A indústria brasileira de pneus enfrenta uma combinação de perda de mercado, avanço das importações e pressão sobre as margens. Na Dunlop, marca da japonesa Sumitomo Rubber, o reflexo já aparece nos estoques, que atingiram o maior nível da história da operação brasileira. A fabricante mantém a linha de pneus de carga em capacidade máxima, de 2.200 unidades por dia, mas encontra dificuldades para escoar a produção diante da concorrência dos produtos importados, principalmente os chineses.
O cenário contrasta com a expansão industrial realizada pela companhia nos últimos anos. Desde o início das operações no Brasil, em 2013, a Sumitomo ampliou sua estrutura de uma unidade de produção para seis. O último ciclo de investimentos, de aproximadamente R$ 1,1 bilhão, foi concluído em dezembro de 2024 e contemplou a ampliação das operações de pneus de passeio e de carga. Menos de dois anos depois, porém, a empresa enfrenta um mercado que não absorve a produção no ritmo esperado.
“Eu não vou dizer que o mercado não está comprando, mas está comprando bem menos, é efeito chinês”, afirmou Fabio Torres Klabacher, gerente nacional de vendas e marketing da Dunlop Pneus, à imprensa especializada, durante visita à fábrica localizada em Fazenda Rio Grande, região Metropolitana de Curitiba (PR). Segundo ele, a companhia registra aumento recorde dos estoques e redução das vendas em relação ao ano passado, mas não divulga percentuais nem projeções de fechamento para 2026.
Os números do setor ajudam a dimensionar a pressão competitiva. Entre janeiro e agosto de 2026, as importações brasileiras de pneus cresceram 58,3%, para 34,2 milhões de unidades, enquanto as vendas das fabricantes instaladas no país para reposição recuaram 13,3%, para 14,6 milhões, segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP). Os importados passaram a representar 70% do mercado de reposição, ante 34% em 2019.
No segmento de carga, a mudança é ainda mais expressiva. As importações avançaram 116,2% nos oito primeiros meses do ano, enquanto as vendas nacionais para reposição caíram 9,8%, para 2,75 milhões de unidades. Com isso, os produtos estrangeiros alcançaram 72% desse mercado. A China respondeu por aproximadamente 2,64 milhões de pneus de carga importados no período, alta de 78% na comparação anual.
A pressão sobre os preços também alterou a estratégia comercial da Dunlop. Torres considera ilusória a possibilidade de preservar as margens nas atuais condições de concorrência. Em vez de tentar sustentar a rentabilidade anterior, a empresa procura manter a carteira de clientes, ampliar a proximidade com o mercado e identificar segmentos nos quais possa oferecer produtos com diferenciais técnicos.
“Manter margem é algo ilusório. Não dá para manter margem. O que a gente vem fazendo é tentar manter os clientes, fidelizar, se aproximar e abrir novos mercados”, diz o executivo. A estratégia inclui ampliar o portfólio, com desenvolvimento de produtos para nichos específicos, além de buscar maior aderência às necessidades dos consumidores.



Além do preço
A companhia não pretende, entretanto, entrar em uma disputa baseada exclusivamente no menor preço. Entre as frentes de desenvolvimento estão a redução da resistência ao rolamento, o aumento da quilometragem e a durabilidade dos pneus. A avaliação é que a diferenciação tecnológica precisa estar acompanhada de uma proposta comercial compatível com o que o consumidor está disposto a pagar.
“Não adianta querer entregar um pneu premium com preço premium se o consumidor não está disposto a pagar. Tem gente que paga, mas ainda é um nicho. Temos uma fábrica que coloca milhares de pneus por dia no mercado. Precisamos trabalhar com o mercado”, afirma Torres.
A necessidade de preservar a utilização das unidades industriais também está relacionada à estrutura de custos. Na avaliação do executivo, reduzir a produção para acompanhar a desaceleração das vendas teria consequências sobre o custo fixo e poderia desencadear uma nova pressão sobre os preços. Por isso, a empresa procura alternativas para aumentar o giro dos estoques antes de considerar uma redução mais ampla da atividade.
