O caminhão elétrico já apresenta vantagens econômicas em determinadas condições de operação, principalmente quando a análise considera não apenas o preço de compra, mas todos os custos envolvidos ao longo da vida útil do veículo. No Brasil, porém, a expansão da tecnologia ainda esbarra em barreiras como o investimento inicial elevado, a infraestrutura de recarga insuficiente e a falta de políticas públicas capazes de dar previsibilidade ao mercado.
Essa é uma das principais conclusões do relatório Powering Brazil’s Transition to Zero-Emission Trucking, elaborado pelo Instituto Ar. O estudo aponta que a maior eficiência energética dos veículos elétricos, combinada a despesas menores com manutenção e energia, pode reduzir o custo total de propriedade (TCO, na sigla em inglês) em comparação com caminhões a diesel.
Segundo o levantamento, os motores elétricos convertem entre 70% e 90% da energia armazenada nas baterias em movimento. Nos motores a combustão interna, esse aproveitamento fica entre 30% e 40%. A diferença de eficiência, somada aos custos operacionais menores, favorece a competitividade econômica dos modelos elétricos ao longo do tempo.
O relatório reúne referências de estudos realizados na Europa, nos Estados Unidos e na China, que identificam vantagens de TCO (custo total da operação, em português) para caminhões elétricos. O documento, no entanto, não apresenta uma demonstração de paridade econômica válida para todas as operações brasileiras. A competitividade depende de fatores como perfil de uso, quilometragem, custo da eletricidade, preço do diesel, valor de aquisição e condições de financiamento.
O Instituto Ar integra a articulação em torno da iniciativa Gigantes Elétricos, movimento internacional que busca acelerar a eletrificação do transporte rodoviário de cargas e mobilizar fabricantes e outros agentes do setor. O relatório faz parte desse esforço de identificar oportunidades e obstáculos para a adoção de caminhões de emissão zero no Brasil.
Preço de compra ainda é uma barreira
Apesar da perspectiva de redução dos custos ao longo da operação, o preço de aquisição continua sendo um dos principais entraves. De acordo com o relatório, caminhões elétricos podem custar de 50% a 70% mais do que modelos a diesel equivalentes.
A diferença exige maior capacidade de investimento das transportadoras e pode dificultar a renovação de frotas, especialmente entre empresas menores. O estudo aponta a necessidade de instrumentos financeiros, como linhas de crédito com condições diferenciadas, incentivos fiscais e mecanismos de apoio à aquisição dos veículos.
Outro obstáculo é a infraestrutura de recarga. A ausência de uma rede ampla e confiável, sobretudo em rodovias e corredores de transporte de cargas, limita a operação dos caminhões elétricos em trajetos de longa distância. Para o relatório, a expansão da tecnologia depende da instalação de pontos de recarga em locais estratégicos e da integração entre transportadoras, fabricantes, operadores de energia e poder público.
Falta de previsibilidade regulatória
O documento também destaca a ausência de uma política nacional consistente para orientar a transição dos caminhões a diesel para modelos de emissão zero. Sem metas de longo prazo e regras claras, fabricantes e operadores têm menos segurança para planejar investimentos em veículos, baterias e infraestrutura.
O estudo defende a adoção de metas para ampliar a participação de caminhões de emissão zero nas vendas de veículos novos até 2040, além de medidas para estimular a infraestrutura de recarga em corredores logísticos, como as rodovias BR-116 e BR-101.
A manutenção de incentivos ao diesel também aparece como um fator que reduz a atratividade da eletrificação. O relatório propõe rever gradualmente esses mecanismos e ampliar instrumentos de incentivo à tecnologia de emissão zero, incluindo crédito preferencial e precificação de carbono.
Participação ainda é pequena
A presença dos caminhões de emissão zero no mercado brasileiro ainda é incipiente. O relatório cita dados segundo os quais esses veículos representaram apenas 0,2% das vendas de caminhões pesados novos no país em 2021.
As projeções apresentadas pelo estudo mostram como o ritmo de adoção pode variar conforme as políticas públicas. Em um cenário de manutenção das medidas atuais, a participação dos veículos de emissão zero nas vendas de caminhões novos chegaria a 18% em 2050. Com medidas mais fortes, alcançaria 37%. Já em um cenário de apoio regulatório ambicioso, poderia atingir 100%.
Além do preço, da recarga e da regulação, o relatório aponta outros pontos que precisam avançar: desenvolvimento da produção local de baterias, investimento em pesquisa e desenvolvimento, capacitação de motoristas e técnicos de manutenção e parcerias para ampliar a infraestrutura energética.
A conclusão do relatório é que a viabilidade econômica dos caminhões elétricos não depende apenas da evolução dos veículos. Embora a tecnologia apresente potencial para reduzir o custo total de propriedade, sua adoção em escala no Brasil exige condições de financiamento, infraestrutura e segurança regulatória que permitam às transportadoras transformar a vantagem operacional em decisão de investimento.
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