Uma inquietação de Jordano Bessa ao cruzar com caminhões a gás em uma rodovia, em junho de 2025, acabou dando origem a uma nova frente de negócios da Transjordano. Pouco mais de um ano depois, a transportadora começa a colocar nas estradas 100 caminhões movidos a biometano, busca clientes fora de sua base tradicional de combustíveis e transforma a infraestrutura de abastecimento criada para a própria frota em fonte de receita para a GarageLog, empresa do grupo.
A aposta, porém, começa antes de a conta estar completamente equalizada com o diesel. Embora o biometano seja mais competitivo quando considerado isoladamente o custo por quilômetro, o preço dos veículos, a manutenção e outros componentes ainda tornam a operação mais cara.
“Quando se considera apenas Real x quilômetro do biometano, ele é mais interessante que o diesel. Mas, quando se tem o plano de manutenção e o fixo-variável, acaba custando um pouquinho [mais]”, afirmou Jordano Bessa, diretor comercial e de novos negócios da Transjordano e da GarageLog, durante o lançamento do Corredor Verde, em Sumaré (SP).
Parte do desafio está em demonstrar ao embarcador que o diferencial de custo vem acompanhado de ganhos diretos e indiretos, principalmente pela redução das emissões associadas ao transporte. Segundo Bessa, em alguns casos a empresa consegue negociar um valor adicional no frete, mas esse repasse ainda encontra resistência.
A estratégia, por isso, não depende apenas da substituição do diesel. A Transjordano pretende usar a nova frota para conquistar clientes fora de sua base tradicional de combustíveis e transformar a infraestrutura criada para o biometano em outra fonte de receita para a GarageLog, empresa do grupo que funciona como uma plataforma de serviços para transportadores.
Juros quase inviabilizaram projeto
A conta financeira esteve no centro do projeto desde o início. Quando a Transjordano começou a estudar caminhões a gás, em junho de 2025, o preço dos veículos e o custo do crédito colocaram em dúvida a viabilidade do investimento. “Pensei: esse caminhão sai muito caro. Na taxa de juros atual, é completamente inviável”, relembrou Bessa.
A alternativa surgiu com o Fundo Clima, linha do BNDES destinada a projetos relacionados à redução de emissões. A estrutura de financiamento permitiu à transportadora avançar com a aquisição da frota e a implantação do projeto.
O movimento nasceu de uma inquietação do executivo. Depois de ver caminhões a gás durante uma viagem de volta de São Paulo, Bessa reuniu uma equipe para estudar GNV, GNL e biometano. “Nem sempre uma solução vem de uma ideia, de um sonho. Às vezes vem de uma indignação”, afirmou.
Mais do que a tecnologia, porém, o estudo expôs uma barreira de mercado: mesmo que a empresa comprasse os caminhões, faltava uma rede que permitisse abastecê-los nas rotas em que pretendia operar.
Gargalo virou fonte de receita
Foi nesse ponto que a GarageLog ganhou um papel estratégico. A empresa já atuava com serviços compartilhados para transportadores e passou a ser usada como plataforma para estruturar o abastecimento de biometano.
A decisão abriu uma frente adicional de receita. Em vez de restringir a infraestrutura à frota da Transjordano, a companhia decidiu disponibilizá-la também a terceiros. “Não vendemos biometano; só fazemos a conexão. É a própria Ultragaz que venderá direto para o transportador; nós recebemos, armazenamos e abastecemos. E vamos cobrar um fee por isso”, explicou Bessa.
O modelo amplia o negócio da GarageLog, que reúne serviços como estacionamento compartilhado, triagem, abastecimento e facilidades para transportadores e motoristas. Com o biometano, a empresa passa a capturar receita também sobre o uso da infraestrutura por outras frotas.
A lógica é transformar um gargalo enfrentado pela própria Transjordano — a falta de locais para abastecer — em um serviço para o mercado. A companhia já avalia ampliar essa rede, mas ainda não revela onde pretende instalar a próxima unidade de abastecimento.
Novos mercados entram no radar
A segunda frente de crescimento está fora do mercado tradicional da Transjordano. Especializada no transporte de combustíveis, a companhia vê na frota de baixa emissão uma oportunidade para disputar cargas de outros segmentos.
Bessa afirma que já existem conversas com empresas dos setores de cosméticos e comércio eletrônico. Se os contratos avançarem, a transportadora poderá incorporar implementos como baús e siders à nova frota. “Estamos falando, por exemplo, com o pessoal dos cosméticos, do e-commerce. Então provavelmente deve entrar muito baú ou sider nessa frota”, disse.
A proposta é usar a redução de emissões como argumento comercial para embarcadores que precisam avançar em suas próprias metas ambientais. Na prática, isso transforma o caminhão a biometano não apenas em uma alternativa ao diesel, mas em instrumento para a transportadora entrar em cadeias nas quais hoje tem participação menor.
Diesel tem repasse mais estruturado
Enquanto testa a economia da nova estratégia, a Transjordano atravessa 2026 beneficiada por uma característica de seu principal mercado. Segundo Bessa, o transporte de combustíveis possui mecanismos mais estruturados para repassar as oscilações do preço do diesel ao frete.
“Subiu no mês, tem acréscimo. Desceu, já tem decréscimo”, afirmou. Na avaliação do executivo, esse mecanismo funciona melhor no transporte de combustíveis do que em segmentos como carga seca.
Bessa não revelou números de faturamento, rentabilidade ou projeções para o próximo exercício, mas indicou que a companhia deverá encerrar 2026 em situação positiva. Questionado sobre o grau de otimismo para 2027, respondeu: “Muito. Eu não tenho dúvida. Para mim, é certo já.”
A expansão para outras cargas e a abertura da infraestrutura da GarageLog a terceiros ajudam a explicar por que a Transjordano decidiu avançar com o biometano mesmo antes de a equação econômica se igualar à do diesel. A aposta é que escala, novos contratos e novas receitas façam uma conta que hoje ainda não fecha se tornar mais favorável à medida que o projeto cresce.
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