“Se não tivermos redução em 2027, já é uma vitória”, diz presidente da Cummins Brasil

Adriano Rishi prevê produzir 40 mil motores em 2026, alta de 10%, mas vê 2027 com cautela

Valeria Bursztein

A Cummins prevê encerrar 2026 com a produção de aproximadamente 40 mil motores no Brasil, crescimento de 10% em relação ao ano passado, impulsionado em parte pelas exportações. Para 2027, porém, a fabricante trabalha com uma perspectiva mais cautelosa.

Em encontro com a imprensa em São Paulo, Adriano Rishi, presidente da Cummins Brasil e diretor-geral da unidade de motores, considera que manter o volume atual já representaria um resultado positivo diante das incertezas do mercado de veículos comerciais. “Se for igual, está bom. A gente sempre tem o objetivo de crescimento, mas, se não tiver redução, já é uma vitória”, afirmou o executivo, em entrevista concedida durante a apresentação das novidades da companhia para a Fenatran 2026, que será realizada de 9 a 13 de novembro, no São Paulo Expo.

A avaliação reflete a dificuldade de projetar a demanda por caminhões em um ambiente de crédito restrito, maior concorrência e mudanças na cadeia de fornecedores. Rishi evita antecipar uma recuperação em 2027 e afirma que a companhia acompanha tanto os indicadores domésticos quanto a conjuntura internacional. “Ano que vem, as nossas projeções são de um ano difícil. A gente está olhando com cautela, não com apreensão, mas com atenção”, disse.

O executivo também relativiza o peso das eleições sobre o desempenho do setor. Para ele, o resultado eleitoral poderá provocar reações no mercado, mas as decisões de investimento continuarão condicionadas a fatores estruturais, como a reforma tributária, as políticas industriais, a concorrência e o ambiente macroeconômico brasileiro e internacional. “Vai além de resultado de eleições”, resumiu.

Exportações ajudam a sustentar produção

As vendas externas ganharam importância na operação brasileira da Cummins em 2026. Segundo Rishi, aproximadamente 15% dos motores produzidos no país são destinados à exportação, principalmente para mercados como Estados Unidos, México e Canadá.

A empresa também exporta componentes, incluindo blocos e cabeçotes, destinados a outras unidades da companhia. A participação das vendas externas varia conforme a linha de produto e, em determinados segmentos de componentes, a maior parte da produção é direcionada ao exterior.

Embora tenha confirmado o crescimento das exportações em relação a 2025, Rishi não apresentou um percentual que pudesse ser estabelecido com segurança a partir da entrevista. O executivo destacou, entretanto, que o desempenho externo contribuiu para a expansão prevista na produção de motores neste ano.

A estratégia não representa apenas uma alternativa às oscilações da demanda brasileira. Segundo o presidente da Cummins, a operação nacional integra uma rede global de manufatura, na qual a distribuição dos volumes entre as fábricas busca equilibrar capacidade produtiva, competitividade e segurança de abastecimento. “É parte da nossa estratégia ter uma rede de cadeia de suprimentos. Com todas essas questões geopolíticas, a gente precisa ter essa segurança”, explicou.

A reorganização das operações também permite à companhia reagir a alterações nas regras comerciais. Rishi afirmou que as tarifas impostas pelos Estados Unidos afetaram as exportações brasileiras no fim de 2025. Os embarques foram posteriormente retomados, mas a experiência evidenciou a necessidade de maior flexibilidade na utilização das unidades industriais. “Impactou no final do ano passado. A gente reduziu exportações e voltou a ter exportações”, relatou.

Para o executivo, manter a rede industrial balanceada é uma forma de evitar que mudanças repentinas na demanda ou nas condições comerciais comprometam a capacidade de atendimento. A integração entre fábricas de diferentes países permite ajustar os fluxos de produção, embora não elimine os efeitos das barreiras comerciais.

R$ 70 milhões anuais em investimentos

Apesar das perspectivas moderadas para 2027, a Cummins pretende manter investimentos anuais da ordem de R$ 70 milhões no Brasil. Os recursos são destinados à atualização de processos produtivos, ao desenvolvimento tecnológico e à melhoria da competitividade industrial.

Rishi afirmou que o planejamento de investimentos não pode acompanhar diretamente as oscilações anuais do mercado de caminhões. Na avaliação do executivo, os ciclos de crescimento e retração estão mais rápidos, enquanto os projetos industriais exigem continuidade para produzir resultados. “Seguimos com os investimentos porque sabemos que não é sobre o ciclo. É sobre o plano de longo prazo”, afirmou.

O risco de interromper os investimentos durante períodos de demanda mais fraca, segundo ele, é comprometer a capacidade de reação da empresa quando o mercado voltar a crescer. A continuidade dos projetos também é necessária para acompanhar as mudanças tecnológicas e a pressão competitiva exercida pelos fabricantes de veículos e componentes.

A companhia mantém cinco unidades industriais no Brasil, localizadas em Guarulhos, Osasco, Barueri, Caxias do Sul e Resende. A estrutura reúne atividades de fabricação de motores, componentes e sistemas destinados a diferentes aplicações.

