O frete aéreo internacional registrou uma forte escalada em março, impulsionado pela combinação de aumento no preço do querosene de aviação e redução da capacidade operacional em rotas estratégicas. Dados da Drewry indicam que as tarifas chegaram a subir até 95% em algumas ligações, aproximando o mercado dos níveis observados durante a pandemia.
A pressão é mais intensa em rotas afetadas diretamente pelas tensões no Oriente Médio. O frete entre Xangai e Dubai, por exemplo, alcançou US$ 8,60, com potencial de ultrapassar o recorde de US$ 9,40 registrado em 2020, caso os adicionais de combustível continuem avançando.
Combustível e capacidade puxam alta
Além do aumento do preço do combustível, o mercado enfrenta um segundo vetor de pressão: a redução da oferta de voos. Segundo a Drewry, cerca de metade das rotas internacionais monitoradas registrou alta mensal de pelo menos 20% em março.
Os chamados fuel surcharges chegaram a subir até 290% em algumas rotas, enquanto taxas de segurança avançaram 44% em ligações entre o Oriente Médio e a Europa. Ao mesmo tempo, restrições operacionais envolvendo companhias do Golfo reduziram a capacidade disponível em corredores relevantes do comércio global.
O impacto vai além das rotas diretamente afetadas. Regiões conectadas ao Oriente Médio respondem por cerca de 15,6% do tráfego global de carga aérea e 18,2% da capacidade, ampliando o efeito sistêmico sobre o setor.
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Setor sensível ao combustível
Para Adriano Birle, economista responsável pelas análises de combustíveis e resinas plásticas da GEP Brasil, o frete aéreo tende a reagir de forma mais rápida e intensa a choques no preço da energia.
“O repasse do aumento do combustível para o frete aéreo ocorre relativamente rápido, porque é um setor muito sensível a esse custo. O combustível responde por algo entre 30% e 50% da estrutura de custos das companhias aéreas”, afirma. Segundo ele, esse peso é superior ao observado em outros modais, como o marítimo e o rodoviário, o que explica a maior volatilidade das tarifas aéreas em momentos de crise.

No Brasil, a pressão sobre os custos também se intensifica. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) alerta que o preço do querosene de aviação (QAV) acumula alta de 54,6%, após reajuste adicional de 9,4% em março, elevando a participação do combustível para cerca de 45% dos custos operacionais das companhias.
Segundo a entidade, o movimento tende a restringir a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, com impacto direto sobre a conectividade e a expansão do transporte aéreo no país.
A associação destaca ainda que, embora mais de 80% do QAV (querosene de aviação) consumido no Brasil seja produzido internamente, sua precificação segue a paridade internacional, o que amplia os efeitos de choques externos sobre os custos das companhias aéreas.
Impacto inflacionário é limitado
Apesar da alta expressiva, o efeito sobre a inflação tende a ser mais restrito. Birle avalia que o impacto deve se concentrar em nichos específicos, especialmente produtos de maior valor agregado e cargas perecíveis.
“Diesel e frete terrestre têm um impacto muito mais relevante no médio prazo. No caso do frete aéreo, o efeito inflacionário fica mais concentrado em segmentos que dependem desse modal”, diz.
Por outro lado, o impacto mais imediato já aparece no transporte de passageiros. Dados recentes divulgados pela imprensa mostram avanço no preço das passagens aéreas, refletindo o aumento do custo operacional das companhias.
Baixa migração para outros modais
Mesmo com a alta dos preços, a tendência de migração para outros modais é limitada. Segundo o economista, a demanda por transporte aéreo apresenta baixa elasticidade. “Não costuma haver uma migração significativa para outros modais, porque o transporte aéreo já é utilizado para cargas que exigem rapidez ou têm alto valor agregado”, afirma.
O fator tempo e a natureza das mercadorias transportadas restringem alternativas logísticas, mantendo a demanda relativamente estável mesmo em cenários de alta de preços.
Duração do conflito
No mercado de energia, as projeções ainda indicam um cenário de choque temporário. As curvas futuras do petróleo Brent apontam preços acima de US$ 100 por barril no segundo trimestre, com recuo esperado ao longo do ano.
“Hoje o mercado ainda precifica um conflito relativamente curto, com possível estabilização até meados do ano. Se esse cenário se confirmar, o impacto tende a ser significativo, mas administrável”, afirma Birle.
Ele ressalta, no entanto, que há risco de deterioração caso o conflito se prolongue. Nesse cenário, os efeitos sobre o frete aéreo podem se intensificar e se aproximar de forma mais duradoura dos níveis observados durante a pandemia.
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