A JSL avalia que o modelo atual da tabela de frete tende a elevar o custo do transporte rodoviário e ainda não reflete a complexidade das operações. Para Guilherme Sampaio, CEO da companhia, o principal problema está na tentativa de padronizar um setor marcado por variáveis que impactam diretamente o custo.
“A tabela não consegue capturar a especificidade de cada operação. A mesma carga, na mesma rota, pode ter variação de 10% a 20% no consumo de combustível dependendo do peso. Em alguns trechos, como subida ou descida de serra, essa diferença pode chegar a 30%”, afirma.
Segundo ele, fatores como tipo de carga, topografia, necessidade de sanitização, retorno vazio e características do veículo alteram significativamente o custo da viagem. “É praticamente impossível ter uma tabela aplicável a todo e qualquer transporte no Brasil”, diz.
Renegociação e impacto
Com a ampliação das exigências e o endurecimento das regras, a companhia já iniciou a revisão de contratos. “Diria que quase todos foram renegociados”, afirma Sampaio. Na avaliação da executivo, o impacto tende a se espalhar pela cadeia. “Vai subir o custo do transporte de forma geral e alguém vai ter que pagar essa conta”, diz.
Ele afirma que o objetivo de proteger o caminhoneiro é legítimo, mas alerta para o risco de distorções. “A sustentabilidade do caminhoneiro depende de ele continuar sendo contratado. Se o custo ficar desalinhado com a realidade da operação, o sistema perde equilíbrio.”
A discussão ocorre em meio ao endurecimento recente das regras do piso mínimo de frete em função da escalada dos preços dos combustíveis impactados pelos conflitos bélicos no Oriente Médio. O governo ampliou os mecanismos de fiscalização e passou a prever sanções mais elevadas para operações abaixo da tabela, além de avançar no monitoramento eletrônico das contratações.
Ao mesmo tempo, a tabela segue sendo atualizada em função da variação do diesel e passou por revisões metodológicas recentes, em uma tentativa de aproximar os valores dos custos efetivos da operação.
Para Sampaio, o modelo ainda está em fase de ajuste. “É um período de adaptação. A intenção é legítima, mas precisa evoluir para considerar melhor as diferenças entre operações”, afirma o executivo.
Outro ponto levantado pelo CEO é a dificuldade de comparação com as referências oficiais. Segundo ele, há múltiplas tabelas aplicáveis a uma mesma rota, o que aumenta a complexidade para transportadoras e embarcadores. “A maior dificuldade é saber com qual tabela você deve se comparar. Existem várias referências para uma mesma operação.”
Estratégia e estrutura
Apesar da complexidade do cenário, a JSL experimenta momento de expansão. A companhia registrou receita bruta de R$ 11,4 bilhões nos 12 meses de 2025, com EBITDA de R$ 2 bilhões e margem de 20,5%. A operação reúne cerca de 31 mil ativos e 35 mil funcionários diretos. A empresa atua em todos os estados brasileiros e em outros oito países, com presença na América do Sul e na África.
A companhia reorganizou sua estrutura nos últimos anos e passou a operar com três unidades de negócio. A divisão de serviços dedicados, que responde por cerca de 60% da receita, concentra contratos de longo prazo com clientes e operações estruturadas, com ativos, equipes e gestão próprios para cada projeto.
A área de intralogística, responsável por aproximadamente 25% do faturamento, reúne operações dentro de armazéns, incluindo gestão de estoques e movimentação interna de cargas.
Já a operação digital foi estruturada para atuar no mercado de carga geral, marcado por contratação sob demanda e maior fragmentação. “É um modelo completamente diferente. O embarcador não define com antecedência volume ou frequência. É um mercado mais dinâmico e competitivo”, afirma Sampaio.
Digitalização e escala
O segmento de carga geral, estimado em cerca de R$ 500 bilhões, concentra a estratégia de crescimento via tecnologia. Diferentemente dos contratos dedicados, esse mercado opera sob demanda, com baixa previsibilidade e maior pressão por preço.
“É um modelo em que você precisa ter o caminhão certo, na hora certa, próximo da carga. Sem digitalização, não escala”, conclui o executivo.
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