Escala 5×2 pressiona transporte a reduzir esperas nas entregas

José Panzan defende revisão das operações com embarcadores, redução das esperas e negociação para adaptar equipes à nova jornada

Aline Feltrin

A adoção da escala 5×2 exigirá das transportadoras uma revisão das operações com seus clientes para reduzir o tempo perdido em cargas, descargas e entregas. A avaliação é de José Panzan, diretor da Nacirema Transportes, para quem a dificuldade de contratar motoristas limita a possibilidade de ampliar as equipes para atender à nova organização do trabalho.

Em entrevista ao videocast da Agência Transporte Moderno, o empresário afirmou que o setor já enfrenta escassez de profissionais e dificuldades para atrair novos trabalhadores. Nesse cenário, a contratação de mais motoristas pode elevar os custos sem necessariamente resolver a necessidade de pessoal.

“Vamos ter que buscar uma alternativa. E a única alternativa é aumentarmos a nossa produtividade”, afirmou. “Não dá para o caminhão andar mais depressa na estrada, na rua. Vamos ter que conversar com os nossos clientes.”

Panzan, que também é vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região (Sindicamp) e diretor da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp), defende que essa discussão seja conduzida operação por operação. O objetivo é identificar onde a demora compromete o aproveitamento dos veículos e da jornada dos profissionais.

A PEC 221/2019, aprovada pelo Senado em dois turnos em 14 de outubro, assegura dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial. O texto prevê jornada máxima de 42 horas semanais após dois meses da promulgação e de 40 horas ao fim de mais um ano.

Contratação não resolve todas as operações

Para Panzan, os efeitos da mudança variam conforme o serviço prestado. Entregas urbanas, viagens rodoviárias e abastecimento de plantas industriais apresentam exigências distintas, que precisam orientar o dimensionamento das equipes.

Ele cita operações industriais que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. Nesses contratos, a cobertura das jornadas exige profissionais integrados à rotina da empresa, com preparação para as particularidades do serviço.

O empresário afirma que plataformas digitais de contratação de motoristas ajudam a atenuar pontualmente a falta de mão de obra. Ressalta, porém, que o recurso não significa redução de custos e que a rotatividade traz dificuldades para manter padrões de atendimento e capacitação.

“Como vamos conseguir manter a cultura da empresa?”, questionou. Segundo ele, mesmo dentro de uma transportadora, diferentes operações exigem profissionais com habilidades específicas.

Panzan não apresentou estimativas de aumento de custos ou do número de contratações necessárias. Defendeu, entretanto, que a reorganização seja acompanhada de análise do equilíbrio econômico-financeiro de cada operação.

Mudança se soma à revisão da Lei do Motorista

A adaptação à escala 5×2 ocorre depois das mudanças decorrentes do julgamento da Lei do Motorista pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2023, o STF invalidou dispositivos que excluíam da jornada o tempo de espera por carga, descarga e fiscalização da mercadoria, além de regras sobre fracionamento dos descansos. A decisão relacionou a proteção ao repouso à saúde dos profissionais e à segurança rodoviária.

Segundo Panzan, o julgamento exigiu alterações importantes na organização das viagens. Ele avalia que boa parte das transportadoras já se adequou, mas ressalta que a mudança afetou o perfil das operações.

Na visão do empresário, a implementação de novas regras precisa considerar situações como a do motorista que chega ao limite da jornada quando está próximo de casa e precisa interromper a viagem para cumprir o descanso obrigatório. Ele também aponta a insuficiência de locais adequados para essas paradas.

Panzan defende maior espaço para negociar a organização da jornada. Segundo ele, há trabalhadores interessados em trabalhar mais e outros que preferem trabalhar menos, e essas diferenças deveriam ser consideradas. O empresário não detalhou quais ajustes propõe nem como seriam compatibilizados com os limites de jornada e os períodos obrigatórios de descanso.

O texto aprovado pela Câmara prevê regimes diferenciados para atividades como o transporte, com possibilidade de compensação por acordo ou convenção coletiva para assegurar, na média, dois dias de repouso semanal remunerado dentro do mês. Essa previsão não representa dispensa geral das novas regras para o setor.

Panzan cobra participação do setor

O empresário também critica a condução do debate. Em sua avaliação, faltaram tempo e participação dos envolvidos para discutir os efeitos da mudança sobre as operações.

Panzan afirma que a preocupação das transportadoras com a adaptação não significa oposição ao bem-estar dos funcionários ou à ampliação do convívio familiar. Seu questionamento se concentra nas condições para implementar as novas exigências. “Nós, empresários de transporte, em momento algum, somos contra o bem-estar do nosso funcionário”, afirmou.

Para ele, a formulação das regras deve ser acompanhada de uma avaliação mais próxima da realidade operacional, incluindo a disponibilidade de profissionais e a infraestrutura necessária para cumprir os períodos de descanso.

Atrair profissionais exige melhores condições

A dificuldade de ampliar as equipes também passa pela atratividade da profissão. Panzan defende investimento em capacitação, remuneração digna e melhores condições de trabalho ao longo de toda a viagem.

Segundo ele, o esforço das transportadoras encontra limites quando o motorista chega a estradas ou instalações de clientes sem estrutura adequada. O empresário cita pontos de entrega sem espaço para refeições, locais de espera ou pátios para os caminhões. “Alguns pontos de entrega e de descarga, o cliente não tem pátio. O caminhão fica para a rua”, relatou.

Panzan avalia que a tecnologia dos veículos e as exigências de atendimento também mudaram o perfil da profissão. Além de conduzir, o motorista representa a transportadora no contato com o cliente, o que reforça a necessidade de formação e retenção. “O motorista é o cartão de visita da nossa empresa”, afirmou.

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