A preparação para a Black Friday já começa a movimentar a logística brasileira com maior antecedência. Em 2026, a formação de estoques para atender ao pico de consumo previsto para novembro impulsiona o transporte de eletrônicos pela cabotagem e reforça uma transformação mais ampla no setor: a diversificação das cargas que migram do transporte rodoviário para o marítimo.
Dados da LogComex mostram que a movimentação de eletrônicos por cabotagem apresenta crescimento histórico médio de 19,2% entre o segundo e o terceiro trimestres, no período de 2022 a 2025. O comportamento está associado, entre outros fatores, à antecipação dos estoques para a Black Friday, especialmente de produtos fabricados no Polo Industrial de Manaus e destinados aos principais mercados consumidores do país.
O movimento ocorre em um momento em que os armadores identificam maior diversidade no perfil das mercadorias transportadas. Segundo Luiza Bublitz, presidente da Aliança Navegação e Logística, cargas que antes dependiam predominantemente das rodovias estão passando a utilizar o transporte marítimo.
“Temos visto cada vez mais alimentos, bebidas, partes e peças de maior valor agregado. Antes, era mais comum transportar produtos de baixo valor unitário. Agora, com a confiança crescente e a melhora dos serviços, os embarcadores estão migrando cargas mais sensíveis e valiosas para a cabotagem”, afirmou Luiza em entrevista ao Videocast Transporte Moderno (Assista aqui).
A mudança é relevante porque amplia o mercado potencial da cabotagem. Em vez de concentrar sua atuação em grandes volumes e determinados segmentos industriais, o modal passa a disputar cargas de maior valor agregado e mercadorias diretamente relacionadas ao consumo.
Black Friday antecipa formação de estoques
A antecipação da formação de estoques é especialmente importante para a cadeia de eletrônicos. Parte relevante da produção nacional está concentrada em Manaus, enquanto os principais centros consumidores ficam a milhares de quilômetros de distância.
Somente no primeiro semestre de 2026, foram produzidos 6,23 milhões de celulares no Polo Industrial de Manaus, além de televisores, aparelhos de ar-condicionado, micro-ondas, monitores e eletrodomésticos, segundo dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
A concentração da produção aumenta a necessidade de planejamento dos fluxos de distribuição antes do pico de consumo. O desafio logístico é ainda maior porque o período de preparação para a Black Friday coincide com a estiagem na Amazônia, o que exige planejamento antecipado das operações.
Para atender à demanda, empresas antecipam a formação dos estoques e organizam o transporte com maior antecedência. Nesse cenário, a cabotagem ganha espaço como alternativa para movimentar grandes volumes entre a região Norte e os principais mercados consumidores.
A Aliança combina o transporte marítimo com operações terrestres e armazenagem para posicionar mercadorias antes dos períodos de maior demanda.
“A crescente antecipação dos estoques para a Black Friday reforça uma tendência cada vez mais clara no mercado: logística e planejamento caminham juntos. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, integrar diferentes modais e garantir previsibilidade operacional é fundamental para apoiar o crescimento dos negócios e assegurar o abastecimento dos mercados”, afirma Bublitz.
O cenário de consumo também favorece a preparação antecipada. Segundo pesquisas do Globo Ads Insights e Google, 47% dos brasileiros pretendem comprar na Black Friday, enquanto 44% já começaram a pesquisar preços e 48% afirmam que devem chegar à data com a lista de compras definida.
Entre as categorias com maior expectativa de demanda estão celulares, eletrodomésticos, eletroportáteis e computadores.
Cabotagem movimenta quase 900 mil TEUs no semestre
O avanço dos eletrônicos ocorre em um mercado de cabotagem que vem crescendo e, ao mesmo tempo, ampliando a variedade de cargas transportadas. Segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC), as empresas associadas movimentaram 898.035 TEUs no primeiro semestre de 2026, considerando as operações de carga doméstica e feeder.
O resultado representa alta de aproximadamente 0,9% em relação aos 890.177 TEUs registrados no mesmo período de 2025. A composição do mercado, porém, mudou de forma diferente entre as operações. A carga doméstica cresceu 6,1%, passando de 409.878 para 434.895 TEUs. Já o feeder recuou 3,6%, de 480.299 para 463.140 TEUs.
O segundo trimestre mostrou uma aceleração. Entre abril e junho, a cabotagem movimentou 462.713 TEUs, contra 435.322 TEUs no primeiro trimestre. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o crescimento foi de 5,6%. O desempenho indica recuperação do mercado ao longo do ano. Depois de iniciar 2026 com queda na comparação anual, a cabotagem voltou a crescer no segundo trimestre.
