O número de roubos de carga vem recuando no Rio de Janeiro, mas os ataques continuam produzindo perdas elevadas e apresentam sinais de mudança de perfil. Em agosto, foram registradas 134 ocorrências no Estado, queda de 26% em relação aos 182 casos do mesmo mês de 2025. No sentido contrário, o valor das mercadorias roubadas saltou 61%, de R$ 10,55 milhões para R$ 16,99 milhões.
Os dados são do programa Carga Blindada, do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas e Logística do Rio de Janeiro (Sindicarga), com base em informações do Instituto de Segurança Pública (ISP) e da Polícia Civil.
Outro levantamento da entidade chama atenção para a reincidência. Dos 168 réus envolvidos em 100 processos de roubo de carga acompanhados pelo departamento jurídico do sindicato desde 2023, 158 já tinham antecedentes, segundo o Sindicarga. O grupo corresponde a 94% dos réus analisados.
O percentual se refere especificamente aos processos monitorados pela entidade e, portanto, não representa necessariamente o universo dos autores de roubos de carga no Estado. Ainda assim, o indicador será um dos pontos discutidos pelo setor com autoridades de segurança e representantes dos poderes Judiciário e Legislativo nesta sexta-feira (25).
R$ 930 milhões em cargas desde 2023
Entre janeiro de 2023 e agosto deste ano, o Carga Blindada contabilizou 11.809 ocorrências no Rio de Janeiro, com R$ 930 milhões em mercadorias roubadas. O volume equivale a uma média próxima de nove registros por dia ao longo do período.
Em 2025, foram 3.114 roubos de carga no Estado, redução de 9,4% sobre o ano anterior. A queda das ocorrências prosseguiu em agosto deste ano, mas o aumento do valor das mercadorias levadas indica que a redução na frequência dos crimes não necessariamente produz queda proporcional das perdas financeiras.
A Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) identifica ainda mudanças na atuação das quadrilhas. Produtos alimentícios continuam entre os alvos devido à facilidade de revenda, mas cargas de maior valor agregado, como medicamentos, também despertam interesse dos criminosos.
Segundo o delegado André Prates, da DRFC, o roubo envolve uma estrutura que ultrapassa a abordagem ao veículo e inclui apoio para retirada, transporte e posterior comercialização das mercadorias. A polícia também identificou casos de infiltração em empresas de monitoramento e acompanhamento de locais utilizados para pernoite de caminhoneiros.
Capital e Caxias concentram ocorrências
A distribuição geográfica dos crimes mostra forte concentração na Região Metropolitana. A cidade do Rio de Janeiro registra 5.738 abordagens a veículos de carga no levantamento acumulado desde 2023, enquanto Duque de Caxias soma 2.742. Juntos, os dois municípios respondem por aproximadamente 72% dos casos mapeados pelo Carga Blindada.
São João de Meriti aparece em seguida, com 820 registros, seguido por São Gonçalo, com 732; Nova Iguaçu, com 494; e Belford Roxo, com 486. Dentro da capital, Bonsucesso registra 388 abordagens, seguido por Bangu, com 265, e Pavuna, com 251.
A concentração também aparece nos locais utilizados para o transbordo das mercadorias retiradas dos veículos. A capital reúne 5.808 registros e Duque de Caxias, 2.588. Localidades da Maré somam 481 ocorrências, enquanto Costa Barros e Guadalupe concentram outras 339.
A geografia dos casos ajuda a explicar por que o combate ao roubo de cargas envolve não apenas policiamento de vias e proteção dos veículos, mas também ações contra estruturas utilizadas para receber, armazenar e distribuir produtos roubados.
Reincidência entra no debate
Para o Sindicarga, os 94% de reincidência identificados nos processos acompanhados pela entidade colocam a atuação do sistema de Justiça no centro da discussão.

“Precisamos da efetividade das punições. O trabalho da polícia precisa ter continuidade na Justiça e na legislação. Não podemos exigir das forças de segurança um esforço permanente para prender as mesmas pessoas sem enfrentar o que permite esse retorno ao crime”, afirma Filipe Coelho, presidente do sindicato.
A questão será debatida no 8º Fórum de Segurança Pública Carga Blindada, que será realizado nesta sexta-feira (25), no Rio. O encontro reunirá representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e do setor produtivo.
Além da reincidência e do roubo de cargas, estão previstos debates sobre retomada de territórios, combate à receptação, ocupações irregulares, estrutura das forças de segurança e propostas de mudanças na legislação. As entidades participantes pretendem consolidar as discussões em uma carta a ser encaminhada a gestores públicos e parlamentares.
Os dados recentes colocam dois movimentos no radar das transportadoras: de um lado, a redução do número de ocorrências; de outro, o aumento do valor das cargas levadas. A combinação indica que acompanhar apenas a quantidade de roubos pode não ser suficiente para medir o impacto do crime sobre as operações de transporte e os custos logísticos.
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