A chegada de novos fabricantes de caminhões ao Brasil reacendeu o debate sobre a importância da engenharia local para a competitividade da indústria automobilística. Para Christopher Podgorski, presidente das operações industriais da Scania na América Latina, a incorporação de tecnologias globais precisa ser acompanhada de desenvolvimento e testes capazes de adequar os veículos às condições brasileiras de clima, topografia e operação.
“Não trazemos nenhum enlatado do hemisfério norte. Nós trazemos a tecnologia e a desenvolvemos para que possa fazer frente a operações muito mais severas e que requerem propriedades de robustez e confiabilidade diferentes do hemisfério norte”, afirmou o executivo durante a apresentação das novidades da Scania para a Fenatran 2026, realizada nesta quinta-feira (15), em São Bernardo do Campo (SP).
A declaração ocorreu em meio a uma reflexão sobre o avanço de novos concorrentes no mercado brasileiro e a importância da produção local. Sem mencionar fabricantes, Podgorski observou que novos entrantes estão direcionando ao Brasil produtos associados à capacidade excedente de produção em seus países de origem. “Novos entrantes estão trazendo o produto, fruto do seu excesso de capacidade em seus países de origem. Super bem, venham competir”, disse.
O executivo ressaltou, porém, que a Scania adota uma estratégia diferente. Embora utilize plataformas globais, a fabricante realiza desenvolvimentos e validações específicos para o mercado brasileiro e latino-americano, considerando as particularidades das operações de transporte na região.
3,6 milhões de quilômetros em testes por ano
Para sustentar essa estratégia, a Scania mantém em São Bernardo do Campo uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento responsável tanto pela participação em projetos globais quanto pela adaptação de tecnologias às condições regionais.
Segundo Podgorski, a fabricante realiza aproximadamente 29 mil horas de testes de campo por ano, utilizando mais de 30 veículos, entre caminhões e ônibus. A frota experimental percorre cerca de 3,6 milhões de quilômetros anualmente, em avaliações destinadas a verificar a durabilidade, a robustez e a confiabilidade dos produtos.
A operação industrial reúne aproximadamente 400 engenheiros, envolvidos em projetos de desenvolvimento global e adequações locais. Atualmente, a área de pesquisa e desenvolvimento trabalha em mais de 50 projetos, de diferentes dimensões e complexidades.
“As aplicações no Brasil e na América Latina têm uma diversidade de operação, de clima, de topografia. Só assim a gente pode garantir robustez, confiabilidade e disponibilidade dos nossos produtos”, afirmou Podgorski.
Produção brasileira vai além da montagem de caminhões
Para Podgorski, o diferencial dessa estrutura está na capacidade de transformar as necessidades identificadas na operação dos veículos em melhorias de produto. “Estamos atentos às necessidades, às dores e aos desvios que são analisados e corrigidos por pesquisa e desenvolvimento”, afirmou. Segundo ele, esse processo pode envolver alterações no desenho, nos materiais ou nos componentes, passando pela engenharia, pelos fornecedores e pela industrialização até sua incorporação aos veículos.
A estrutura reúne nove operações fabris, incluindo a produção de motores, transmissões, eixos e cabines, além da montagem final de caminhões e chassis de ônibus. O complexo também concentra atividades de pesquisa e desenvolvimento e de compras, integradas a uma cadeia de suprimentos formada por mais de 250 empresas estabelecidas na América Latina.
Na avaliação do executivo, essa integração representa uma vantagem competitiva diante da entrada de fabricantes que ainda estão estabelecendo suas operações no país.
A Scania começou sua trajetória brasileira como importadora, em 1957, e passou a montar veículos em São Bernardo do Campo em 1962. Ao longo das décadas seguintes, ampliou a estrutura industrial e passou a participar do desenvolvimento de produtos globais.
Novas tecnologias chegam ao Brasil após validação local
Outro ponto destacado por Podgorski foi a proximidade entre os lançamentos globais da Scania e sua introdução no mercado brasileiro. Segundo o executivo, a fabricante procura manter no país o mesmo padrão tecnológico de seus produtos internacionais, com lançamentos realizados poucos meses depois das apresentações em mercados como Europa e China.
“Poucos meses depois das introduções efetuadas na Europa ou na China, esses produtos também são introduzidos aqui”, afirmou. O intervalo, explicou, está relacionado à necessidade de validar as tecnologias para as condições locais de operação.
Como exemplos dessa evolução, Podgorski citou a introdução da nova geração de caminhões, em 2018, com mudanças nas cabines, nos chassis e na arquitetura eletroeletrônica, seguida pela chegada da família Super, em 2022.
Em 2025, a fabricante introduziu uma nova plataforma eletroeletrônica, ampliando os recursos de conectividade, coleta de dados e integração com soluções de serviços baseadas em inteligência artificial.
A evolução do portfólio ganhou um novo capítulo com o lançamento da linha Super 11 litros, anunciado pela Scania nesta quinta-feira (15). A motorização, que será uma das atrações da fabricante na Fenatran 2026, chega com versões de 390 cv e 430 cv, destinadas a diferentes aplicações do transporte rodoviário.
Para Podgorski, a capacidade de acompanhar os avanços tecnológicos globais sem abrir mão das adequações locais depende da integração entre engenharia, desenvolvimento de fornecedores e produção industrial.
Fortalecimento da indústria brasileira
A apresentação também teve um componente de defesa da política industrial brasileira. Podgorski relacionou a importância da produção nacional às discussões sobre desindustrialização, reindustrialização e aos programas federais de incentivo à inovação e ao desenvolvimento tecnológico, como a Nova Indústria Brasil e o Mover.
“A indústria automobilística representa 25% do PIB industrial do Brasil e entendo que deve ser preservada, fomentada e que cresça, se adapte à nova realidade, às transformações que estão ocorrendo”, afirmou, citando dados da Anfavea.
Segundo o executivo, a combinação de produção local, inovação tecnológica e empregos qualificados ganha importância diante das mudanças geopolíticas e da transição energética no transporte. “Todas as mudanças geopolíticas que estão ocorrendo fazem com que, estrategicamente, seja muito importante que a indústria nacional esteja forte, estabelecida e com uma visão clara de futuro”, acrescentou.
Podgorski também reconheceu que a chegada de novos fabricantes pode contribuir para a inovação e a geração de empregos. “São super bem-vindos, porque vão trazer também inovação, gerar valor e criar postos de trabalho qualificados.”
Ao comparar a trajetória da Scania com a chegada de novos fabricantes ao Brasil, o executivo lembrou que a empresa também começou como importadora. “Nós também já fomos novos entrantes. Em 1957, éramos importadores. Passamos a ser uma montadora nesse mesmo local a partir de 1962.”
A transformação, segundo ele, foi além da fabricação de veículos. “Nos atrevemos a nos chamar de um hub industrial”, disse, ao explicar que esse conceito envolve a integração entre pesquisa e desenvolvimento, compras, fornecedores e produção.
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