dados e escala como pilares
Outra marca da gestão de Constantino Jr. foi a adoção de uma administração fortemente orientada por dados. Planejamento de frota, ocupação, precificação dinâmica e controle rigoroso de indicadores operacionais tornaram-se elementos centrais da estratégia da GOL.
Essa abordagem foi decisiva para sustentar o crescimento da companhia em um ambiente desafiador, marcado por volatilidade cambial, custos elevados de combustível e limitações de infraestrutura. A aposta em escala e eficiência operacional ajudou a consolidar a empresa como uma das maiores do País e estabeleceu parâmetros que passaram a ser referência no setor.
Controvérsias e momentos críticos
A carreira de Constantino Jr. à frente da GOL Linhas Aéreas não esteve imune a crises, disputas e decisões que geraram forte questionamento público. Parte dessas controvérsias acompanhou, inclusive, o próprio amadurecimento do setor aéreo brasileiro.
Um dos episódios mais sensíveis ocorreu no contexto da Operação Lava Jato. Em 2017, Constantino Jr. firmou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal, no qual relatou pagamentos ilegais a políticos no período de expansão da GOL e de negociações envolvendo o setor aéreo. O acordo resultou em penalidades financeiras e no encerramento de processos, sem condenação criminal posterior. À época, o executivo deixou o comando do conselho da companhia, retornando anos depois.
Outro ponto frequentemente citado por analistas foi a aquisição da Varig, em 2007. Embora tenha consolidado a GOL como um dos maiores grupos aéreos do país, a operação também herdou passivos, conflitos trabalhistas e disputas judiciais que se estenderam por anos e se tornaram um dos capítulos mais complexos da reestruturação do setor no Brasil.
Críticas à gestão e ao modelo de expansão
A estratégia agressiva de crescimento da GOL, especialmente nos anos 2000, também foi alvo de críticas recorrentes. Especialistas apontaram que a busca por escala e eficiência máxima expôs a companhia a riscos elevados em momentos de choque externo, como crises cambiais, alta do combustível e retrações abruptas da demanda.
Nos ciclos mais recentes de crise do setor aéreo — incluindo a pandemia e os processos de reestruturação financeira posteriores — decisões tomadas ao longo da trajetória da empresa voltaram ao debate, sobretudo em relação ao nível de alavancagem e à dependência do mercado doméstico.
Um legado que convive com contradições
Apesar desses episódios, o histórico de Constantino Jr. costuma ser analisado pelo mercado de forma ambivalente. As controvérsias não anulam seu papel central na transformação da aviação brasileira, mas ajudam a explicar por que sua trajetória é vista como marcada por inovação, risco elevado e decisões duras, típicas de um setor altamente regulado, intensivo em capital e estruturalmente volátil.
Constantino Jr. deixa um legado que combina ruptura e conflito, eficiência e controvérsia — um retrato fiel dos desafios enfrentados por quem tentou reinventar a aviação em um país complexo como o Brasil.
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