O avanço dos pneus importados no segmento de veículos de carga — que já respondem por cerca de 70% a 75% das vendas no país — levou a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) a intensificar a pressão sobre o governo federal por medidas de proteção comercial. Em manifesto entregue nesta semana ao governo e assinado por cerca de 40 entidades da cadeia produtiva, o setor pede ações urgentes para reequilibrar a concorrência, com impacto direto sobre o transporte rodoviário de cargas.
Entre os principais pontos está a aceleração das investigações antidumping, com aplicação de medidas provisórias enquanto os processos ainda estão em andamento. O pacote também inclui incentivos ao uso de pneus com conteúdo local — tanto em compras governamentais quanto em linhas de financiamento — além do alinhamento tarifário do Brasil com países que possuem base industrial relevante.
A agenda contempla ainda a implementação da Política de Estímulo à Produção da Borracha no Brasil, em fase final de elaboração pelo governo. “Este é um pacote de medidas para restabelecer condições de isonomia e preservar a indústria nacional e seu ecossistema”, afirma Rodrigo Navarro, presidente da ANIP. Segundo ele, a cadeia emprega cerca de 35 mil pessoas diretamente e mais de 500 mil indiretamente.
No dia a dia das transportadoras, o fator preço tem sido determinante. Em um cenário de margens comprimidas, juros elevados e pressão sobre custos operacionais, caminhoneiros autônomos e empresas têm priorizado pneus mais baratos, o que favorece a entrada de produtos estrangeiros.
O resultado é uma mudança estrutural no mercado. Atualmente, os importados já representam cerca de 72% das vendas totais de pneus no Brasil e chegam a aproximadamente 75% no segmento de carga, segundo Navarro. Apesar do alívio imediato no caixa, o movimento levanta preocupações. O pneu é um dos principais insumos da operação rodoviária, com impacto direto na segurança, na durabilidade e no custo total por quilômetro rodado.
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Crédito para pneus entra na agenda
Diante desse cenário, a indústria tenta avançar também pelo lado da demanda. Em entrevista recente à Agência Transporte Moderno, Navarro afirmou que o setor discute com o governo a criação de uma linha de financiamento para troca de pneus, inspirada no programa Move Brasil, com expectativa de lançamento ainda em 2026.
A proposta prevê um mecanismo de crédito para facilitar a compra de pneus novos, especialmente por caminhoneiros autônomos, que hoje recorrem a produtos importados mais baratos. O parcelamento da troca — um dos principais custos da operação — pode estimular a demanda por pneus fabricados no país. Segundo o executivo, a iniciativa faz parte de um conjunto mais amplo de ações para reequilibrar o mercado, incluindo maior controle sobre importações e incentivos à produção nacional.
Pior resultado desde 2019
Para o setor, parte do avanço dos importados está associada a práticas de concorrência consideradas desleais, incluindo indícios de dumping e mudanças frequentes na origem das exportações para contornar medidas comerciais.
Além disso, a retração da produção local já afeta a cadeia da borracha natural. A indústria de pneus responde por cerca de 80% da demanda no país, e a queda no consumo pode comprometer investimentos e a capacidade produtiva no médio prazo. Sem medidas de reequilíbrio, a avaliação é que o Brasil pode ampliar a dependência externa em um insumo crítico para o transporte de cargas.
Esse cenário se reflete nos números da indústria pneus, incluindo os de carga e de passeio. Nos dois primeiros meses de 2026, as vendas de pneus produzidos no Brasil somaram 5,5 milhões de unidades, queda de 10,6% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a ANIP. O resultado é o pior para um primeiro bimestre desde 2019, acumulando retração de 27,5% frente às 7,5 milhões de unidades daquele ano.
A queda foi disseminada: as vendas no mercado de reposição recuaram 10,1%, enquanto as destinadas às montadoras caíram 11,5%, passando de 2,1 milhões para 1,9 milhão de unidades. Ao mesmo tempo, a participação da indústria nacional segue encolhendo. O market share caiu para 31% no primeiro bimestre, ante 41% em 2025 e 63% em 2021. “Os resultados seguem extremamente preocupantes, colocando em risco a operação das fabricantes, os empregos e a própria soberania nacional”, conclui Navarro.
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