Vale prepara teste de carregador de navios autônomo em dezembro

Mineradora amplia uso de drones e operação remota nos portos, enquanto modernização de Tubarão pode elevar capacidade de embarque

Valeria Bursztein

A Vale prepara para dezembro o primeiro teste operacional de um carregador de navios autônomo no Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís (MA). O equipamento deverá executar o carregamento sem intervenção humana direta, em mais uma etapa da estratégia da mineradora de automatizar seus complexos portuários. A companhia também está incorporando drones às manobras de amarração de embarcações e transferindo a operação de equipamentos para centros de controle remoto.

As iniciativas foram apresentadas durante o Port Performance Summit 2026, realizado em São Paulo. Segundo Walter Pinheiro, diretor do Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, a automação está transformando atividades tradicionalmente executadas por trabalhadores instalados em cabines de equipamentos ou embarcações de apoio. A previsão é que o equipamento execute seu ciclo operacional sem intervenção humana direta, diferentemente dos carregadores atualmente controlados a distância.

A mudança representa um avanço em relação à operação remota, na qual o trabalhador continua responsável pelos comandos, mas atua fora do equipamento. Na operação autônoma, a execução dos movimentos passa a ser realizada pelo próprio sistema, sob supervisão humana.

Para Walter Pinheiro, a transformação vai além dos ganhos operacionais. Ao comentar a retirada dos operadores das cabines dos carregadores de navios, o executivo destacou os benefícios para as condições de trabalho. “Isso é um ganho enorme de ergonomia, de segurança, de conforto”, afirmou.

Drones substituem lanchas na amarração

Outra frente recente de aplicação da tecnologia em Ponta da Madeira é o uso de drones para transportar os cabos mensageiros nas manobras de amarração dos navios. Tradicionalmente, essa atividade exige o emprego de uma lancha para transportar o cabo entre a embarcação e o píer. A Vale passou a testar drones de maior capacidade para realizar o deslocamento, reduzindo a necessidade de utilização da embarcação de apoio e a exposição dos trabalhadores aos riscos da operação.

Segundo Pinheiro, uma manobra que anteriormente levava cerca de sete minutos passou a ser executada em aproximadamente metade do tempo.

A tecnologia também permite realizar a atividade a distância. Em janeiro, durante um teste no terminal maranhense, o drone foi comandado a partir de Jundiaí, no interior de São Paulo, por meio de câmeras e sistemas de controle remoto.

De acordo com o executivo, a solução está entrando em operação regular. Além da redução do tempo das manobras, a utilização dos drones permite diminuir o emprego de lanchas e o consumo de combustível associado à atividade.

Tubarão avança na modernização

No Espírito Santo, a Vale também avança na automação de seus equipamentos portuários. O Porto de Tubarão, que completou 60 anos em 2026, passa por um processo de modernização que busca aumentar a confiabilidade dos ativos e melhorar as condições de operação. A transformação inclui o uso de inteligência artificial para integrar o planejamento logístico, como mostrou a Agência Transporte Moderno em reportagem sobre os ganhos de produtividade obtidos com o Sistema Integrado de Otimização da Operação Portuária (SIOP).

Segundo Rodrigo Vasconcelos, diretor do Porto de Tubarão, um dos principais desafios é incorporar novas tecnologias sem interromper a movimentação de cargas. A unidade reúne operações portuárias, ferroviárias e industriais, incluindo usinas de pelotização, o que exige intervenções planejadas para preservar a continuidade das atividades.

O executivo destacou o programa de investimentos da Vale no Espírito Santo, anunciado em abril pelo presidente da companhia, Gustavo Pimenta, estimado em cerca de R$ 12 bilhões até 2030, que abrange modernização de instalações, substituição de equipamentos, melhorias ambientais e iniciativas de automação e eficiência operacional.

