Pistas simples concentram 69% das mortes nas rodovias federais

País reduziu óbitos nas BRs em 2025, mas ainda registrou mais de 6 mil mortes; infraestrutura, fiscalização e comportamento seguem como desafios

Valeria Bursztein

As rodovias de pista simples concentraram quase sete em cada dez mortes registradas nas estradas federais brasileiras em 2025. Das 6.043 vítimas fatais contabilizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), 4.143 morreram em vias simples, o equivalente a 68,6% do total. Nas pistas duplas, foram 1.603 óbitos.

O dado coloca a infraestrutura entre os principais pontos de atenção da segurança viária no país neste 25 de setembro, Dia Nacional do Trânsito. Embora o Brasil tenha avançado nas últimas oito décadas em legislação, fiscalização e tecnologias de proteção, as rodovias federais ainda registraram média superior a 16 mortes por dia no ano passado.

Ao todo, a PRF contabilizou 72.529 sinistros em 2025, com 83.550 feridos. Houve melhora em relação a 2024, quando foram registrados 73.156 sinistros, 6.160 mortes e 84.526 feridos. A queda no número de óbitos foi de 1,9%.

A diferença de letalidade entre pistas simples e duplas está relacionada, entre outros fatores, às colisões frontais, que apresentam elevado potencial de gravidade e são favorecidas pela circulação em sentidos opostos sem separação física.

Entre as rodovias com maior número de ocorrências em 2025 aparecem alguns dos principais eixos do transporte rodoviário nacional. A BR-101 registrou 13.014 sinistros, seguida pela BR-116, com 11.021, e pela BR-040, com 3.502. Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná, juntos, responderam por 29,65% das mortes nas rodovias federais.

Legislação avançou em oito décadas

O quadro atual contrasta com uma longa trajetória de mudanças nas regras de trânsito. O primeiro Código Nacional de Trânsito foi instituído em 1941 e já estabelecia normas sobre velocidade, sinalização, registro e licenciamento de veículos e habilitação de condutores. Uma nova legislação foi criada em 1966 e permaneceu como principal referência até a instituição do atual Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em 1997, com vigência a partir de 1998.

Ao longo desse período, foram incorporadas exigências como o uso obrigatório do cinto de segurança e de dispositivos de retenção para crianças, regras para capacetes de motociclistas, fiscalização de velocidade e punições mais rigorosas para a combinação de álcool e direção. Em 2008, a Lei Seca estabeleceu alcoolemia zero e endureceu as penalidades para condutores que dirigem sob influência de álcool.

Para Antonio Luiz Leite, presidente da Fundação Memória do Transporte (FuMTran), a evolução das normas acompanhou as mudanças da própria mobilidade. “Muitas medidas que hoje estão incorporadas ao cotidiano enfrentaram resistência quando foram introduzidas. A história mostra que a combinação entre legislação, fiscalização, educação e conscientização foi fundamental para modificar comportamentos e fortalecer uma cultura de segurança no trânsito”, afirma.

Os números mostram, porém, que o cumprimento das regras continua sendo um desafio. Em 2025, a PRF registrou mais de 10 milhões de infrações nas rodovias federais, com crescimento em relação ao ano anterior. O excesso de velocidade respondeu pela maior parcela das autuações.

Concessões reduzem gravidade dos sinistros

Nas rodovias federais concedidas, houve redução mais acentuada da mortalidade em 2025. Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (Antt) mostram que as mortes caíram de 2.370, em 2024, para 2.000 no ano passado, recuo de 15,6%.

O número de feridos também diminuiu, de 49.611 para 43.825. Os sinistros, por outro lado, aumentaram de 82.187 para 84.079. No mesmo período, a rede acompanhada pela agência passou de 26 para 32 concessionárias.

A Antt ressalta que os números indicam redução da gravidade das ocorrências, mas não permitem atribuir o resultado isoladamente a uma política ou medida. Entre os fatores que interferem na segurança estão infraestrutura, comportamento dos condutores, fiscalização, condições dos veículos e atendimento às ocorrências.

A diferença entre os indicadores reforça uma discussão que vai além da criação de novas regras. Mais de oito décadas depois do primeiro Código Nacional de Trânsito, a redução das mortes nas estradas depende também da qualidade da infraestrutura, da fiscalização e do comportamento dos usuários.

Esse desafio tende a ganhar novas dimensões com o avanço dos sistemas de assistência à condução, veículos conectados e mudanças no perfil da frota. Para a FuMTran, legislação, engenharia, tecnologia e educação precisarão evoluir de forma conjunta.

“As regras estabelecem limites e a fiscalização reforça seu cumprimento, mas a educação tem papel fundamental para transformar esses princípios em comportamentos duradouros. A segurança depende da compreensão de que as decisões de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres têm impacto sobre todos que compartilham as vias”, afirma Leite.

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