Prioridade a combustíveis expõe limite operacional em Santos

Medida emergencial altera rotina do maior porto do país e pode impactar custos e fluxo de cargas

Valeria Bursztein

O Porto de Santos passou a priorizar a atracação de navios com combustíveis para reduzir o risco de desabastecimento em São Paulo, identificado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

A decisão, adotada pela Autoridade Portuária de Santos (APS), altera a lógica operacional do principal hub logístico do país em um momento de pressão sobre a oferta global de energia, intensificada pela guerra entre Estados Unidos e Irã.

Embora não exista um percentual único consolidado amplamente divulgado para combustíveis na movimentação total, os granéis líquidos — que incluem gasolina, diesel, etanol e químicos — têm participação relevante e estratégica na operação santista. O porto é um dos principais pontos de entrada e distribuição desses produtos para o Sudeste, o que o coloca no centro da segurança energética nacional.

Terminais concentram operação de combustíveis

A movimentação desse tipo de carga está concentrada nas áreas da Alemoa e da Ilha Barnabé, onde operam terminais dedicados a granéis líquidos, com infraestrutura de tancagem e conexão dutoviária. Esses ativos permitem o recebimento de grandes volumes e sua rápida distribuição para o mercado consumidor, especialmente no interior paulista.

Na prática, essa estrutura transforma Santos em um elo crítico da cadeia de abastecimento. Qualquer restrição operacional nesses terminais tem impacto direto sobre a disponibilidade de combustíveis e pode se refletir rapidamente em preços e logística de distribuição.

Saturação e reprogramação de cargas

A priorização segue protocolos já previstos na gestão portuária. Em situações críticas, a autoridade pode alterar a ordem de atracação com base no interesse público — mecanismo já utilizado, por exemplo, para agilizar o desembarque de doações durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.

De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos, a decisão atual se enquadra nesse tipo de discricionariedade, aplicada quando há risco sistêmico ou impacto relevante à sociedade.

Entretanto, a medida de priorizar combustíveis pressiona ainda mais a capacidade instalada. Mais de dez navios desse segmento aguardam posição para atracação, enquanto os berços e sistemas de descarga operam no limite.

Esse tipo de intervenção tende a gerar reprogramação de janelas para outras cargas e aumento do tempo de espera de embarcações. O efeito imediato é a elevação de custos logísticos, com potencial incidência de demurrage – multa cobrada pelo atraso na devolução de um ativo logístico, normalmente contêiner ou navio, além do prazo acordado em contrato – , além de impactos indiretos sobre cadeias industriais que dependem da fluidez do porto. A operação passa, temporariamente, a incorporar critérios de segurança de abastecimento, e não apenas de eficiência.

Santos não lidera combustíveis no país

Apesar de ser o maior porto do Brasil em volume total, com mais de 130 milhões de toneladas movimentadas por ano, Santos não é o principal polo nacional de combustíveis. Outros portos têm papel mais especializado nesse segmento.

O Porto do Itaqui (RS) consolidou-se como um dos principais hubs de granéis líquidos do país, com expansão recente da capacidade de tancagem e forte crescimento na movimentação de derivados. Já o Porto de São Sebastião opera com elevada especialização em petróleo e derivados, integrado ao sistema da Petrobras. O Porto de Paranaguá (PR) e o Porto do Rio de Janeiro (RJ) também têm participação relevante na movimentação de combustíveis e produtos químicos, atendendo diferentes regiões do país.

Esse desenho mostra que, embora Santos seja central na distribuição, a logística de combustíveis no Brasil depende de uma rede de portos com diferentes especializações e capacidades.

Limites estruturais

A priorização de combustíveis no Porto de Santos evidencia uma mudança mais ampla no setor logístico. Frente à instabilidade geopolítica, a operação portuária passa a responder a critérios de segurança e resiliência.

No curto prazo, a medida reduz o risco de desabastecimento. No entanto, também expõe limitações estruturais, como a capacidade restrita de terminais de granéis líquidos e a dependência de poucos corredores logísticos para abastecimento de grandes centros consumidores. Para operadores e embarcadores, o episódio reforça a necessidade de planejamento mais robusto e diversificação de rotas e modais.

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