A companhia também identifica potencial para ampliar a capacidade de embarque de Tubarão por meio do melhor aproveitamento da infraestrutura existente. Daniel Novo, diretor de Engenharia da Vale, afirmou que a capacidade atual, de aproximadamente 120 milhões de toneladas anuais, poderá alcançar entre 130 milhões e 135 milhões de toneladas. O executivo não informou prazo para atingir esse patamar.

“Estamos agregando um outro porto dentro do Porto de Tubarão, dentro do mesmo espaço físico”, afirmou Novo, ao explicar a possibilidade de ampliar a capacidade sem uma expansão proporcional da área ocupada pelo terminal.

Entre os avanços já implementados está a transferência da operação de carregadores de navios para centros de controle remoto. Segundo Novo, oito equipamentos em Ponta da Madeira e quatro em Tubarão passaram a ser operados dessa forma.

A automação também chegou às máquinas de pátio dos terminais do Sul, onde proporcionou aumento de 12% na taxa operacional, conforme os resultados apresentados por Carlos Eduardo Boechat, diretor de Tecnologia e Engenharia Industrial da Vale.

Operadores assumem novas funções

A transferência das operações para centros de controle está modificando as condições de trabalho e as competências exigidas dos profissionais portuários.

Walter Pinheiro relatou que a operação remota dos carregadores de navios resolveu uma dificuldade enfrentada durante anos pelas equipes, especialmente pelas mulheres que trabalhavam em cabines instaladas na extremidade dos píeres, distantes de banheiros e outras instalações de apoio.

A mudança permitiu transferir essas atividades para ambientes com melhores condições de ergonomia, conforto e segurança. Também ampliou as possibilidades de inclusão de profissionais com deficiência em funções anteriormente condicionadas ao acesso físico aos equipamentos.

Para o executivo, a automação não significa o desaparecimento dos operadores, mas uma mudança no conteúdo de suas atividades. “O operador não vai desaparecer, absolutamente. Ele vai ter um papel mais nobre”, afirmou Pinheiro.

Segundo ele, os profissionais deixam progressivamente de executar movimentos repetitivos e passam a supervisionar sistemas, acompanhar indicadores operacionais e analisar riscos. Isso exige maior familiaridade com automação, interpretação de dados e controle de processos.

A adoção dos drones também deverá criar novas especializações. Pinheiro observou que a Vale ainda não possui formalmente, em suas operações portuárias, o cargo de operador de drone, embora já identifique a necessidade de profissionais especificamente capacitados para essa atividade.

Rodrigo Vasconcelos acrescentou que a mineradora retomou em 2026 um programa de contratação de engenheiros portuários. A iniciativa busca formar profissionais para atuar em um ambiente operacional cada vez mais automatizado e dependente de competências técnicas e analíticas.

Próximo passo são os portos autônomos

As iniciativas integram o programa Porto Conectado, desenvolvido no âmbito da estratégia Porto 100, que reúne projetos de modernização, automação e engenharia para os terminais da Vale. Segundo Daniel Novo, a transformação não se limita à substituição dos comandos manuais. A proposta é avançar na autonomia dos equipamentos e ampliar a conexão entre diferentes atividades portuárias, preservando a segurança e a confiabilidade das operações.

A maior dependência de sistemas digitais também traz novos desafios. Walter Pinheiro apontou a segurança cibernética e a necessidade de redundância dos sistemas como questões fundamentais para a evolução dos portos autônomos.

Ao encerrar o painel, Carlos Eduardo Boechat, diretor de Tecnologia e Engenharia Industrial da Vale, destacou que a transformação dos portos depende da colaboração entre as áreas de tecnologia, engenharia e operações, além do envolvimento de fornecedores e parceiros. Para o executivo, a próxima fronteira é avançar da operação remota de equipamentos para terminais com maior autonomia, seguindo experiências internacionais.

“E se os portos autônomos já são realidade em Roterdã, Cingapura, Austrália e China, por que não a gente também ter os portos autônomos aqui no Brasil?”, questionou.

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