A reforma tributária está abrindo novas oportunidades de negócios no transporte rodoviário de cargas antes mesmo da implementação integral do novo sistema de impostos. A necessidade de rever contratos, recalcular custos, adaptar sistemas e reorganizar o planejamento financeiro das transportadoras amplia o espaço para consultorias especializadas e empresas de tecnologia. É nesse cenário que a Rumo Brasil, consultoria voltada ao setor, projeta dobrar seu faturamento e triplicar a carteira de clientes em 2026.
A perspectiva de expansão reflete a aposta da companhia na crescente complexidade da gestão tributária durante a transição para o novo modelo de tributação do consumo. Para as transportadoras, as mudanças vão além da substituição de impostos: poderão afetar a formação dos preços dos fretes, o aproveitamento de créditos tributários, o capital de giro e a rentabilidade das operações.
Com mais de 15 anos de atuação, a Rumo Brasil já prestou serviços a mais de 400 transportadoras e informa ter acumulado R$ 3,5 bilhões em resultados de performance fiscal. A empresa, que não possui relação com a concessionária ferroviária Rumo S.A., reúne mais de 100 profissionais e atua nas áreas tributária, financeira, jurídica e de gestão empresarial.
Segundo a consultoria, sua carteira inclui empresas como Lontano Transportes e Vidal Logística. A companhia também afirma atender oito das dez maiores empresas do agronegócio brasileiro, embora não detalhe os critérios utilizados para essa classificação.
Mudanças tributárias: revisão dos custos
A transição para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) coloca a gestão tributária entre os temas estratégicos para as transportadoras. A reforma prevê a substituição gradual de tributos sobre o consumo, com novas regras para incidência, recolhimento e aproveitamento de créditos fiscais.
O processo começou em 2026, com a fase de testes do novo sistema. A partir de 2027, a CBS substituirá o PIS e a Cofins, enquanto a transição do ICMS e do ISS para o IBS ocorrerá gradualmente entre 2029 e 2032, até a conclusão do novo modelo em 2033.
No transporte rodoviário de cargas, um dos principais desafios será avaliar como as novas regras afetarão a estrutura de custos das operações. Despesas com combustíveis, manutenção, aquisição de veículos e contratação de serviços exigirão atenção às possibilidades e condições de aproveitamento de créditos tributários.
A revisão dos contratos de frete também tende a ganhar importância, sobretudo nas operações de longo prazo, em que alterações na carga tributária podem modificar o equilíbrio econômico entre transportadores e embarcadores.
Outro ponto sensível é o fluxo de caixa. O novo sistema prevê mecanismos de recolhimento dos tributos vinculados às operações de pagamento, como o split payment, que poderão exigir ajustes na administração financeira e no controle dos créditos fiscais.
Os efeitos não serão uniformes. Empresas de diferentes portes, regimes tributários e estruturas operacionais poderão enfrentar situações distintas durante a transição, o que aumenta a importância do planejamento individualizado.
Para Rafael Brito, fundador e CEO da Rumo Brasil, a reforma exige uma abordagem que combine interpretação da legislação e gestão empresarial. “A Reforma Tributária altera profundamente a dinâmica financeira das transportadoras. Nosso compromisso vai além de interpretar a legislação: transformamos mudanças regulatórias em estratégias que preservam a competitividade e geram valor para o negócio”, afirma.
Consultorias ampliam atuação no transporte
A expectativa de aumento da demanda por serviços especializados está no centro da estratégia de crescimento da Rumo Brasil. A empresa pretende ampliar a atuação junto às transportadoras por meio de soluções que integrem planejamento tributário, gestão financeira, consultoria estratégica e suporte jurídico.
A companhia informa ter alcançado R$ 3,5 bilhões em performance fiscal ao longo de sua trajetória, resultado associado à atuação na gestão tributária de seus clientes. O valor, entretanto, não foi detalhado entre créditos recuperados, economias fiscais, redução de passivos e outros benefícios financeiros.
Embora tenha divulgado a meta de dobrar o faturamento e triplicar a carteira de clientes em 2026, a consultoria não informou a receita registrada no ano anterior nem o número atual de contratos ativos, o que impede dimensionar a expansão em valores absolutos.
Segundo Brito, a especialização no transporte rodoviário permite identificar problemas tributários e financeiros associados às características operacionais do setor. “Quem atua exclusivamente no transporte conhece as particularidades do setor de uma forma que uma consultoria generalista dificilmente consegue. Essa especialização nos permite antecipar cenários, desenvolver soluções aderentes à realidade de cada operação e entregar resultados mais consistentes para nossos clientes”, afirma.
Pequenos transportadores no radar
A reforma tributária também abre oportunidades para soluções destinadas a pequenas transportadoras e caminhoneiros autônomos, que geralmente contam com estruturas administrativas mais enxutas e menor capacidade de investimento em sistemas e assessoria especializada.
Para alcançar esse público, a Rumo Brasil investiu na Manifestaaí, empresa voltada ao desenvolvimento de soluções para apoiar pequenos transportadores e autônomos na adaptação às novas regras tributárias.
Com a implementação gradual do novo sistema até 2033, a adaptação tributária deverá permanecer na agenda das transportadoras nos próximos anos. Para empresas especializadas em consultoria, tecnologia e gestão financeira, o período representa uma oportunidade de ampliar a oferta de serviços em um setor no qual a eficiência fiscal pode ter impacto direto sobre a competitividade.
A expansão projetada pela Rumo Brasil é um exemplo dessa aposta. O alcance efetivo das oportunidades, porém, dependerá de como as transportadoras reorganizarão suas operações e de quais necessidades de serviços surgirão ao longo da transição.
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