Na unidade de pneus de passeio, a ociosidade já é mais evidente. Das quatro máquinas incorporadas na expansão mais recente, três estão paradas, segundo Torres. A situação é diferente da linha de carga, que continua operando com capacidade máxima, embora também enfrente dificuldades para escoar os produtos. O executivo afirma que a companhia procura evitar cortes de produção e de pessoal, tanto pelos efeitos sociais quanto pelo impacto econômico de uma operação menos eficiente.
A expansão da fábrica ocorreu em etapas. A operação brasileira começou em 2013 com uma unidade produtiva e passou por três ciclos de ampliação, até chegar às seis unidades atuais. O último aporte, encerrado no fim de 2024, foi direcionado principalmente ao aumento de capacidade. Torres diferencia esses investimentos de projetos menores de pesquisa e desenvolvimento, que envolvem adaptações de máquinas e melhorias técnicas nos produtos.
Por enquanto, não há um novo ciclo de expansão iniciado ou um orçamento aprovado para investimentos adicionais. A empresa precisa primeiro estabilizar a operação e recuperar condições de mercado que sustentem novos aportes. A prioridade é avançar em eficiência, desempenho e desenvolvimento de produtos sem necessariamente ampliar a capacidade instalada.
O programa Move Brasil, lançado pelo governo federal para estimular a renovação da frota de caminhões, também não produziu um impacto expressivo nas vendas da fabricante. Torres afirma que a empresa não identificou um aumento de volume que possa ser atribuído diretamente ao programa. A linha de carga permanece em capacidade máxima, mas a operação continua pressionada pelo aumento dos estoques e pela redução das margens.
Lojas contêineres
Uma das respostas comerciais foi ampliar os canais de atendimento aos transportadores. A Dunlop mantém uma rede de aproximadamente 55 lojas contêineres distribuídas pelas diferentes regiões do país, instaladas principalmente em postos de combustíveis e pontos estratégicos das rotas rodoviárias.
O modelo foi desenvolvido durante a pandemia, quando as restrições de circulação dificultavam o atendimento aos caminhoneiros. As unidades comercializam pneus, mas não realizam serviços de manutenção. A instalação e outros serviços são feitos por borracharias e prestadores locais próximos aos pontos de venda, o que permite à fabricante ampliar a distribuição sem concorrer diretamente com os estabelecimentos já existentes.
A estrutura também reduz a necessidade de capital de giro dos pequenos prestadores, que nem sempre conseguem manter estoques de pneus novos. A Dunlop fornece o produto, enquanto o serviço permanece com o parceiro local. Para a companhia, a estratégia amplia a capilaridade comercial e aproxima a marca dos caminhoneiros durante as viagens.
Produção dedicada ao Brasil
As exportações representam uma parcela pequena dos negócios brasileiros e têm como principais destinos países da América Latina, do México para baixo. A maior parte da produção é destinada ao mercado doméstico, o que aumenta a exposição da operação às condições de concorrência no Brasil.
Para a Fenatran, maior feira de transporte de cargas da América Latina, que será realizada de 9 a 13 de novembro, em São Paulo, a expectativa é gerar negócios, embora a fabricante não tenha previsto lançamentos de produtos. A empresa pretende participar de painéis e apresentações voltados ao segmento de carga, inclusive com convidados internacionais. Torres considera a feira um ambiente comercial e espera repetir o resultado da edição de 2024, mas afirma que a companhia já desenvolve ações de vendas antes do evento, sem depender da feira para movimentar os pedidos.
Para 2027, a perspectiva ainda é de um mercado desafiador. Sem anunciar metas de vendas ou novos investimentos, a Dunlop pretende concentrar esforços na recuperação do giro dos estoques, na fidelização de clientes e na busca de oportunidades comerciais que permitam sustentar a estrutura industrial construída no país.
A jornalista viajou a convite da Dunlop.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