A presença industrial é complementada por centros de desenvolvimento e validação de produtos. Segundo a Cummins, a engenharia brasileira realizou mais de 20 mil testes nos últimos cinco anos, com avaliações de desempenho em condições extremas de temperatura e altitude. A empresa também informou ter destinado R$ 35 milhões, no mesmo período, à infraestrutura de laboratórios no país.

Rishi defende que a proximidade entre engenharia, produção e clientes permite reduzir o tempo de resposta às necessidades dos fabricantes instalados no Brasil. A estratégia também busca diminuir a dependência de cadeias de suprimentos mais longas e facilitar a adaptação de produtos globais às condições locais.

Oportunidades com fabricantes chinesas

A chegada de novas fabricantes chinesas ao mercado brasileiro de caminhões também entrou no planejamento da Cummins. A companhia mantém parcerias industriais na China e vê oportunidades de ampliar o relacionamento com marcas que estão estruturando operações no Brasil.

Em entrevista, Rishi confirmou que a empresa mantém conversas tanto com fabricantes que já utilizam motores Cummins quanto com companhias que ainda não adotam seus produtos.

“A gente tem conversas com todos os fabricantes que utilizam os motores e também aqueles que não utilizam os motores da Cummins”, afirmou.

O movimento pode ampliar as oportunidades de fornecimento da empresa em um mercado que passa a reunir mais competidores. Para a Cummins, a experiência acumulada no Brasil e a estrutura local de engenharia, produção e pós-venda são diferenciais nas negociações com fabricantes que precisam adaptar veículos às exigências nacionais.

“Sim, estamos abertos a parcerias. É difícil sobreviver, se sustentar nesse mercado, sem parcerias”, disse.

Rishi ressaltou que os acordos não precisam se limitar à compra e venda de motores. Podem envolver troca de conhecimento, desenvolvimento conjunto, produção e integração das operações industriais. “Tem que ser ganha-ganha. É muito menos transacional; é muito menos compra e venda”, afirmou.

O executivo também confirmou conversas com a Foton, fabricante chinesa com a qual a Cummins mantém uma parceria global. Segundo ele, existe interesse em ampliar o relacionamento no Brasil, inclusive com possibilidades de fornecimento local, mas ainda não há um acordo adicional pronto para divulgação.

A produção nacional é considerada relevante tanto para reduzir custos logísticos quanto para assegurar disponibilidade de peças e atendimento aos veículos em operação.

Rishi observou que um produto desenvolvido para a China não necessariamente pode ser introduzido no Brasil sem adaptações. Diferenças de aplicação, condições de uso e exigências regulatórias demandam processos locais de engenharia e validação.

A estratégia comercial da Cummins, portanto, não depende apenas da ampliação da carteira de clientes. A fabricante busca participar de diferentes etapas do desenvolvimento dos veículos, desde a definição das especificações até a assistência técnica durante a vida útil do produto.

Produção nacional de motores a gás está em estudo

A Cummins também avalia a possibilidade de produzir motores a gás natural e biometano no Brasil, mas condiciona a decisão à evolução da demanda. Atualmente, esses motores ainda não são fabricados localmente. A companhia está ampliando sua estrutura técnica em Guarulhos, com a implantação de duas salas de ensaio destinadas ao desenvolvimento e à validação das tecnologias.

“Estamos estudando agora a produção local, a depender da demanda”, revelou Rishi.

A decisão dependerá da formação de um mercado com volume suficiente para justificar a nacionalização. O executivo considera que a utilização de motores a gás deverá avançar inicialmente em operações específicas, nas quais exista infraestrutura de abastecimento e condições econômicas favoráveis.

A coleta urbana de resíduos está entre as aplicações com maior potencial, especialmente quando há disponibilidade de biometano produzido em aterros sanitários. A menor emissão de ruído também favorece a utilização desses veículos em áreas urbanas. “Acho que os motores a gás vão continuar com adoção por nichos”, afirmou.

Embora a Cummins já tenha centenas de motores a gás em circulação no mercado brasileiro, Rishi não considera provável uma substituição generalizada do diesel no curto prazo. Para ele, a disponibilidade do combustível, a infraestrutura de distribuição e a viabilidade econômica continuarão determinando o ritmo de adoção.

A companhia também acompanha o aumento da participação do biodiesel na mistura com o diesel convencional. Seus motores já contam com aprovação para utilização de B20, enquanto misturas superiores permanecem em avaliação.

Rishi demonstrou cautela em relação à adoção do B100 em larga escala. A Cummins possui experiências com esse combustível em aplicações específicas, incluindo geradores instalados em regiões remotas, mas o executivo considera que custos e condições operacionais limitam sua utilização mais ampla.

Na avaliação do presidente da Cummins Brasil, a ampliação gradual da mistura com o diesel convencional constitui um caminho mais viável para o mercado, desde que acompanhada de cuidados com armazenamento, manutenção e qualidade do combustível.

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