Carga de maior valor chega ao navio
A mudança no perfil das mercadorias transportadas é um dos pontos mais relevantes para o futuro do setor. Durante a entrevista ao Videocast Transporte Moderno, Bublitz destacou justamente a entrada de cargas que exigem maior nível de serviço. Além de alimentos e bebidas, ela citou partes e peças de maior valor agregado. A executiva também explicou que a evolução da cabotagem está relacionada à maior confiança dos embarcadores na regularidade dos serviços.
Essa mudança ajuda a explicar por que eletrônicos começam a ganhar espaço na navegação costeira. São produtos de maior valor agregado, sensíveis a atrasos e diretamente ligados ao comportamento do consumidor. No caso da Black Friday, a necessidade de antecipar estoques cria uma janela favorável para a cabotagem. O transporte marítimo permite deslocar grandes volumes antes do pico de vendas e posicionar os produtos próximos dos centros de consumo.
Integração reduz dependência do transporte rodoviário
A expansão da cabotagem não significa substituir o caminhão. O movimento ocorre principalmente por meio da integração entre os modais. Uma carga produzida em Manaus, por exemplo, pode ser transportada por via marítima até um porto do Sudeste e, a partir daí, seguir por caminhão até um centro de distribuição ou diretamente ao cliente.
O modelo permite utilizar o modal mais adequado em cada etapa da cadeia. O navio assume o trecho de longa distância, enquanto o transporte rodoviário permanece fundamental para as operações de coleta e distribuição. Para os embarcadores, essa combinação também pode reduzir a exposição à dependência de longas viagens rodoviárias e aumentar a previsibilidade do abastecimento.
A estratégia ganha importância durante a Black Friday, quando a demanda por transporte aumenta e os estoques precisam estar disponíveis nos centros de distribuição antes do pico de vendas. Apesar do avanço, a cabotagem ainda tem um grande mercado potencial a conquistar.
Segundo Bublitz, estudo do ILOS aponta que, para cada contêiner transportado atualmente pela cabotagem, existem 4,8 contêineres que poderiam utilizar o transporte aquaviário. A oportunidade ajuda a explicar o movimento dos armadores em busca de novos segmentos. A estratégia não envolve apenas ampliar a capacidade de transporte, mas também oferecer soluções capazes de integrar diferentes etapas da cadeia logística.
A Aliança atua nesse modelo combinando transporte marítimo, rodoviário, ferroviário, fluvial e aéreo, além de armazenagem.
O objetivo é oferecer ao embarcador uma solução integrada, na qual a cabotagem seja incorporada à estratégia de distribuição e não utilizada apenas de forma pontual.
Cabotagem supera 1,8 milhão de TEUs em 2025
O crescimento de 2026 acontece depois de um avanço expressivo no ano passado. Em 2025, as empresas associadas à ABAC movimentaram 1,81 milhão de TEUs em operações de cabotagem. Considerando também as operações com o Mercosul, o volume chegou a aproximadamente 1,92 milhão de TEUs. A expansão dos eletrônicos adiciona uma nova frente a esse mercado.
A Black Friday, nesse sentido, funciona como um catalisador para uma mudança que vai além da sazonalidade. Ao antecipar estoques, empresas precisam avaliar alternativas capazes de transportar grandes volumes com previsibilidade e conectar regiões produtoras aos principais centros de consumo.
Se a operação apresenta desempenho satisfatório durante períodos de maior demanda, a tendência é que o embarcador mantenha parte dessas cargas no modal também ao longo do restante do ano.
Para os armadores, portanto, a oportunidade está em transformar uma necessidade sazonal do varejo em uma relação permanente com novos clientes e segmentos.
Cabotagem em números
- 898.035 TEUs movimentados pelas associadas da ABAC no primeiro semestre de 2026
- 434.895 TEUs de carga doméstica no período
- 463.140 TEUs de operações feeder
- 6,1% de crescimento da carga doméstica no primeiro semestre
- 5,6% de crescimento da cabotagem no segundo trimestre, na comparação anual
- 1,81 milhão de TEUs movimentados em cabotagem pelas associadas da ABAC em 2025
- 1,92 milhão de TEUs em 2025 considerando cabotagem e Mercosul
- 19,2% é o crescimento histórico médio da movimentação de eletrônicos entre o segundo e o terceiro trimestres, entre 2022 e 2025, segundo a LogComex
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