A corrida pela inteligência artificial ganha tração nos terminais portuários, mas a adoção de novas ferramentas não garante operações mais eficientes. Antes de investir, as empresas precisam identificar os problemas que pretendem resolver, rever processos e avaliar se a tecnologia escolhida é capaz de reduzir custos, aumentar a produtividade ou melhorar o atendimento aos clientes. Sem esse diagnóstico, correm o risco de ampliar despesas, criar dificuldades de integração e comprometer a segurança dos dados.
A avaliação foi compartilhada por executivos durante o painel “A jornada da inovação no ecossistema portuário – sistemas e processos”, promovido pela Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (ABTRA) no Port Performance Summit 2026, realizado em São Paulo.
Para Leonardo Moura, head de Tecnologia e Plataformas Digitais da Multilog, a escolha de uma ferramenta deve ser consequência de uma necessidade operacional. A empresa avalia os investimentos a partir de critérios como redução de custos, aumento de receitas, economia de tempo e melhoria da experiência dos clientes.
“A tecnologia é o último passo”, afirmou. Segundo Moura, também é necessário considerar a possibilidade de replicar as soluções em diferentes unidades, evitando que cada instalação dependa de um projeto específico.
Eficiência começa pela revisão dos processos
O executivo citou a mudança de uma unidade da Multilog em Santos como exemplo dessa abordagem. As características do novo local, que não dispunha de espaço suficiente para a parada de caminhões durante a conferência de documentos, exigiram uma reformulação dos procedimentos de acesso.
A empresa passou a antecipar etapas de identificação e validação documental, recorrendo a pré-cadastros, aplicativos e portões automatizados. A mudança buscou reduzir a necessidade de intervenção no momento da chegada dos veículos e dar maior fluidez à operação.
O objetivo, segundo Moura, é desenvolver soluções que possam ser aproveitadas em outras instalações da Multilog, permitindo ganhos de escala e melhor aproveitamento dos investimentos em tecnologia.
Cristiane Lunardi, sócia-diretora da Lunardi Tech Consult, reforçou que a inovação deve responder às necessidades de cada operação. A adoção de ferramentas apenas porque estão disponíveis ou são utilizadas por outras empresas pode gerar investimentos sem resultados proporcionais.
Durante o painel, Cristiane citou um estudo atribuído ao Gartner, consultoria internacional especializada em tecnologia, segundo o qual mais de 70% dos investimentos em inteligência artificial realizados nos últimos anos não teriam alcançado os resultados esperados. Na avaliação da executiva, o problema está na adoção da tecnologia sem objetivos concretos, motivada mais pela tendência de mercado do que pela identificação de necessidades operacionais.
A consultora também chamou a atenção para a qualidade das informações que alimentam os sistemas. Bases de dados inconsistentes, acumuladas ao longo de anos de operação e de mudanças de plataformas, podem comprometer os resultados das ferramentas de inteligência artificial.
Gustavo Henrique Monteiro, gerente de TI da Bandeirantes Deicmar, defendeu uma abordagem semelhante. Para ele, a inovação deve começar pelas pessoas e pelos processos, com preparação das equipes e identificação das atividades que precisam ser aperfeiçoadas. A tecnologia entra depois, como instrumento para alcançar os resultados pretendidos.
Segurança dos dados entra na conta
A popularização da inteligência artificial e das ferramentas que permitem desenvolver aplicações com pouco conhecimento de programação também trouxe novos desafios para as áreas de tecnologia. Funcionários passaram a criar soluções para necessidades específicas de seus departamentos, nem sempre submetidas previamente aos procedimentos corporativos de segurança.
André Guerra, gerente de TI do Grupo ABA Infra, relatou o caso de uma aplicação desenvolvida por uma colaboradora para acompanhar o vencimento de treinamentos obrigatórios dos funcionários. Embora atendesse a uma necessidade operacional, a ferramenta apresentava fragilidades de segurança identificadas pela área de tecnologia.
O executivo solicitou a suspensão do uso da aplicação e seu encaminhamento à equipe de TI para avaliação e adequação aos requisitos de segurança.
A experiência levou o grupo a estabelecer diretrizes para o desenvolvimento de protótipos pelas áreas de negócios. As iniciativas podem ser testadas em ambientes controlados, mas precisam passar pela avaliação da equipe de tecnologia antes de entrar em operação.
Cristiane alertou para o crescimento da chamada Shadow IT, expressão que designa sistemas e aplicações utilizados ou desenvolvidos sem supervisão da área de tecnologia. Com a inteligência artificial, o problema ganha outra dimensão, inclusive pelo risco de informações corporativas serem compartilhadas com ferramentas externas sem os controles necessários.
Na Bandeirantes Deicmar, segundo Monteiro, a estratégia tem sido envolver funcionários de diferentes departamentos no processo de inovação, oferecendo capacitação e acesso a ferramentas de inteligência artificial em ambiente corporativo licenciado e controlado.
A proposta é aproveitar o conhecimento de quem está diretamente envolvido nas operações sem abrir mão da governança. Para os participantes, restringir indiscriminadamente o uso das ferramentas pode estimular iniciativas paralelas, enquanto ambientes controlados permitem conciliar experimentação e proteção das informações.
Integração de dados pode reduzir etapas na logística
A discussão também avançou para a necessidade de compartilhar informações entre os diferentes participantes da cadeia portuária. A integração entre terminais, transportadoras, operadores de navios, órgãos anuentes e instalações retroportuárias foi apontada como uma oportunidade para reduzir procedimentos repetitivos e melhorar o planejamento das operações.
Monteiro defendeu maior intercâmbio de informações entre esses agentes, respeitando as exigências de confidencialidade e segurança. O compartilhamento permitiria antecipar procedimentos e evitar que dados já disponíveis precisassem ser novamente apresentados em cada etapa da movimentação de cargas.
Moura destacou que a troca antecipada de informações pode facilitar o deslocamento de caminhões entre instalações. Ao receber os dados de um veículo antes de sua chegada, o terminal de destino consegue preparar os procedimentos de acesso e organizar a operação, reduzindo o tempo necessário para a entrada.
Juliana Rodrigues da Silva, gerente de TI da ABTRA e moderadora do painel, citou a Declaração de Transferência Eletrônica (DT-e) como exemplo de integração entre os participantes das operações alfandegárias. Desenvolvido pela entidade, o sistema substituiu procedimentos manuais pela troca eletrônica de informações, reduzindo de dias para segundos o tempo de determinadas etapas, segundo a executiva.
Juliana também destacou o potencial do Port Community System (PCS), modelo de plataforma que permite compartilhar informações entre os integrantes da comunidade portuária. A proposta é ampliar a integração entre sistemas e reduzir a fragmentação dos dados ao longo da cadeia logística.
Para os executivos, a inteligência artificial poderá ampliar os benefícios dessa integração, especialmente na análise de informações e na antecipação de necessidades operacionais. O avanço, porém, depende de bases de dados confiáveis, sistemas compatíveis e regras claras de acesso e compartilhamento.
Mais do que incorporar novas ferramentas, o desafio para os terminais é fazer com que a tecnologia elimine etapas desnecessárias e melhore a circulação das cargas. Como destacou Moura durante o painel, é a troca de informações entre os participantes que permite dar continuidade ao fluxo logístico.
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