“Mercado pode crescer, mas juros e incertezas seguram demanda”, diz presidente da Anfir

Indústria opera com ociosidade elevada, enfrenta margens pressionadas e vê potencial de produção esbarrar no custo do crédito e na cautela dos clientes

Aline Feltrin

O setor de implementos rodoviários deve enfrentar mais um ano de crescimento limitado em 2026. A avaliação é de José Carlos Spricigo, presidente da Anfir, entidade que reúne cerca de 200 fabricantes no país, em entrevista à Agência Transporte Moderno. Ele aponta a combinação de juros elevados, incertezas geopolíticas e margens pressionadas no agronegócio como os principais entraves para uma retomada mais consistente.

“Há uma evolução mês a mês, mas o cenário ainda não é positivo (veja aqui os resultados do primeiro trimestre). Falta confiança para investimentos maiores”, afirma o executivo. Segundo ele, fatores externos, como oscilações no preço do petróleo e conflitos internacionais, também contribuem para um ambiente de cautela.

No Brasil, o custo do crédito segue como um dos principais obstáculos. A expectativa da entidade é de que a taxa de juros termine o ano em patamar mais alto do que o inicialmente previsto, reduzindo ainda mais o apetite por novos investimentos. “Isso faz com que o setor ande de lado, o que não é bom para ninguém, mas exige resiliência da indústria”, diz.

Apesar das dificuldades, Spricigo destaca que há demanda reprimida no mercado, especialmente após a forte retração registrada em 2025, principalmente na linha pesada. Na avaliação dele, o setor poderia operar em níveis mais elevados.

“O mercado teria capacidade para cerca de 100 mil unidades na linha pesada e entre 80 mil e 90 mil na leve, mas não temos atingido esses números”, afirma. O cenário de endividamento maior dos clientes e margens mais apertadas tem limitado a concretização dessas vendas.

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Segundo trimestre será decisivo

O desempenho ao longo do segundo trimestre será determinante para medir o nível de confiança do mercado. Segundo o presidente da Anfir, fatores como o resultado da safra, especialmente do milho, e a evolução de segmentos como e-commerce e transporte de líquidos podem influenciar diretamente a demanda por implementos.

Ele também cita expectativas em nichos específicos, como o setor florestal, que pode destravar novos investimentos, enquanto outros segmentos, como o sucroenergético, devem repetir o desempenho do ano anterior, sem grandes avanços.

O setor de implementos segue fortemente atrelado ao desempenho da indústria de caminhões. Na linha leve, a correlação é praticamente direta — um caminhão equivale a um implemento. Já na linha pesada, um único veículo pode demandar mais de um equipamento, dependendo da aplicação. “Ainda existe um grande acompanhamento das vendas com o ciclo de caminhões”, reforça Spricigo.

A indústria opera atualmente com cerca de 70% da capacidade instalada, o que indica uma ociosidade de aproximadamente 30%. Nesse contexto, o foco das empresas tem sido a preservação de caixa. “Hoje temos uma oferta maior do que a demanda, então não há necessidade imediata de grandes investimentos, apenas melhorias pontuais com retorno rápido”, explica.

Entre os principais gargalos estruturais, o executivo destaca o crédito restrito e caro, a alta carga tributária e a deficiência em infraestrutura. Ele também critica a falta de políticas públicas consistentes de longo prazo.

“A participação do BNDES já foi muito mais relevante na aceleração das vendas. Hoje falta previsibilidade, e isso dificulta o planejamento da indústria”, afirma, em referência ao BNDES.

Renovação de frota segue como vetor

Por outro lado, a necessidade de renovação da frota continua sendo um fator positivo para o setor. O envelhecimento dos equipamentos eleva os custos de manutenção e estimula a substituição por modelos mais modernos, com ganhos em eficiência, segurança e redução de peso.

Além disso, o mercado de usados segue aquecido, com alta rotatividade, embora tenha sofrido impacto recente com a maior oferta de ativos provenientes de locadoras.

Para uma retomada mais robusta a partir de 2027, Spricigo defende avanços em infraestrutura e maior previsibilidade econômica. Ele ressalta a importância de investimentos em rodovias e concessões, considerando que cerca de 65% do transporte de cargas no Brasil depende do modal rodoviário.

“O principal fator é a confiança. O Brasil precisa retomar um caminho claro, com previsibilidade, queda de juros e investimentos em infraestrutura. Isso é fundamental para impulsionar o nosso setor”, conclui.

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