Maersk abastece navio com 5 mil toneladas de bioetanol

Operação em Singapura testa a viabilidade do combustível no transporte marítimo e amplia as alternativas ao diesel marítimo convencional

Valeria Bursztein

A Maersk realizou em Singapura o abastecimento de aproximadamente 5 mil toneladas de bioetanol no porta-contêineres Maersk Halifax, em uma operação anunciada como a maior do mundo envolvendo etanol para uso marítimo.

O procedimento ocorreu simultaneamente à movimentação de cargas no terminal e marca uma nova etapa nos testes da companhia com combustíveis alternativos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte marítimo.

O Maersk Halifax é o primeiro navio da companhia adaptado para operar com propulsão dual fuel, sistema que permite utilizar dois tipos de combustível. A embarcação passou a integrar o programa de testes da armadora com etanol, ampliando as possibilidades de utilização de combustíveis líquidos de menor intensidade de carbono em navios existentes, sem depender exclusivamente da construção de novas embarcações.

Realizada em parceria com a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA) e outras empresas, a operação utilizou bioetanol com certificação ISCC, sistema internacional de rastreabilidade e sustentabilidade de matérias-primas e combustíveis. A certificação, entretanto, não significa emissões nulas: a redução efetiva depende da origem da biomassa, do processo produtivo e das emissões ao longo da cadeia de suprimentos.

Alternativas para a navegação

O interesse pelo etanol está relacionado à existência de uma cadeia de produção e distribuição já estabelecida em diferentes mercados, incluindo o Brasil, um dos maiores produtores mundiais do combustível. Essa infraestrutura pode favorecer sua utilização no transporte marítimo, embora a adoção em larga escala ainda dependa de adaptações técnicas, disponibilidade de produto certificado e condições comerciais competitivas.

Para os armadores, uma das questões centrais é a possibilidade de aproveitar combustíveis de menor intensidade de carbono em embarcações existentes. Entretanto, a conversão de motores, os sistemas de armazenamento e abastecimento e a compatibilidade dos equipamentos são fatores que precisam ser considerados antes da expansão comercial da tecnologia.

O etanol também apresenta menor densidade energética por volume do que os combustíveis marítimos convencionais. Isso significa que os navios precisam armazenar volumes maiores para obter autonomia equivalente, uma condição que influencia o planejamento das viagens e a capacidade dos tanques.

Abastecimento simultâneo à movimentação de contêineres

A operação foi realizada em 17 de outubro, no terminal Pasir Panjang, administrado pela PSA Singapore. O combustível foi transferido do navio-tanque químico Golden Centaurus, da fornecedora Golden Island, para o Maersk Halifax, enquanto as atividades de carga e descarga de contêineres prosseguiam.

Segundo a MPA, trata-se do maior volume de etanol transferido em uma única operação de abastecimento marítimo no mundo. O procedimento utilizou medidores de vazão mássica para controlar a quantidade de combustível fornecida.

O teste também servirá para avaliar a adaptação dos protocolos de abastecimento de metanol já utilizados em Singapura ao fornecimento de etanol. A autoridade portuária pretende aproveitar os resultados para aperfeiçoar procedimentos técnicos e de segurança, incluindo treinamento das tripulações, resposta a emergências e operações simultâneas nos terminais.

Estratégia multicombustível

A experiência integra uma série de testes conduzidos pela Maersk com etanol. Em 2026, a companhia já havia realizado avaliações nos navios Laura Maersk, Antonia Maersk e Tangier Maersk, equipados com motores de combustível duplo.

“A transição energética exige que exploremos e ampliemos soluções capazes de gerar impacto real. Na Maersk, seguimos com uma estratégia multicombustível porque reconhecemos que nenhum caminho de combustível pode descarbonizar sozinho o transporte marítimo global”, afirma Emma Mazhari, diretora de Mercados de Energia da companhia.

A diversificação coincide com um momento de incerteza regulatória para o setor. Segundo reportagem da Reuters publicada em 16 de outubro, a demanda dos embarcadores por combustíveis marítimos de menor intensidade de carbono perdeu força em 2026, diante das indefinições sobre o marco regulatório de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO). Em Singapura, as vendas de biocombustíveis marítimos recuaram 47% entre janeiro e setembro, na comparação anual.

Nesse contexto, o abastecimento do Maersk Halifax representa um avanço operacional, mas não significa que o etanol esteja pronto para utilização generalizada na navegação comercial. A escala de fornecimento, os custos, a disponibilidade de combustível certificado e a adaptação dos navios ainda serão determinantes para sua competitividade.

Para países produtores, como o Brasil, a eventual expansão do etanol marítimo poderá abrir uma nova frente de demanda.

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